OPINIÃO

Ligação Importante

06/12/2016 11:06 -02
George Marks via Getty Images
UNITED STATES - CIRCA 1950s: Woman on telephone.

Ele não aguentava mais o divã da psicóloga, os livros de auto-ajuda, as dicas dos amigos, as meditações do yoga. Tentativa após tentativa e lá estava outro relatório inútil e outra reunião descartável e mais um chefe que não valorizava seu trabalho.

Decidiu fumar.

De todo mal que o cercava, talvez o cigarro, justo o cigarro, feito para fazer mal, fizesse bem. Psicologia reversa mequetrefe. Desligou o computador, jogou fora o vidrinho de Ansiodoron e partiu pra nicotina.

Na banca, na dúvida, fez o que todos fazem: um maço de Marlboro Light e um isqueiro pequeno. Sim, pode ser box. Não, qualquer cor. O câncer não tem preferência por embalagem.

Na calçada lotada de gente apressada, fingiu encontrar um refúgio: uma mureta embaixo de uma árvore rala. Com o cigarro na boca, achando-se o Marcello Mastroianni não descoberto, simulou um olhar distante quando, na verdade, só queria ver uma boa bunda passar.

Acendeu. Tragou. E antes que pudesse soltar a fumaça libertadora, viu sua namorada vindo pela calçada. Só deu tempo de jogar o cigarro na sarjeta e fingir uma ligação importante.