OPINIÃO

A hipocrisia reina nas redes sociais

Ninguém pode falar sobre o que é 'dar certo'. Ninguém pode falar sobre 'dar certo' sem usar aspas.

23/06/2017 12:49 -03 | Atualizado 23/06/2017 12:51 -03
REPRODUÇÃO/BOMBORS
Alunos fazem festa com tema 'se nada der certo' e se fantasiam de faxineiro, ambulante e cozinheiro

São tempos interessantes para tentar manter um blog. Porque não passam três dias sem um grande assunto para comentar ou um grande escândalo.

Claro que não são tão grandes assim. Tanto que duram uma semana. Depois morrem esquecidos, enterrados sob a vergonha das indignações passadas.

Imagine passear pelos posts antigos de facebook, reviver os tweets inflamados de outrora. Aquela galeria de episódios ofensivos, todos devidamente acusados com desmedido afã: o assédio do Zé Mayer, a propaganda da Alezzia, as axilas da Gal Gadot!!

Revelando o autor, aquele paladino da justiça social, cumprindo seu dever cívico de não deixar passar nenhuma ofensa às sensibilidades progressistas.

Pensando no que escrever esta semana, tentei alinhavar a profusão de temas e encontrar um ponto comum em meio ao queixume geral. Percebi que nada representa melhor o fluxo de discussões nas redes sociais que a hipocrisia.

Outro dia, um amigo tentou discutir, em um grupo do qual participo, o episódio da festa "se nada der certo". Causou furor com trocas de ofensas e gente saindo do grupo que, até ali, era um ambiente super pacífico. É dificílimo revelar hipocrisias. Ofende as pessoas.

Imagine que você é um profissional de nível superior, cujos pais não tiveram estudo. Trabalharam como motorista, vendedor, costureira, sei lá, para que você pudesse estudar. Você entra na faculdade, começa a trabalhar na sua profissão, casa com um colega, tem filhos e os matricula em uma escola particular.

Em relação à vida dos seus pais, tudo mudou para você. Você ganha mais, tem mais acesso a cultura, viajou algumas vezes para o exterior, consegue pagar um plano de saúde, uma previdência privada e financiar um apartamento. Seus pais conseguiram: deram um futuro melhor para você do que jamais foi possível para eles.

Aí seus filhos não vão bem na escola. Não gostam de estudar, estão sempre saindo com os amigos, dormem tarde, perdem aulas e morrem de rir, trocando olhares cúmplices, toda vez que alguém diz "vamos bolar alguma coisa" ou "baseado em quê?". Não passam no vestibular, não conseguem emprego e, eventualmente, sob ameaças de perderem a mesada, começam a trabalhar com o que der. Um vai ser motorista, outro vendedor. Igual aos avós!

Você vai olhar bem, pensar na vida, e concluir: "alguma coisa não deu certo". Talvez, por ter um pensamento moderno, uma mente aberta, você rechace esse pensamento. "Não, meus pais trabalharam nisso, agora meus filhos estão trabalhando, bom para eles". E sabe o quê? Esses dois pensamentos estão certos, ao mesmo tempo. Sim, bom para eles que estão trabalhando dignamente. Mas, sim, algo deu muito, muito errado.

E sabe quem não terá papas na língua sobre esse assunto? Seus pais. Eles, que trabalharam como motorista e vendedor, lhe dirão na lata: "Motorista?! Foi pra isso que eu me esforcei tanto?". E eles têm razão. Não há nada indigno em trabalhar honestamente.

De toda esta história, seus pais, que trabalharam como motorista e vendedor, foram os que mais "deram certo". Foram dignos, honestos, perseguiram valores, lutaram por aquilo que julgavam ser bom e justo, e tiveram sucesso. Pena que os netos deram errado.

Mas quem é que define o que é "dar certo"? Por que os seus filhos não podem "dar certo" sem faculdade? O que importa não é "ser feliz"?

