OPINIÃO

Donald Trump, combatendo ou alimentando o terrorismo?

Ao contrário do que Trump defende, a 'Guerra contra o Terror' não será vencida em postos de imigração, mas pelo combate às causas de radicalização.

13/02/2017 13:46 BRST | Atualizado 15/02/2017 13:30 BRST
Kevin Lamarque / Reuters
Donald Trump alimenta o terrorismo, em vez de combatê-lo, defende colunista.

A "Guerra contra o Terror" é a principal orientação da política externa norte-americana nos últimos 15 anos. Já passou por momentos altos – a morte de Osama Bin Laden, líder da Al Qaeda e responsável pelos atentados de 11 de setembro – e baixos – as prolongadas e custosas guerras no Iraque e Afeganistão. Nesse cenário, no entanto, os grupos terroristas que ameaçam a estabilidade internacional acabam de ganhar um poderoso aliado: o Presidente Donald Trump.

Durante a campanha eleitoral, Trump já havia dado sinais de que seu desrespeito às tradições (e às leis) representaria um desafio sem precedentes nos esforços de combate ao terrorismo. Conforme antecipado por Hillary Clinton, uma vez no poder, ele se tornou efetivamente um garoto-propaganda de grupos terroristas, sendo usado como ferramenta para recrutar novos membros e promover ataques contra os EUA.

De fato, as ações recentes denotam claramente que Donald Trump não compreende as dinâmicas que dão origem ao terrorismo e como combatê-las.

Existem, basicamente, duas estratégias para se combater o terrorismo: a repressiva e a preventiva. De um lado, se propõem o estabelecimento de políticas e a realização de operações com objetivo de desmantelar grupos terroristas, levar acusados de envolvimento com atentados à Justiça e eliminar a infraestrutura física e financeira que permite a manifestação desse fenômeno.

De outro, a partir da lógica de que terroristas recorrem a esse método de ação com um objetivo específico, propõe-se eliminar as condições que propiciam o surgimento desses grupos. Ou seja, o propósito é por fim às condições (extremas) que levam indivíduos à radicalização e ao recurso à violência, como a pobreza, a desigualdade econômico-social, a falta de oportunidades e os conflitos identitários.

Idealmente, essas estratégias não são mutuamente excludentes. Aproveitar uma combinação de ambas é possível e necessário para eliminar grupos terroristas já em exercício e prevenir o surgimento de novos.

Trump, todavia, parece fazer o contrário: com suas políticas radicais e xenófobas, apenas alimenta as condições propícias à radicalização, sem efetivamente enfrentar os grupos que ameaçam os EUA e o resto do globo.

A recente decisão de banir imigrantes e refugiados de sete países majoritariamente muçulmanos – Irã, Iêmen, Iraque, Somália, Sudão, Líbia e Síria – promove a ideia de que os EUA estão em guerra contra o islamismo, e não contra os terroristas.

Uma coisa que já foi confirmada pela História é que todos saem perdendo nesse 'Choque de Civilizações'. Vale lembrar, ainda, que indivíduos originários desses países não foram responsáveis por nenhum atentado terrorista fatal, em território norte-americano, nos últimos 40 anos.

Há poucas dúvidas de que os governos de alguns desses países têm laços estreitos com grupos considerados terroristas pelo governo norte-americano. Proibir, entretanto, a entrada de imigrantes e refugiados com base na sua nacionalidade – ou nos atos de seus governos, dos quais muitos estão tentando fugir – viola os ideais fundadores dos EUA, leis domésticas, assim como inúmeras normas de Direitos Humanos consagradas internacionalmente.

Desprezo pelos Direitos Humanos parece ser uma propensão do agora presidente Trump. Em diversas instâncias, já sinalizou ser a favor do restabelecimento da tortura como ferramenta em interrogatórios – algo que já foi considerado amplamente ineficaz – e ameaçou direcionar membros das Forças Armadas norte-americanas a atingir diretamente a família de terroristas – o que faria deles criminosos de guerra.

Ao invés de promover melhores relações políticas por meio de acordos comerciais, Trump pretende levar os EUA de volta à era do protecionismo. Ao invés de melhorar as relações raciais, se envolverá com figuras reconhecidamente polêmicas, ligadas à Ku Klux Klan, e menosprezará a História e a importância do movimento de luta pelos direitos civis no país, como sinalizado pela indicação do senador Jeff Sessions para liderar o Departamento de Justiça. Ao invés de promover a integração de minorias, construirá muros, físicos e ideológicos.

Ao contrário do que parece acreditar Donald Trump, a 'Guerra contra o Terror' não será vencida em salas de interrogatórios ou em postos de controle de imigração. Será vencida pelo efetivo combate às causas da radicalização e do recurso à violência. E, nesse campo de batalha, Trump anda jogando contra seu próprio time.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte do nosso time de blogueiros, entre em contato por meio de editor@huffpostbrasil.com.

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