OPINIÃO

Poomsae: corpo e mente saudável através do Taekwondo

07/04/2016 10:26 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
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Cork, Ireland

Foi representando o Brasil no mundial de programação que tive a oportunidade de conhecer o Japão e posteriormente a Coreia do Sul. Mesmo com idade "avançada", participar de uma mundial e representar o Brasil é emocionante, mas o uso indiscriminado do computador na minha vida pessoal e profissional me levou a ter problemas de saúde.

A médica recomendou exercícios e, aos 33 anos, comecei a praticar taekwondo. Um ano depois, meu pai veio me ver pela primeira vez em uma competição. Aos 34, competindo? Como diz o mestre Yeo Jin Kim, diferentemente da luta, para um artista marcial a idade não conta como fator limitante.

Uma arte marcial maior do que uma competição de combate, onde mais novos e mais velhos aprendem e crescem juntos, aperfeiçoando o controle de seus corpos e mentes.

Sob o olhar da minha família, fiquei em primeiro lugar de minha categoria. Sai tenso, suado, cansado e feliz, além de meu pai ter se orgulhado de mim. Ah, claro. Ninguém ficou roxo.

Muitos conhecem o taekwondo como esporte olímpico, mas por trás dos chutes que alguns assistem somente a cada 4 anos, existe uma outra área ainda desconhecida de grande parte dos brasileiros.

Defende, soca, vira, defende, soca, vira, defende chuta, vira, defende chuta, vira, defende e dá uma cotovelada. Descrito dessa maneira empobrecida, a sequência lembra uma combinação de golpes de do Street Fighter. Por trás dela, centenas de detalhes que um praticante de taekwondo encontra no mundo real, como uma defesa de um soco no rosto e um golpe no pescoço do adversário - tudo ao mesmo tempo.

O Poomsae exige do atleta um domínio tanto sob sua mente quanto do seu corpo que não é trivial para uma geração bombardeada por informações. Não é a toa que "o domínio sob si mesmo" é uma das bases explicitamente escritas e adotadas nos institutos de taekwondo.

Tive a oportunidade de, ainda faixa branca, ter aula com Claudio Rodrigues, mestre de taekwondo em São Paulo, que diz que "todos os movimentos do poomsae são movimentos voltados para o combate, é fácil de perceber isso porque são movimentos de ataque, defesa e deslocamentos. É necessário pensar no combate (visando defesa pessoal) em uma dinâmica diferente da luta competitiva. Os praticantes de taekwondo, em geral, quando pensam em luta, eles pensam no modo dinâmico-competitivo o que muitas vezes inviabiliza o pensamento de se poder usar uma defesa ou um movimento diferenciado num combate."

Mas será mesmo que Poomsae pode ser aplicado no mundo real?

Lembro de minha primeira aula de defesa de soco no peito. O mestre Claudio repetia o soco, controlando sua força, eu "defendia" rotacionando o braço ao redor do ombro, e mesmo assim o soco entrava.

Eu errava.

Kwang Soo Kim, mestre em Seoul, me disse: "os músculos devem estar relaxados, não podem estar tensos. A altura da mão de defesa deve estar em uma posição que permita esse relaxamento". Hoje percebo, se eu mudo dez centímetros a altura inicial de uma defesa, os músculos enrijecem e parte do poder da defesa vai embora: a posição inicial ou a rotação errada de um braço pode ser a causa do sucesso ou fracasso de um combate real.

O próprio mestre Claudio lembra de um curso dado na sede da federação por integrantes do K-tigers, time de demonstração de taekwondo: apesar do foco ser em Poomsae, eles reforçavam a idéia de que a força não vem necessariamente da amplitude do movimento, mas sim da velocidade, e que são visíveis as diferenças de resultados entre um movimento aplicado com velocidade e firmeza ao invés de somente firmeza.

O mestre Renato Ribeiro, lembra que "é através do Poomsae que o aluno começa a ter entendimento do que é o taekwondo, mas para isso é preciso que o instrutor seja um estudante da arte taekwondo e não só um mero manequim, reprodutor de chutes e movimentos de ataques e defesas".

Quando comecei como faixa branca lembro de ter decorado a frase "Poomsae é uma serie de movimentos de ataque e defesa com adversários imaginários". Segundo o mestre "não é apenas isso, Poomsae é uma filosofia de vida", envolvendo tudo o que citamos anteriormente.

