OPINIÃO

100 dias sem verdade: Os Estados Unidos de Trump

O republicano transformou seu país na terra dos "fatos alternativos", das verdades fluidas e da incerteza.

25/04/2017 17:31 -03 | Atualizado 29/04/2017 08:06 -03
Jonathan Ernst / Reuters
Donald Trump completa cem dias na Casa Branca.

Em 100 dias, Donald Trump mudaria os Estados Unidos. Reanimaria a economia, reconfiguraria os parâmetros do comércio exterior para favorecer empresários e agricultores norte-americanos, transformaria o sistema de saúde nacional e recuperaria o poderio e a supremacia das Forças Armadas.

Promessas de campanha que jazem dilaceradas pela difícil estrada de administrar um país daquele tamanho. Completados cem dias de governo, é tempo de se avaliar o que de fato Trump realizou.

Os primeiros dias de governo, já conturbados, deram o tom daquilo que consubstanciaria a retórica oficial. Ao questionarem Trump acerca da evidente sublotação em sua cerimônia de posse, evento que ele julgara a maior da História, não houve quem se curvasse aos fatos. Foi nesse contexto que uma de suas conselheiras, Kellyanne Conway, inaugurou a já infame expressão "fatos alternativos". O desafio à imprensa, às evidências e aos fatos se mostraria uma constante ao longo dos 90 dias seguintes.

De ordem prática, o presidente emitiu um conjunto de ordens executivas que atacavam diretamente o legado do ex-presidente Barack Obama. Logo no seu primeiro dia de governo, o site da Casa Branca perdeu seções dedicadas a informações sobre direitos civis, imigração, direitos da população LGBT. A seção informativa do acordo nuclear com o Irã feito pela administração Obama também desapareceu. Nesse mesmo movimento, a sessão sobre mudança climática teve seu nome alterado para "America first energy plan", ilustrando como a nova administração tenta soterrar as medidas do presidente anterior.

Iniciativas condizentes com suas promessas de campanha esbarraram no sistema de freios e contrapesos do governo norte-americano. Polêmica e ineficaz, a pretensão de banir a entrada de refugiados e imigrantes originários de países majoritariamente muçulmanos foi barrada duas (!) vezes pelas Cortes norte-americanas. A proposta de construir um muro na fronteira com o México também parece ter sido abandonada, ao menos momentaneamente, graças à resistência de Democratas.

Já os planos de desmantelar o sistema de saúde desenvolvido pelo presidente Obama – o chamado 'Obamacare' –, não foram sequer oficialmente lançados. A incapacidade de Trump e, principalmente, do presidente da Câmara dos Deputados, Paul Ryan, de obterem apoio da própria bancada republicana provou-se fatal. E, mais significantemente, a ameaça ao Obamacare parece ter feito o que sete anos de propaganda oficial não alcançaram: tornaram o programa popular entre a maioria dos norte-americanos.

A política externa norte-americana também teve uma guinada brusca em direção ao unilateralismo. Em sua campanha, Trump fez declarações duras sobre a China, avançando críticas sobre a balança comercial entre os países e a desvalorização da moeda chinesa. Mantendo a tendência, a administração atual se utiliza do exagero para criar antagonismos entre os países, citando um déficit na balança comercial maior que o real.

Além das já mencionadas perturbações nas relações com o México e a China, as tensões crescentes na região da península coreana e o envolvimento direto no conflito sírio denotam que o envolvimento dos Estados Unidos pode servir à manutenção de um estado de calamidade permanente, no qual o inimigo é de fácil definição. Esse cenário conturbado e descoordenado parece agradar a nova administração da Casa Branca que consegue capitalizar politicamente ações enérgicas e diretas do presidente Trump, como os bombardeios na Síria.

Esse esforço de constante construção narrativa para estruturar um ambiente de permanente hostilidade pode ter sido mais útil na campanha do que está sendo na presidência. A história que os números contam não é muito diferente. Trump não assinou sequer uma legislação de grande impacto em seus primeiros cem dias – diferente de predecessores que aproveitaram esse momento de tradicional força e ímpeto para avançar aspectos essenciais de suas agendas. Sua popularidade, de acordo com pesquisas de opinião, de fato estabeleceu recordes – negativos: uma média de apenas 41% dos norte-americanos aprovam seu desempenho.

Em apenas um sentido, Trump cumpriu sua promessa. Transformou os Estados Unidos na terra dos "fatos alternativos", das verdades fluidas e da incerteza. Até então, a administração de Trump demonstra-se errática, com foco na criação de um cenário de permanente hostilidade interna (a imprensa e os opositores) e externa (variável de acordo conjuntura e o humor do Presidente). Carece, entretanto, de apoio interno do partido e enfrenta resistência no cenário internacional.

Os movimentos do governo Trump apontam para um esforço contínuo de criação de incerteza e insegurança, oferecendo espaço para que recorrentes crises políticas afetem a estabilidade do país.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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