OPINIÃO

O que esperar do presidente Donald Trump?

10/11/2016 16:50 -02 | Atualizado 10/11/2016 16:50 -02
Win McNamee via Getty Images
WASHINGTON, DC - NOVEMBER 10: U.S. President Barack Obama speaks while meeting with President-elect Donald Trump (L) following a meeting in the Oval Office November 10, 2016 in Washington, DC. Trump is scheduled to meet with members of the Republican leadership in Congress later today on Capitol Hill. (Photo by Win McNamee/Getty Images)

Qualquer análise sobre um futuro governo Trump depende de uma simples questão: podemos acreditar em tudo que ele fala e escreve nas redes sociais?

Existe um lado que argumenta, talvez esperançosamente, que tudo que Donald Trump vem dizendo e fazendo tem objetivo eleitoreiro. Ou seja, para chamar atenção e ganhar eleitores, ele tem dito coisas que não acredita ou, pelo menos, não pretende efetivar. Nesse sentido, governaria de maneira mais razoável e sensata.

De outro lado, há quem acredite que ele verdadeiramente crê no que diz e promete e pretende, realmente, implementar as medidas apresentadas durante a campanha. Assim, a meta, por exemplo, de construir um muro na fronteira com o México seria uma de suas prioridades.

Se Trump fez uma campanha guiada pela xenofobia, pela misoginia, pelo racismo e pela LGBTfobia, temos poucos motivos para acreditar que seu governo será diferente. Não se sustenta a vã esperança de que aquilo não passasse de um candidato falando o que seus apoiadores queriam ouvir.

A história nos ensina que é melhor acreditar no que as pessoas dizem do que torcer para que tenham uma boa intenção por trás de mentiras e falsas promessas. E a própria história da campanha eleitoral sinaliza qual desses lados deve ter razão: em diversos momentos, tentou-se controlar Trump, colocá-lo para ler os discursos prontos e evitar polêmicas. Foram breves e fugazes momentos em que o candidato seguiu a orientação de seus assessores. Difícil acreditar que, imbuído do poder da Presidência, haverá algo capaz de restringi-lo.

Chegamos, então, em um outro problema: os poderes da Presidência. E esse é um problema de autoria dos próprios democratas, ao menos em parte. O presidente Obama expandiu muito os poderes e competências de seu cargo. Por meio de decretos executivos interferiu em questões como imigração, mudança climática, etc. Claro, a razão pela qual fazia isso era o Congresso de maioria republicana que não aprovava nenhuma de suas prioridades. Entregar a Presidência superinflada a Donald Trump será tarefa indigesta para o Presidente Obama.

Existe, em tese, um sistema de freios e contrapesos que poderá contrabalancear e quiçá prevenir eventuais excessos do presidente Trump. Acontece que esse sistema está, atualmente, nas mãos dos republicanos. Eles detêm a Câmara dos Deputados e frágil maioria no Senado. A pièce de résistance de democratas será, sem dúvida, o Senado - lá, para a maioria das questões serem decididas, é necessária maioria de 60 votos e democratas possuem 48 cadeiras. Há, ainda, a esperança que os próprios líderes republicanos sejam capazes de conter eventuais excessos de Trump, como a deportação forçada de milhões de imigrantes prometida na campanha.

A Suprema Corte representará o último bastião contra a ofensiva conservadora. Apesar de Trump ter a oportunidade de indicar mais um juiz, seu equilíbrio tênue deve permanecer - 4 liberais, 4 conservadores e 1 moderado. Esse moderado, o Juiz Anthony Kennedy terá mais importância do que nunca. Felizmente, ele costuma se juntar aos liberais em favor de direitos de homossexuais, de mulheres e minorias. Se (tentar) cumprir algumas das promessas feitas, no entanto, como a deportação de milhões de imigrantes, Trump deve realizar o feito de unir toda a Suprema Corte em sua oposição.

Na seara da política externa, Trump causa preocupações imediatas para os principais aliados norte-americanos - não que eles tenham denunciado isso nas felicitações ao recém-eleito. Cortes de gastos militares, afastamento da OTAN e a reaproximação com a Rússia de Putin são só algumas das promessas que devem deixar Merkel, Hollande e May com insônia.

Suas declarações polêmicas gerarão constantes constrangimentos. E seu pavio curto manterá todos na beira de seus assentos. Qualquer provocação é suficiente para lhe provocar uma reação desproporcional. Resta saber se, com os dedos nos códigos nucleares, o Presidente Trump encontrará o autocontrole que, até esse momento, o eludiu.

Impactos para o Brasil, mais especificamente, são difíceis de mensurar. O país nunca chegou a ser mencionado especificamente pelo candidato republicano. Em tese, sua tendência protecionista pode prejudicar o comércio bilateral entre os países. Mas as promessas de rever a NAFTA e o TPP não nos afetam diretamente. Caso a postura isolacionista prometida de fato se concretize, caberá ao Brasil decidir qual, se é que algum, espaço pode vir a ser preenchido por iniciativas brasileiras. Um ponto, todavia, inquestionavelmente, afetará o Brasil. Serão quatro anos de instabilidade política que, por sua vez, gerarão períodos de instabilidade econômica e retração de investimentos em mercados mais arriscados, como o nosso.

Trump não segue um roteiro. É facilmente distraído e atraído por polêmicas sem sentido. E aí jaz uma esperança mais realista: que o presidente Trump se veja envolvido em tamanhas confusões, desde seu primeiro dia, que seu mandato passe sem qualquer outra marca significativa na história além de ter derrotado a primeira mulher candidata a Presidente.

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