Mestre Claudio diz que podemos ver o Poomsae de diversas maneiras, e uma delas é como um preparativo, lembrando que ele corrige os movimentos de braço, a aplicação de distância propositalmente em um combate (mudança de bases), além de reforçar o condicionamento físico, a equilíbrio, a postura a concentração e muito mais.

O mestre Renato me lembra que "é o Poomsae que vai lapidar detalhadamente cada técnica de braço, perna, postura, olhar, respiração, momento de contrair ou relaxar a musculatura e determinar o momento e qual o grupo muscular que deve ou não ser usado e em que momento, a fluides, coordenação dos movimentos de ataque, defesa e base". E isso faz diferença pra quem se diverte e gostaria de lutar? "Tudo isso também enriquece o atleta de luta, capacita o mesmo a ter mais criatividade, mais confiança e firmeza em sua base, até mesmo a ser mais eficaz ao aplicar uma técnica de chute."

O taekwondo pode ser dividido em muitas partes, com a intenção de simplificar. O mestre Nam - referencia de demonstração de taekwondo - divide a prática em três partes principais: combate (Kyorugi), forma (Poomsae) e demonstração (Shibon). Em uma palestra assistida pelo mestre Claudio, Nam enfatiza que a vida de um lutador é extremamente curta: um atleta que vá em competições de ponta para lutar não fará isso muito tempo, é comum que a carreira seja efetiva até cerca de 28 anos de idade. Já os outros aspectos independem da idade, podendo ser praticados até mesmo por pessoas de idade mais avançada.

Segundo Claudio, "os coreanos enxergam o Poomsae como algo mais separado, alvo merecido de diversos estudos e discussões constantes. A quantidade de livros que se possui em coreano a esse respeito é de fato muito grande como o 태권도 품새 응용 KTA호신술, que ainda não tive acesso, mas trata sobre a aplicação dos movimentos do poomsae. Aqui no Brasil enxergamos as partes como um processo do topo, o que nos atrapalha um pouco em separar as coisas".

De acordo com ele, a medida que as entidades esportivas tratarem o Poomsae de uma forma separada, a competição se tornara mais profissional. Para não desanimar os atletas, as competições brasileiras em geral ainda não se adaptaram completamente as regras mais modernas. Parece que 2016 é um bom ano para isso, com um evento especial de competição de Poomsae e o campeonato brasileiro acontecendo em Salvador.

Para o mestre Claudio podemos ajudar ainda mais a divulgação do Poomsae como uma categoria a medida que criarmos novos e disseminarmos ainda mais os cursos existentes da área, seja no ambito prático, filosófico ou aplicação.

Como regra geral, ele recomenda: estudar. Não somente com videos na Internet, mas também livros que descrevem mais a fundo a experiʼencia vivida por um atleta de Poomsae.

O mestre Renato lembra que "o atleta de poomsae busca a perfeição, o crescimento pessoal muito acima de medalhas. A seleção brasileira tem como objetivo fazer com que todos os praticantes brasileiros entendam mais sobre todo o taekwondo, não só como o esporte de luta". Mas para isso o caminho ainda é longo.

Ao meu ver, por ser esporte olímpico, o taekwondo ganha visibilidade e adeptos, o que é ótimo. Mas justamente por ser esporte olímpico o peso da balança tendencia pra luta, favorecendo a criação de academias e curriculum que formam o atleta lutador, o que é compreensível. Como o mestre Renato cita, é nosso papel tornarmos o Poomsae e tudo o que vem com ele o mais viável e palpável para os praticantes de taekwondo. Papel meu, de aluno, e papel seu, de futuro aluno de taekwondo? :)

A seleção brasileira de Poomsae conseguiu mesmo sem apoio do orgão máximo brasileiro os melhores resultados internacionais em 2014 em Águas Calientes/México. E em 2015, no mundial em Lima/Peru, foram mais três troféus que infelizmente não estão em poder da seleção fisicamente, mas "não estamos preocupados com as premiações e sim que os instrutores e mestres taekwondistas entendam a importância do poomsae da formação do cidadão (dos homens)."

Como conquistar espaço no coração dos alunos sem o apoio dos órgãos e patrocinadores? O caminho é duro, mas pelas conquistas da seleção e pela força de vontade que escuto nas vozes desses mestres, esse dia virá.

Com meu background de tecnologia da educação me parece que tenho um papel para fazer a ajudar a divulgar o Poomsae. Vamos treinar? Peço sempre para meus mestres mais Poomsaes.

Peça também para o seu mestre. Quem sabe nos encontramos no próximo campeonato, para estudarmos e crescermos juntos na nossa compreensão de nossos corpos e mentes.

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