OPINIÃO

Arábia Saudita se torna principal importador de armas leves brasileiras

Até setembro deste ano, o total comercializado com o país superava a marca de US$ 188 mi.

22/11/2017 19:08 -02 | Atualizado 22/11/2017 19:08 -02
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A maior demanda saudita por armas, responsável pelo incremento das importações, coincide com sua intervenção na guerra civil do Iêmen.

A Arábia Saudita deve assumir o posto de maior comprador de armas leves brasileiras pela primeira vez em cinco anos. Entre janeiro e setembro de 2017, o país árabe importou US$ 188 milhões em armas e munições, contra US$ 137 milhões dos Estados Unidos, vice-líder do ranking e, até então, principal cliente. Os dados constam no levantamento mais recente da Small Arms Survey, organização com base em Genebra, na Suíça, que pesquisa a violência e o uso de armas pelo mundo.

As relações comerciais entre Brasil e Arábia Saudita ganharam destaque em 2015, quando as exportações no setor bélico atingiram a marca de US$ 109,6 milhões - sete vezes mais que em 2013. A maior beneficiada pelo crescimento é a Avibrás, empresa do setor de serviços de defesa que tem sede em São José dos Campos (SP) e concentra 97% das vendas relativas ao período.

A maior demanda saudita por armas, responsável pelo incremento das importações, coincide com sua intervenção na guerra civil do Iêmen, que ganhou corpo no começo de 2015. Em março daquele ano, o governo árabe passou a liderar uma resistência local contra os houthis, rebeldes xiitas que reivindicam maior participação no poder. Desde então, o conflito registra 13.920 vítimas civis, sendo 5.159 mortos. Os dados são do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos (ACNUDH).

"Estamos vendendo armas para um Estado que viola os direitos humanos", afirma Jefferson Nascimento, assessor de política externa da ONG Conectas. "Alguns especialistas consideram hoje [a guerra no Iêmen] a principal crise humanitária, não mais a da Síria."

Atualmente, o Brasil é o terceiro maior exportador de armas leves do mundo. Só em 2014, as vendas atingiram os US$ 591 milhões, deixando o País atrás apenas dos Estados Unidos e da Itália. O comércio de armas brasileiras é regulamentado pela Política Nacional de Exportação de Material de Emprego Militar, normativa do Executivo criada em 1974, durante o regime militar.

A principal crítica de organizações de direitos civis é que a sociedade não tem acesso ao seu conteúdo, impedindo que se tenha uma noção precisa sobre a postura do Brasil na área. "Nosso país é um caso exemplar de falta de transparência no comércio internacional de armas", afirma Nascimento. No quesito transparência, o relatório da Small Arms Survey deu nota 7,5 ao Brasil, em uma escala que vai até 25.

O Brasil se tornou signatário do Tratado sobre o Comércio de Armas (ATT) ainda em 2013. O acordo é responsável por regulamentar a compra e venda no setor bélico e proibir a transferência de armas e munições para países acusados de crimes contra a humanidade. Até o momento, no entanto, o tratado não foi ratificado pelo Congresso Nacional. Sem essa medida, o ATT permanece sem efeito prático.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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