Eu não sei quem define o que é "dar certo". Não a mesma coisa para todo mundo, mas cada um tem de ter o direito, inalienável, de definir o que é "dar certo" para a sua vida. Os alunos daquela escola definiram e foram massacrados por isso.

Hipocrisia.

A internet favorece essa hipocrisia. Porque é uma forma tão ubíqua de comunicação que transcende certas barreiras culturais. Provavelmente, no ambiente da escola, a brincadeira da festa não foi percebida por ninguém como ofensiva. Mas, na internet, onde as pessoas que trabalham nas profissões representadas nas fantasias vão ver as fotos e pensar "estão dizendo que eu não dei certo?!", tudo muda de figura.

Isso é muito interessante. Porque, de fato, expor as coisas de uma certa forma na internet pode ser ofensivo para muita gente. Há um debate possível, e muito salutar, sobre as formas e consequências dessa exposição. O que não quer dizer que o conteúdo comunicado seja falso. Se algum aluno daquela escola acabar tendo de trabalhar como ambulante no farol, algo deu errado. Isso é fato. Não adianta ser hipócrita.

Esta questão específica, levantada pela festa da escola, ainda representa uma outra hipocrisia mais abrangente. É quase impossível falar abertamente sobre o quanto as pessoas são diferentes, vivem vidas diferentes e têm expectativas diferentes.

Algumas pessoas vão estudar nas melhores faculdades. Algumas vão entrar em faculdades medianas. Algumas em faculdades ruins. E outras jamais farão faculdade. As pessoas não são todas iguais, e o que é "dar certo" para umas pode ser "dar errado" para outras. É feio escrever algo assim. Parece injusto. Pode ser. Mas não é hipócrita.

A hipocrisia corre solta. Vejamos outro exemplo: a cracolândia. Trata-se de uma área afetada por uma fenda interdimensional capaz de dobrar a realidade. As pessoas que vivem ali são afetadas por forças cósmicas e sofrem uma interessante mutação. Toda vez que a polícia tenta retirá-las de lá por força da lei, elas se tornam incapazes de responder à lei porque não são criminosas, são usuárias, afetadas por uma doença que as torna incapazes de responder por suas transgressões.

quando uma equipe de saúde tenta retirá-las para tratamento, elas se transformam em indivíduos capazes, autônomos, que não podem ser coagidos a fazer o que não querem, pois não estão doentes. Que força incrível é capaz de operar essa mutação espantosa? Chama-se hipocrisia.

O tema também volta no triste episódio do ladrão tatuado na testa. Deixemos claro que o ato de tortura é indefensável. Não vou relativizar nada aqui, muito menos defender. Tatuar o criminoso foi um crime horrendo.

Mas a reação na internet me lembrou o clássico Apocalipse Now, em que o Coronel Kurtz incorpora o extremo da falta de hipocrisia. O que todos veem como loucura, para ele é a pureza destilada e cristalina da guerra: o horror.

O caso da tatuagem foi um horror. Mas a indignação de butique é hipócrita, porque falha em ver a realidade da sociedade em que vivemos. Falha em ver o estado de horror sitiado em que vivem as "pessoas de bem".

Como são hipócritas as hashtags "prayfor" a cada novo ataque do terror fundamentalista islâmico. Como são hipócritas as passeatas que servem para lavar a alma dos inconformados, garantindo mais alguns meses de conformidade sem dor.

Vivemos um momento especialmente podre de nossa sociedade. Crise econômica, violência urbana, falência política, desesperança. O discurso sobre valores é atacado por todos os lados. Descontruído. Ninguém pode falar sobre o que é "dar certo". Ninguém pode falar sobre "dar certo" sem usar aspas. Mérito é mal visto. Sucesso é elitismo. Drogas são legais. Miséria é romantizada.

É difícil até saber por onde começar a melhorar. Faltam valores. E pode parecer que a indignação aponte um conjunto de valores. Mas não. Indignação hipócrita é uma espécie de cegueira moral. Não serve nem de catarse. É só um alívio covarde, subserviente ao ego. Nunca sairemos do lugar enquanto não encararmos os problemas.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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