OPINIÃO

O dia em que a Mulher-Maravilha sentou a porrada no Batman

27/08/2015 17:45 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

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Não é tarefa fácil vencer o Batman num combate corpo a corpo. Mesmo sem ter superpoderes, faz parte dos preceitos do personagem ser um exímio lutador em várias (quase todas, para falar a verdade) modalidades de combate corporal.

Além disso, sempre que ele sabe que vai enfrentar um oponente mais forte, se prepara e tira algum truque de seu cinto de utilidades. Não importa se é o Super-Homem ou o Hulk, ele sabe o que fazer para vencer o oponente.

Ao longo dos anos, os roteiristas praticamente transformaram esse preparo num poder à parte do personagem, explorando ao máximo sua capacidade de luta e raciocínio (e até extrapolando e sendo bem absurdo de vez em quando). Por isso não é todo dia que se vê alguém batendo no Batman... Que tal então a Mulher-Maravilha?!

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O embate foi eternizado pelas mãos do artista J. G. Jones na história chamada "Hiketeia", escrita por Greg Rucka em 2002.

A Mulher-Maravilha quase sempre foi uma personagem em crise de identidade que contrapunha sua origem mitológica com os valores do mundo moderno, os ensinamentos da ilha de Temyscira (lar das guerreiras amazonas) contra os costumes do mundo patriarcal.

Isso também se refletia fora dos quadrinhos, já que poucas vezes a DC soube lidar com essa duplicidade.

Rucka assume a crise e escreve uma espécie de tragédia grega moderna, na qual a Mulher-Maravilha está dividida entre duas leis, cada uma de um mundo diferente.

O gibi apresenta Danielle Wellys, ma garota perdida que procura a heroína para fazer os votos de Hiketeia. Esse é um "antigo ritual grego que vincula um suplicante a seu mestre em uma relação de respeito mútuo e proteção", como explica a contracapa da edição brasileira, lançada por aqui em 2003.

Pela lei e tradição, quem faz os votos fica sob responsabilidade da pessoa que os ouviu, que por sua vez precisa respeitar e cuidar do suplicante, já que ele estava sem escolha e trocou sua própria dignidade pela guarda do suplicado. De acordo com os costumes, quem cuida das obrigações desse "contrato" são as erínias, seres mitológicos também conhecidos como fúrias.

Em "Hiketeia", elas são mais fortes que a própria Mulher-Maravilha, que está obrigada a respeitar os votos. Além disso, a história transparece o lado mais maternal da heroína, que de fato passa a "adotar" a garota.

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O problema é que a menina é uma criminosa fugitiva que escolheu o pior lugar para cometer assassinatos: Gotham City, o lar do Batman.

Com medo de ser presa pelo herói, ela foge e consegue abrigo com a Mulher-Maravilha por meio dos votos de Hiketeia.

Daniela se transforma no pivô do embate entre os heróis por ser caçada pelo Cavaleiro das Trevas e protegida da Mulher-Maravilha. Nesse ponto, a heroína está dividida entre seguir a lei do mundo patriarcal ou manter as tradições da Grécia Antiga.

Sem questionar os motivos pelos quais a garota é procurada, respeitando os votos da suplicada e também demonstrando um certo afeto que criou pela garota, a Mulher-Maravilha se coloca entre ela e o Batman, não permitindo que o herói chegue perto de sua fugitiva.

"Hiketeia" é também uma boa história sobre o Batman e esse lado quase fascista do herói, como o pessoal do AntiCast discutiu. Em nenhum momento ele questiona os motivos que levaram Danielle a assassinar os quatro homens em Gotham (aliás, a revelação disso à sua protetora é um dos pontos altos da história).

Além de ser o contraponto urbano à questão mitológica da Mulher-Maravilha, obviamente que ver o personagem sob o viés machista é uma leitura plausível. Mas não o machismo no sentido de subestimar a mulher, e sim no da tentativa de manutenção de status-quo.

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Na luta entre os dois ocorrem cenas muito boas e empolgantes da heroína. Sem muito esforço ela pega um batarang no ar e joga o Batman de cima de uma varanda com apenas um soco. Em outro momento, se defende de um ou dois socos que ele tenta dar nela e, com um só golpe, o derruba (de novo!) no chão, dizendo: "Bruce. Não me faça machucá-lo".

Sem menosprezar o morcego, o roteirista mostra que escrever uma personagem feminina fodona não é assim tão difícil, como tanto se discute hoje em dia; basta tentar e deixar o "fan service" (no caso, o do Batman) um pouco de lado.

O mérito de Greg Rucka em "Hiketeia" é respeitar os limites dos dois heróis e explorar talvez ao máximo a complexidade da Mulher-Maravilha e seu conflito entre os mundos em que vive.

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