OPINIÃO

Entre generais e milionários, quem se salva no gabinete de Donald Trump?

15/12/2016 13:42 -02 | Atualizado 15/12/2016 13:42 -02
Bastiaan Slabbers via Getty Images
Aston, PA, USA - September 22, 2016: Republican presidential nominee Donald Trump delivers a speech at a rally in Aston, Pennsylvania.

O processo de formação do Gabinete de um novo presidente é um dos mais tradicionais da política norte-americana. Indica a direção que o futuro governo tomará, como o Presidente-eleito toma suas decisões e quem serão os principais atores em Washington pelos quatro anos seguintes. Com a divulgação dos últimos nomes, parece que Donald Trump conseguiu subverter mais uma tradição norte-americana.

Normalmente, trata-se de um processo sigiloso e discreto, envolvendo reuniões com inúmeros candidatos e pesquisas minuciosas sobre seus passados. Ao invés disso, Trump orquestrou uma temporada especial de 'O Aprendiz': candidatos concorriam por sua preferência em público, facções rivais se formavam em torno de seus favoritos e a maioria dos concorrentes ficou, ao final, de mãos abanando. Se essa foi uma amostra do processo decisório da Casa Branca para os próximos quatro anos, o mundo que se prepare para mais incertezas e caos do que nunca.

Contradições também não são novidade no mundo de Trump. Manifestaram-se de forma insólita, no entanto, no processo de formação de seu gabinete. Se durante a campanha eleitoral chegou a afirmar que sabia mais sobre o grupo terrorista Estado Islâmico do que os generais, já escolheu três para compor seu Gabinete. Se prometeu ser um defensor da classe trabalhadora, acabou apontando diversos milionários e bilionários para cargos-chave de sua administração.

Sua mais recente indicação, a de Roy Tillerson, CEO da petroleira ExxonMobil, para ocupar o cargo de Secretário de Estado talvez seja a mais controversa. Tillerson é conhecido por manter laços estreitos com Vladimir Putin, presidente russo. Em um momento em que a interferência russa nas eleições norte-americanas - hackers russos forneceram ao Wikileaks informações confidenciais que geraram celeumas no Partido Democrata e custaram votos à Hillary Clinton - já foi confirmada pelas agências de inteligência, essa indicação se torna ainda mais arriscada.

Laços com a Rússia não são, entretanto, o único obstáculo no caminho de Tillerson. Como presidente de uma petroleira, o empresário deve sofrer forte oposição dos movimentos de defesa do meio ambiente. O envolvimento da ExxonMobil com desastres ambientais e sua defesa da expansão do uso de combustíveis fósseis entram em choque com agenda ambientalista. Ambientalistas sinalizaram também preocupação com a possibilidade de Trump retirar os Estados Unidos do Acordo de Paris, assinado pelo Presidente Obama.

O retorno da indústria petroleira aos mais altos escalões do poder em Washington também traz perturbadoras lembranças do governo Bush. A indicação de Rick Perry, governador do Texas, para comandar o Departamento de Energia só confirma esses temores. O envolvimento da ExxonMobil, empresa na qual Tillerson ainda possui milhões de dólares investidos, em empreendimentos no Iraque, na Rússia e no Canadá promete gerar conflitos de interesse que colocarão todas as decisões de política externa dos EUA em cheque.

Outros milionários também encontraram espaço no Gabinete de Trump. Betsy DeVos foi indicada para ser Secretária de Educação, apesar de favorecer incentivos a escolas privadas, em detrimento da expansão da educação pública. Steven Mnuchin, executivo do Banco Goldman Sachs, foi nomeado Secretário do Tesouro, e Wilbur Ross e Todd Ricketts, ambos bilionários, para comandar o Departamento de Comércio. Até para o Departamento do Trabalho, foi nomeado um empresário, Andrew Puzder, que já se opôs ao aumento do salário mínimo. Se será um gabinete capaz de realizar as promessas feitas à classe trabalhadora, resta acompanhar. Que não a representa, isso já é certo.

De outro lado, Trump escolheu indivíduos que questionam a razão de existir de alguns departamentos para comandá-los. Para chefiar o Departamento de Saúde, foi indicado Tom Price, que já confirmou planos para desmontar o sistema de saúde montado ao longo dos últimos anos, o chamado ObamaCare. Já para a Agência de Proteção do Meio Ambiente, foi indicado Scott Pruitt, autor de processos contra essa mesma agência. Jeff Sessions, indicado para comandar o Dept. de Justiça, tem um complicado histórico com a defesa dos direitos civis, umas das principais missões desse departamento. Rick Perry já sugeriu abolir o Departamento de Energia.

O número de militares indicados para cargos de alto escalão também levantou preocupações. Trump indicou James Mattis para comandar o Departamento de Defesa, John Kelly como Secretário de Segurança Interna e Michael Flynn como Conselheiro de Segurança Nacional - todos generais aposentados.

Mattis teve uma distinta carreira, já tendo comandado os esforços de guerra no Iraque e no Afeganistão. Sua indicação para chefiar o Pentágono, entretanto, representa uma ruptura na tradição do controle civil sobre as Forças Armadas. Tanto que exigirá que o Congresso aprove uma isenção especial - a legislação em vigor exige um intervalo de sete anos entre o serviço na ativa em qualquer uma das Forças Armadas e a assunção do posto de Secretário de Defesa. Mattis se aposentou há apenas três anos, em 2013.

O Partido Democrata já prometeu se opor vigorosamente a alguns desses indicados, que precisam ser aprovados pelo Senado. Na minoria, todavia, pouco poderá fazer além de postergar as suas aprovações, a não ser que conte com dissidências do Partido Republicano. E, ao que tudo indica, essa será a questão central no Congresso durante o mandato de Trump: até onde os republicanos estarão dispostos a ir para apoiar o presidente que maioria deles não queria ver no poder?

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