OPINIÃO

Com foco na política doméstica, Temer permanece as margens diplomáticas na América do Sul

O caos político e a crise humanitária na Venezuela têm repercussões diretas nas fronteiras brasileiras. Mais de 40 mil venezuelanos já estão em Roraima.

03/02/2017 10:28 -02 | Atualizado 15/03/2017 11:06 -03
Adriano Machado / Reuters
Neste ano, Temer deve manter apatia no Mercosul.

2017 marcará mais um ano de apatia diplomática brasileira na América do Sul. Isto não é animador, dado os desafios que a região enfrentará este ano!

A despeito do caos político e a crise humanitária na Venezuela (e suas repercussões nas fronteiras brasileiras), e das externalidade da narco-economia da região andina (e seus profundos efeitos sobre os padrões de violência nas cidades brasileiras), a perspectiva de que o Brasil promova sua influência regional a fim de estabilizar a região permanece pouca provável em 2017, com o Presidente Michel Temer permanecendo focado sobre as questões domésticas.

Uma empreitada desta natureza seria particularmente custosa para Temer, dado que ele está pressionado pela rápida deterioração das condições econômicas e políticas do país. Essas pressões irão fazer 2017 um ano difícil para o presidente, em que uma modesta recuperação da economia passa pela aprovação de importantes reformas, tais como aquelas relacionados ao sistema previdenciário e trabalhista. Temer está consciente que a falha em aprovar a reforma previdenciária terá consequências dramáticas para o humor do mercado financeiro e a recuperação da confiança do empresariado - e, por consequência, para o aprofundando da crise no país. Neste contexto, sua preocupação mais imediata é sustentar um delicado equilíbrio entre sua base aliada no Congresso Nacional, e os avanços da Lava Jato, que prometem ceifar seus correligionários mais próximos. As ameaças constantes de defecção da base aliada e o tradicional toma lá, dá cá serão os marcos desse processo.

Este cenário político interno irá minar o tradicional papel brasileiro como uma força para estabilidade regional. Esta falta de liderança, porém, está se aprofundado num momento complexo, porque eventos nos próximos meses irão desafiar a estabilidade regional.

Como a Venezuela começa a se preparar para as eleições presidenciais previstas para o início de 2018, este ano provavelmente irá testemunhar o aprofundamento dos protestos da oposição, os quais serão violentamente reprimidos pelo presidente Nicolas Maduro. Com um governo cada vez mais ditatorial, existe até mesmo a possibilidade que nem eleições aconteçam. Em 2003, o então presidente Lula por meio do grupo de "Amigos da Venezuela" (composto, entre outros, por Brasil, Chile, México, Estados Unidos e Espanha) ajudou a resolver a crise política após o golpe de 2002 e evitar uma guerra civil. Hoje o Brasil polarizado e distraído com questões domésticas é muito menos apto a repetir aquele papel.

Mas isso terá um custo para o Brasil. O caos político e a crise humanitária na Venezuela tem repercussões diretas nas fronteiras brasileiras. Mais de 40 mil venezuelanos já atravessaram a fronteira seca em Roraima para se refugiar no Brasil. Outros tantos continuarão a cruzá-la nos próximos meses. Isso tudo, em uma região que não está prepara para atender essa demanda significativa. Os serviços básicos já estão sobrecarregados e as hostilidades dos habitantes locais se avultam contra os migrantes. Neste cenário, o menosprezo do governo brasileiro ao fluxo de venezuelanos somente agravará a crise. No momento, este é o cenário mais provável caso o governo brasileiro não altere sua postura. Os meios para reverter esta tendência existem, e não são custosos, o que falta é visão estratégica da situação.

Na questão da economia do narcotráfico, por sua vez, a intima relação entre as facções brasileiras (PCC, CV, FDN, entre outras) e as organizações criminosas dos países vizinhos demonstram que qualquer solução efetiva para questão passa por um diplomacia regional preventiva. Neste processo, a cooperação de inteligência, judicial, logística entre os governos da região é medida imprescindível para atacar o problema. Por exemplo, a descoberta de laboratórios de processamento de cocaína, campos de treinamento, pistas de pouso clandestinas, é difícil sem a cooperação da polícia local. Da mesma forma, a cooperação judicial seria importante para um outro aspecto essencial da narco-economia: pedaços de terras na região fronteiriça é um método útil para lavagem de dinheiro. E porque grande parte de terra na área é ocupada por pequenos produtores que não possuem documentos jurídicos para provar sua reivindicação, persuadir as pessoas a vendê-las não é tarefa difícil - mesmo antes da utilização de táticas de terror.

A consequência dessa dramática dinâmica pode ser visualizada nos índices de violência do país. O Brasil tem um índice de 32,5 mortes para cada 100 mil habitantes de acordo com relatório divulgado em maio de 2016 pela Organização Mundial da Saúda (OMS). A situação do Brasil é pior do que a de países como Haiti (26,6), México (22) e Equador (13,8), cujas taxas de homicídio, apesar de altas, são inferiores às brasileiras. O Brasil só perde para países como Honduras (103,9), Venezuela (57,6), Colômbia (43,9) e Guatemala (39,9), onde o crime organizado já controla grande parte do Estado.

Se uma séria reflexão estratégica sobre esse problema não for realizada a situação somente tende a se agravar. O Brasil devido sua situação geográfica é um grande consumidor de drogas e a principal via de escoamento para a Europa. Noutras palavras, é um terreno fértil para a atividade do narcotráfico.

São por esses motivos que é um péssimo momento para o Brasil permanecer as margens diplomáticas em seu entorno regional. A apatia certamente terá um custo!

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.