OPINIÃO

Quando Peter Parker perde alguém, é você quem chora

21/08/2015 12:00 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Reprodução

Quem começa a ler Homem-Aranha: Azul é sentimentalmente arrebentado logo nas cinco primeiras páginas. Mesclando uma arte incrível com um texto pesado, a dupla JephLoeb (roteiros) e Tim Sale (desenhos) apresenta o Homem Aranha no presente relembrando o início de seu namoro com Gwen Stacy, personagem morta pelo Duende Verde numa revista lá em 1973. Peter Parker deixa uma rosa no local em que sua primeira namorada morreu e a história pula para o início da vida adulta do personagem. As expectativas vão lá em cima, mas o roteiro não sustenta a carga emocional desse começo. O que é uma coisa boa, senão quase ninguém conseguiria terminar de ler sem chorar (muito).

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Vemos uma pessoa com dificuldades em pagar contas, que sofre assédio moral de um chefe escroto e está inseguro para conversar com o flerte. Poderia ser eu ou você, mas esse é o Peter Parker mesmo. Contrastando com essa imagem mais humana dele, temos um Homem-Aranha bem estabelecido, que é o herói de Nova Iorque e amado por todos. Algumas passagens deixam isso mais evidente, mostrando que num virar de página a vida difícil de Peter se transforma e, invés de chegar no horário para a aula, seu problema vira salvar a cidade de um super vilão.

Narrado pelo Peter do presente, que está sofrendo de nostalgia num dia dos namorados, a história mostra como ele e Gwen se apaixonaram. Mary Jane entra no meio para formar um triângulo amoroso. Como se apaixonar não fosse problema suficiente, Parker ainda tem que lidar com uma série de ataques de vilões e a mudança de casa, já que passa a dividir um apartamento com Harry Osborn. No meio disso tudo ainda temos a presença de um vilão misterioso planejando uma conspiração e Flash Thompson, o babaca ex-capitão do time de futebol na escola que ainda trata Peter da mesma forma que na época do colégio, mas nesse início de vida adulta ainda não sabe muito bem qual é seu lugar no mundo. Nesse ponto, a história fala mais sobre como jovens adultos se enxergam nesse período da vida, que pode trazer uma nova chance de se impor (como é o caso de Peter) ou tirar seguranças que existiam antes, deixando a pessoa bem desamparada (como é o caso do Flash).

Lançado originalmente em 2002, Homem-Aranha: Azul recentemente foi republicado pela editora Salvat num encadernado que junta as seis edições dessa mini-série especial. A edição faz parte da Coleção Oficial de Graphi Novels que está sendo lançada há um tempo e pode ser facilmente encontrada em bancas e livrarias. A história remete a fase em que Parker, Gwen e seus amigos de escola estão iniciando os estudos na faculdade, o que corresponderia aos quadrinhos escritos no fim da década de 60 e início dos anos 70. Essa ligação com histórias mais antigas não fica apenas no roteiro e invade a arte também, tornando o quadrinho um show de metalinguagem.

A idéia dos autores era prestar homenagem aos criadores do Cabeça de Teia, Stan Lee e Steve Ditko e também a John Romita, um dos desenhistas mais importantes e influentes na trajetória do personagem. Dessa forma, o roteiro se torna mais despretensioso, ingênuo e até meio bobo, com pouca conexão com o início emocionalmente arrebatador. Os desenhos de Sale dialogam com a arte que Romita fazia nos anos 70, com cores mais claras e alegres. Isso se reflete no modo como as personagens femininas são apresentadas e até incomoda um pouco.

Todo o roteiro é sobre como Peter se apaixonou por Gwen. A gente já sabe que ela é incrível para ele e que eles vão ficar juntos. Então é meio desnecessária a forma super sensual (num quadro, Gwen está com um vestido justo e curto e botas de salto alto... em plena aula de química!) que a personagem é desenhada. Quando Mary Jane entra em cena, o problema se repete. Ela é egocêntrica, arrogante e vazia e parece que a personagem está ali somente para atrasar o roteiro e atrapalhar o casal protagonista.

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Mas, como bem me lembrou o amigo Matheus Laneri lá no Twitter, tudo isso faz parte da linguagem, do desejo de falar com e sobre essa época dos quadrinhos - que críticos, estudiosos e público defendem que morreu junto com Gwen Stacy (até aquela época, personagens próximas dos protagonistas jamais eram mortas). Remetendo a uma fase da vida de Peter Parker, os autores resolveram mostrar isso do mesmo jeito que era apresentado nos quadrinhos dos anos 70. Essa simplicidade imediata permite leituras maiores à obra e mostra a diferença entre o Peter do presente, que narra a história, com o do passado.

Todos esses problemas de roteiro são justificados no fim. Além da metalinguagem, existia um motivo para Mary Jane ser imatura como foi apresentada. O tom da narração é lúgubre e a carga emocional volta mais forte que no início. Na verdade, Homem Aranha: Azul é uma história sobre perda. Sobre como um início ingênuo pode se transformar em algo complexo que deixa marcas para sempre.

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