OPINIÃO

Recife e seus arredores são tão ricos que deveriam ser a terceira via da História nas escolas

13/12/2016 12:30 -02 | Atualizado 13/12/2016 12:30 -02

Bem-vindo a Recife, dizia a placa no saguão do aeroporto, assim que saíram da área de desembarque. Não precisaram nem procurar aqueles caras com os sobrenomes nas plaquinhas, já sabiam onde ir. Eles sabiam tudo. Eles sabem tudo, estão há sessenta anos juntos, o que há para não saber?

Mais uma viagem para colocar na lista, mais uma visita ao litoral nordestino que, desculpe Caribe, não há melhor e mais bonito no mundo. Fazer o que lá dessa vez? Aproveitar, oras. Existe outra coisa para se fazer da vida depois dos oitenta? Se existe eu não quero saber o que.

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Recife e seus arredores são tão ricos que deveriam ser a terceira via da História nas escolas: História Geral, História do Brasil e História do Recife. É impossível contar, ou ao menos contar direito, nossos atos passados sem falar de Gilberto Freyre, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Chico Science, Paulo Freire e tantos outros. Todos da região.

E eles sabiam disso, absorveram pouco a pouco em cada uma das nove vezes que visitaram a cidade. Agora vieram em jogo rápido, cinco dias, um hotel, algumas praias, um caldo de peixe aqui, um sarapatel se o estômago aguentar e um bolo de rolo pra arrematar. Ô coisa boa!

Talvez uma jangada numa tarde pra sentir preguiça nas piscinas naturais. Talvez um dia em Olinda ou Porto de Galinhas. Um pulo em Maria-Farinha, Tamandaré... Carneiros, por que não? Boa Viagem e Pina são pros iniciantes.

Agora, iniciante ou veterano, não dá para ignorar o Capibaribe, muito menos os feitos políticos dessa gente cabeça-boa: Guerra dos Mascates, Revolução Pernambucana, Confederação do Equador, Revolta Praieira. Tudo lá. Metrópole pernambucana que já foi portuguesa, já foi holandesa e hoje é brasileira, brasileiríssima. Terra de mar verde e morno, terra do frevo e do manguebeat.

E assim os cinco dias passaram como deveriam, no tempo certo. Os velhinhos voltaram para São Paulo, lúcidos e lentos. Felizes. Da mesma forma que embarcaram, desembarcaram na Pauliceia poluída. Ou quase. Porque naquele já infinito ritual de desfazer as malas, a surpresa: um boneco.

Boneco de pano, muito bem trabalhado, vestido impecavelmente e... com uma faca atravessada no pescoço. Vodu, para os íntimos. Ta aí uma coisa que eles não esperavam fazer depois dos oitenta: se livrar de macumba. E olha que o povo de lá nem é muito apegado ao tambores como seus vizinhos baianos.

Foi santo pra cá, Nossa Senhora pra lá, menino Jesus por todo lado. Ouviu-se alguns palavrões até -- em português e italiano. Jogar fora não era uma opção, dizem que coisa ruim fica. Repassar, pior ainda, dobra o efeito. "Bota fogo nessa merda, cazzo!".

E quem disse que o desgraçado queimava? Um vidro inteiro de álcool e nada -- não ser pela borda do tanque, que perdeu a tinta. "No fogão, bota no fogão que queima!". Espetou o bicho e assou até virar cinza.

Demorou, mas enfim, queimou.