OPINIÃO

O poder de transformação dos negócios

28/01/2014 16:10 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Talvez nenhuma outra estrutura tenha tanto poder de liderar a transformação do mundo atual como os negócios. Por maior ou menor que seja a capacidade de compra, praticamente 7 bilhões de pessoas que vivem no planeta são consumidoras e interagem com as empresas. Desde a revolução industrial, bilhões de pessoas saíram da linha da pobreza, os índices de mortalidade infantil caíram muito e a expectativa de vida só aumenta. No entanto, hoje chegamos a um ponto em que o uso de recursos naturais é excessivo e importantes serviços ambientais estão deixando de ser prestados, ameaçando a vida de muitas espécies. Fazemos mau uso da água, da energia, do solo, para citar alguns. A pobreza é ainda uma realidade sofrida para aproximadamente um terço da população mundial. Isso tudo, também, estimulado pelos negócios.

Em 1950, quando nasci, a população mundial era de 2,5 bilhões de habitantes. Um século depois, em 2050, seremos 9 bilhões de pessoas. Já há indicações de que consumimos recursos naturais 50% acima da capacidade de renovação do planeta. Há correntes que apostam na capacidade da tecnologia de resolver o problema, mas é difícil acreditar que somente a inovação possa oferecer soluções suficientes. É necessário inovar também em nosso conceito de bem-estar e mudar os nossos padrões de produção e consumo. E é aqui que se apresenta a oportunidade para os negócios se reinventarem, com base nos princípios da sustentabilidade, oferecendo oportunidades para todos, hoje e no futuro.

O mercado é o maior invento da humanidade para atender as suas necessidades, embora seja imperfeito por definição. Por exemplo, serviços e custos ambientais não são valorados. A economia sempre partiu da hipótese de que os recursos naturais fossem infinitos. Diferenças de acesso à educação e informação são causadoras de desigualdade. Para minorar os efeitos de suas distorções, devemos manter clareza de que o mercado é um instrumento para servir a humanidade e não para dela se servir.

O objetivo central da atividade humana deve ser a preservação das condições dignas de vida para todos e não somente o lucro. O caminho para a transição passa por políticas de governança empresariais mais inclusivas, mensuração de impactos sociais e ambientais, preocupação com toda a cadeia de fornecimento, respeito aos consumidores e ao ambiente, respeito à diversidade e consciência sobre os limites dos processos naturais. Temos tido avanços nestas frentes, mas ainda há um caminho enorme a ser percorrido.

Para ajudar a fazer esta visão acontecer, nasceu em 2013 o B Team, um grupo de empresários de diferentes setores e regiões, reunidos e comprometidos em acelerar esta mudança, buscando sinergias com vários outros movimentos existentes.

Existe um alto nível de consciência entre os empresários do B Team sobre a importância dos negócios assumirem a responsabilidade de liderar esta transformação. Mas, sabe-se também que não bastam os negócios para chegar lá. Para isso é fundamental que a sociedade civil ativa, conectada e articulada, se mobilize, aja, pressione, utilize principalmente o seu poder de compra para exigir produtos e serviços sustentáveis. Do mesmo modo, é crítico que o Estado e a classe política ampliem seus compromissos com o futuro, rompendo a subordinação ao curto prazo dos calendários eleitorais, de forma a propor e praticar políticas públicas e incentivos econômicos e fiscais adequados para a necessária mudança nos atuais padrões de produção e consumo.

As oportunidades estão aí. A sociedade está conectada como nunca: quase 40% das pessoas do planeta já acessam a internet, permitindo a sua participação nos processos de discussão sobre o seu futuro. A governança global, ainda que com estruturação muito precária, promove reuniões e discussões sobre os novos objetivos do milênio (SDGs) para 2015, bem como sobre vários outros temas.

Agora, a mudança depende muito mais da vontade de todos e de cada um do que da disponibilidade de recursos. Eles estão aí, ainda que mal distribuídos. Dentre eles, a capacidade empreendedora e de gestão é uma força que não pode ser desprezada e empregada de uma maneira míope, apenas com o objetivo de gerar lucro. Ela pode ser uma importante alavanca de transformação socioambiental.

Nós, cidadãos planetários -- todos juntos -- consumidores, lideranças sociais, empresariais e políticas, somos capazes de criar melhores condições de vida para todos neste planeta. As empresas podem (e devem) liderar esse processo. Refazer o mundo em bases inclusivas e sustentáveis pode ser a melhor oportunidade para reconstruir a economia global.