OPINIÃO

A força de um gesto: considerações cheias de spoilers sobre o novo 'Star Wars'

15/02/2016 20:06 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Reprodução/Youtube

Star Wars é muito simples. É uma história sobre luz e trevas, bem e mal. É tão bobinha quanto essas histórias costumam ser e tão complexa quanto é possível que elas sejam.

Há uma força nessa simplicidade. A guerra entre bem e mal é arquetípica. Por falsa que seja, ela faz sentido, ressoa com alguma coisa dentro de nós. Anda meio fora de moda, é verdade. Mas, apresentada da forma correta, é um sucesso.

O Despertar da Força, novo filme da saga, faz isso com maestria. Já começa muito bem, colocando o espectador na perspectiva de um stormtrooper, os peões indistintos e incompetentes que morrem aos borbotões nos outros filmes.

Ao mesmo tempo em que o assalto dos stormtroopers é tão familiar na série, essa perspectiva nova muda tudo. Um deles acode um colega ferido. Com a mão desnuda, a armadura quebrada, o moribundo faz um último gesto, escorrendo os dedos ensanguentados pelo capacete do outro, que não pode fazer nada além de vê-lo morrer.

A partir desse gesto, aquele stormtrooper está mudado para sempre. Ele ganha a mancha de sangue no capacete que serve para que o identifiquemos nas cenas seguintes, mas ganha mais do que isso.

Ele olha para ação de sua tropa, dizimando uma vila, assassinando mulheres e crianças. Ele sabe que aquilo é o mal, e decide que escolhe o bem. O toque do homem que ele viu morrer o tocou de compaixão.

O nome do stormtrooper renegado é Finn, interpretado pelo britânico John Boyega. Ao final da cena do ataque à vila, o vilão Kylo Ren (Adam Driver) nota Finn, eles se encaram através das máscaras por alguns segundos.

Quem achava que Finn seria o novo jedi, como o trailer dava a entender, achou que o vilão estaria sentindo a "Força". Mas não, já sabemos que Finn não é um jedi.

O que Kylo Ren sentiu foi alguém tocado pela luz. Alguém que parou para ajudar um ferido, que se negou a disparar contra inocentes. Não a Força, mas a força de um gesto.

Kylo, o novo Darth Vader, é muito interessante. Ele é o Vader da geração millenium. Jovem, inseguro, dado a ataques de birra.

Na reprodução da cena em que um oficial do Império é sufocado por Vader ao reportar um fracasso, Kylo não mata ninguém. Saca sua espada para golpear tudo à sua volta como uma criança mimada, assistido pelo oficial incrédulo e assustado.

Em outro de seus ataques, dois stormtroopers dão meia volta para evitar o moleque birrento, em uma das várias cenas cômicas do filme.

O conflito entre luz e trevas é explícito em Kylo. Ele mesmo admite que ainda sente a luz, pedindo ajuda ao vovô Vader, representado pelo icônico capacete destroçado, para que não saia do caminho do mal. Essa motivação levará ao confronto mais emocional do filme, o ponto alto da nova fase da saga: a morte de Han Solo.

Se há alguma crítica a fazer a essa cena, é que era óbvio demais. Han e Kylo se enfrentam em uma plataforma estreita sobre um abismo sem fim. Os outros personagens chegam à cena em posição de assistir a tudo sem poder intervir.

A trilha sonora silencia. Han pede para ver a face de seu filho. Kylo mostra, e se revela, sem mentiras. Diz que sabe o deve fazer, mas não sabe se terá coragem. Pede ajuda a Han, que a oferece incondicionalmente. O Sol se apaga, negando a luz. Kylo agradece, e mata seu pai.

Tudo indica que aí acabou o conflito. Não pode restar um laivo de luz na alma do parricida. Se havia alguma dúvida sobre o caminho a seguir, Kylo fez sua escolha definitiva.

Mas, antes de morrer, Han Solo faz um último gesto. À maneira do stormtrooper moribundo, ele toca o rosto do filho. Escorre os dedos pela face desmascarada. Um último carinho que não poderia jamais deixar de encontrar o que Kylo tenta, a todo custo, esconder.

Dedos que não tocam o vilão, ultrapassam-no, para encostar uma derradeira vez a pele de Ben Solo. Antes de cair no abismo Han diz, sem palavras: "Eu te vejo, meu filho. Eu te amo e te perdôo". Só com um breve toque. Uma linda despedida para um grande ator e um grande personagem.

Star Wars é simples. É puro escapismo. Mas não deixa de haver uma mensagem interessante para nós - vinda de uma galáxia muito, muito distante - nesses gestos de compaixão. Uma mensagem sobre amor, luz, e todas essas coisas meio démodés. Sobre a importância de um gesto que seja daqueles que são bons, diante das atrocidades do mundo.

Eu não me espantaria se viermos a descobrir, lá no final do episódio IX, que o principal responsável pela inevitável vitória do bem sobre o mal terá sido Han Solo. Arrisco o palpite: Kylo não será derrotado pela Força, mas pela força de um gesto.

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