OPINIÃO

Eu não uso Facebook

09/01/2015 15:26 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
reprodução

Porque minha vida não é legal. Quer dizer, até que é, mas nada comparada a do Rodrigo. Ele fez administração, tem vida agitada, trabalha naqueles neoclássicos da Faria Lima e, pela quantidade de voos, é muito importante. Eu defino a importância de alguém pela quantidade de vezes na semana que ela anda de avião - exceto ator da Globo. E o Rodrigo anda pelo menos três vezes por semana.

Vai ver que é por isso que o Instagram dele é bombado, e não porque ele tira aquelas fotos da esteira do terminal de Congonhas de um ângulo inusitado, com um filtro mais inusitado e uma legenda profundamente fajuta que atrai mais de cem likes, enquanto eu só consigo imagina-lo agachando e se contorcendo no meio da saguão, na frente da Laselva lotada, para conseguir aquele momento de autoprazer antes de ligar o modo avião.

Diferente dele, eu não tenho vida agitada, nem importante. Muito menos posto no Instagram. Quando posto, me arrependo e tenho vontade de apagar logo em seguida. Penso sempre a mesma coisa: por que? No que a patrulha feliz retruca, como se estivesse me libertando de alguma coisa que nem eu, nem meu psicólogo sabemos: por que não? Porque não importa. Porque não interessa.

A não ser que seja uma foto naquele festa sunset numa casa velha em Pinheiros que você não sabe dizer se é vintage ou mal cuidada, mas que pelo menos ninguém usa calça jeans ou tênis Osklen apesar de pagar mais caro numa cerveja mais quente porque, na verdade, "você está pagando pela experiência". Que experiência! E sábado que vem tem outra. Apaga, apaga, eu penso.

Mas aí minha preguiça em parecer algum desses tipos engajados numa cruzada contra as redes sociais, a tecnologia e a superexposição das pessoas fala mais alto e eu resisto e deixo lá mesmo.

Eu sei que a foto não é verdadeira, que minha vida é mais careta e que não vou mudar o dia de ninguém com aquilo. Sei também que melhor uma curtida rasa do que uma conversa profunda tentando explicar que não existe ideologia em não gostar dessas coisas. Tentando dizer que é simples como comer ou não repolho: não sinto vontade. Tentando evitar argumentos como: "você não usa Facebook, mas não sai do Twitter".

Cara, eu não deixo de usar uma rede social para poder usar outra. Não é uma compensação ou algum posicionamento. É repolho! Eu não virei amish, meus amigos não pararam de falar comigo, as "28 situações que só canhotos entenderão" não estão me fazendo falta e, claro, assim como você, eu não mudei minha opinião em relação ao Aécio. Nem em relação à Dilma, à Petrobrás, ao Haddad, às ciclovias, à Cantareira, ao Bolsonaro, ao feminismo. Eu só não saio dizendo isso por aí nos comentários alheios.

Talvez a única coisa que eu realmente tenha perdido, tenha sido o cachorrinho da Naty, que morreu e ela postou aquela foto fofa dele dividindo a cama com ela e fez uma declaração de amor eterno em vinte e sete linhas quando, verdade seja dita, toda sua dor caberia em três, mas ninguém daria bola. É uma decisão.

Eu, por exemplo, quando quero atenção, não uso meus cachorros, não peço ajuda pro Caio Fernando Abreu, nem me contorço para pegar ângulos inusitados de lugares comuns. Quando eu quero atenção, eu sento, escrevo e publico aqui. É outra decisão.

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