OPINIÃO

A cidade respira

18/09/2015 16:44 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

Desde criança ouço que paulistano é individualista, apressado e estressado - mas trabalhador, muito trabalhador. Ouvia meus pais conversarem e até me contarem como nós éramos, praticamente, a única cidade séria do País. Quiçá, a única.

Quando assunto era São Paulo, o discurso era uma releitura do nosso lema: não sou conduzido, conduzo. Lema com que até simpatizo, mas que esconde um preconceito histórico por trás de seu imponente latim.

Em latim ou em português, a verdade é que lá em casa, mesmo sabendo que meu pai teve seus tempos áureos de Lula, em 89, nunca houve muito apreço pela mudança e eu cresci indo, de dois em dois anos, apertar o 45 nas urnas do Itaim.

A revista, era Veja. As músicas, mesmo com um Caetano aqui, um Pink Floyd ali, eram amenas. Museu, só com a escola. As discussões preferidas, "com o comunista do professor de História". O transporte, era carro. Sempre. Pra tudo. Não teve jeito: virei um conservador aos 15 anos de idade.

De manhã, o clássico "vambora, vambora/Olha a hora, vambora" da JovemPan era quase um ritual. Era como se naquele curto trajeto até a escola, se sentassem ao meu lado, para narrar as notícias do dia, Joseval Peixoto, Anchieta Filho e até o saudoso Reali Júnior que, sabíamos, estava às margens do Sena, junto a Maison de la Radio. Naquele tempo, apenas o Rei Shariah ouvia as lorotas de Sheherazade.

Assim, de garagem a garagem, observando as ruas por janelas, acreditei no Maluf, derrotei a Erundina, lamentei a Marta, votei no Serra e me conformei com o Kassab. E o que percebi? Que a única coisa que havia mudado, nesses anos todos, fora a sede da prefeitura: do Palácio das Indústrias para o Palácio do Anhangabaú. De resto, era cada um por si e a especulação imobiliária por todos.

A tão aclamada locomotiva do País perdera o coração com a desculpa da competência. São Paulo deixara de ser cidade para ser realidade, como Caetano cantou tão cheio da alma que tanto faltava na Ipiranga com a São João e em todos os outros cruzamentos, esquinas, vilas e favelas da nossa cidade. Mas tudo isso, como o passado dos verbos deixa claro, mudou.

Eu cresci, descobri novas referências e uma vida mais plural. Junto com meu conservadorismo, a filosofia torta de achar que muro, grade, vidro, viaduto e duplicação de via faziam uma cidade melhor, ficou para trás.

São Paulo ganhou um fôlego de humanismo e passamos a ter discussões de gente grande, embora precisemos, sim, discutir muita coisa de gente pequena que ainda não deixamos de ser. Mas o debate mudou. A discussão evoluiu. O medo deixou de ser o foco e as pessoas voltaram a ser as protagonistas das ruas.

Tudo porque um prefeito resolveu ouvir as vozes mais progressistas que temos, abrir um diálogo com uma sociedade acostumada ao monólogo e nos apresentar um novo modelo de ocupação do espaço público. Por isso, se Fernando Haddad foi eleito sem meu voto, com certeza contará com ele no ano que vem.

Porque não vai ser um João Dória, de dentro do Iguatemi, nem um Russomano defendendo Cristo e o consumidor, muito menos um Marco Feliciano misturando palanque com pregação preconceituosa que vai jogar a nossa cidade de volta ao passado privado e trancafiado que por tanto tempo se achou correto.

Não mais. Hoje a cidade respira. E no que depender de mim, continuará respirando cada vez mais.

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