OPINIÃO

Em debate acirrado, Trump sobrevive e deixa todos os republicanos em perigo

10/10/2016 10:38 -03 | Atualizado 10/10/2016 10:38 -03
Lucy Nicholson / Reuters
Republican U.S. presidential nominee Donald Trump and Democratic U.S. presidential nominee Hillary Clinton shake hands at the conclusion of their presidential town hall debate at Washington University in St. Louis, Missouri, U.S., October 9, 2016. REUTERS/Lucy Nicholson

O debate de domingo começou, na realidade, na sexta-feira, com a divulgação de um vídeo, de 2005, em que Donald Trump, o candidato republicano à Presidência, dizia barbaridades sobre como tratava mulheres. Foi a deixa para dezenas de líderes republicanos abandonarem o barco.

Alguns só repudiaram os comentários, enquanto outros deixaram claro que não votariam em Trump. Houve também quem exigisse que o empresário abandonasse a disputa presidencial e deixasse o candidato a vice-presidente, o governador de Indiana Mike Pence, em seu lugar. A preocupação aqui é que uma péssima performance de Trump nas eleições poderá condenar republicanos concorrendo a outros cargos, pondo em risco as maiorias republicanas tanto na Câmara, quanto no Senado.

O vídeo não foi, no entanto, um incidente isolado. Pelo contrário, é o ápice de uma escalada de comentários inadequados, agressivos e misóginos, feitos ao longo de toda a campanha. E o 'pedido de desculpa', se é que pode ser assim chamado, pouco fez para remediar a situação. Na verdade, a tentativa de explicação - não teria passado de conversa de vestiário masculino - serve apenas para normalizar uma linguagem que tolera e incentiva diferentes formas de assédio e abuso contra mulheres.

Sob pressão, Trump fez a única coisa que sabe: partiu para o ataque. Realizou, horas antes do debate, uma coletiva de imprensa com mulheres que alegam ter sido vítimas de diversas formas de assédio sexual por parte do ex-presidente Bill Clinton. A tentativa de desviar a atenção para o marido de sua adversária fracassou em larga medida: os escândalos sexuais de Bill Clinton já são velhos conhecidos do público norte-americano, que, em sua maioria, não responsabiliza Hillary pelas condutas do marido.

A falta de um aperto de mão entre os candidatos deu o tom do debate. Ataques de ambos os lados. Enquanto Hillary parecia satisfeita em dar corda para Trump se enforcar, o republicano lembrou, com alguma eficácia, as fragilidades que assolam a candidatura da democrata: o uso do servidor privado de e-mails, Benghazi e as palestras para o banco Goldman Sachs. Ameaçou indicar, caso eleito, um promotor especial para investigar e prender Hillary, indicando que está disposto a copiar mais do que o estilo agressivo de Putin.

Interrupções foram menos frequentes do que no primeiro debate, mas ainda sim estiveram presentes. A reação de Hillary, ao ser interrompida frequentemente, - sorrir e aguardar - é melhor que tentar gritar por cima do adversário. Mas ela faria bem em demonstrar como isso é um obstáculo frequentemente encontrado por mulheres. Dessa vez, no entanto, Trump também foi interrompido com frequência - só que pela moderadora, Martha Raddatz, que não deixou o republicano fugir das perguntas.

Política externa foi um dos principais focos do debate. Os candidatos, perguntados sobre como lidariam a continuada crise humanitária na Síria, ofereceram visões bastantes diversas sobre o papel a ser exercido pelos diferentes atores envolvidos no conflito: grupos rebeldes, Assad, Rússia e Irã. Um problema: a visão de Trump sobre a Síria e, especialmente, o papel da Rússia naquela crise é diferente também da de seu candidato a vice, como ele fez questão de deixar constrangedoramente claro.

Com a sua campanha em chamas, Trump fez o suficiente para evitar uma onda ainda maior de deserções por parte de líderes republicanos. Evitou, assim, que aumentassem os chamados para que se retirasse da disputa e deixasse Pence como cabeça da chapa republicana. O que pode, muito bem, ter sido uma benção disfarçada para Hillary Clinton e o último prego no caixão republicano.

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