OPINIÃO

Kill Bill como metáfora do amor (e você achando que era sobre Kung Fu)

26/02/2015 16:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:12 -02

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Lançados em 2003 e 2004, os dois volumes de Kill Bill falam sobre a vingança de uma mulher, exploram a temática e linguagem dos filmes de lutas e jorram muito sangue na tela. Mas o que quase ninguém entendeu é que o diretor Quentin Tarantino usa todos esses recursos para falar de amor. Ou melhor, de três tipos de amor.

É engraçado perceber que o filme trata desse sentimento mesmo que nenhum dos personagens jamais fale a palavra "love" no decorrer dos filmes. O primeiro e mais latente tipo de amor que Kill Bill trata é o que existe nas mães. Beatrix Kiddo, ou A Noiva, personagem vivida por Uma Thurman, busca vingança pelo atentado que sofreu enquanto grávida. Após quatro anos em coma, ela acorda e começa sua trilha de sangue para matar aqueles que tentaram tirar sua vida e a de sua filha - incluindo o pai da menina, Bill. Antes de levar o tiro na cabeça que a deixaria hospitalizada, ela confessa que a filha é dele e acorda tempos depois pensando que a menina estava morta. Tarantino, usando metáforas, mostra tudo que uma mãe é capaz de fazer para criar seus filhos: sangue, suor, lágrimas e sacrifício. Mas como se trata desse diretor, tudo é colocado na tela na forma de muito sangue e Kung Fu.

Ao mostrar toda a capacidade física da Noiva e até onde ela é capaz de ir para concluir seu objetivo, Tarantino talvez tenha criado a maior personagem feminina do cinema (depois da Mulan, claro!). Conversando com uma amiga, chegamos à conclusão que uma personagem não precisa ser mãe para ser uma boa personagem feminina (vide o que a Disney fez em Valente e Mulan [jamais me cansarei de citar]), mas nesse caso em específico a Noiva busca algo inerente ao universo feminino - o direito de ser mãe. Exímia lutadora, ela não mede esforços para vingar a morte de sua filha. E qual mãe não faz o mesmo para criar seus filhos? Nesse ponto, Kill Bill demonstra tudo o sacrifício diário de uma mãe. Quando o espectador, ao fim do primeiro filme, descobre que a menina está viva, uma fagulha de esperança cresce e a empatia com a Kiddo aumenta.

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No segundo volume, é explorado outro ponto de amor do filme: o que existe entre casais - e que pode se tornar obsessivo e doentio. Bill tentou matar a mãe de sua filha por ciúme pelo fato de ela ter abandonado a vida de assassina profissional. Como em qualquer relação, a questão é complexa: ele se sente abandonado e traído, mas Beatrix tinha seus motivos para largar a vida de matadora já que estava grávida e sentia que precisava proteger seu bebê.

O que está implícito no filme é o carinho da relação entre Beatrix e Bill. Por mais sanguinolento que seja na tela, há uma empatia entre o casal, há um forte sentimento mútuo de amor, traição, medo e perda. O modo como termina o diálogo entre a personagem de Thurman e o pai de Bill demonstra um certo tipo de afeto. "Se eu não falasse onde ele está, como ele poderia te reencontrar?". Mesmo sabendo da missão de vingança de Kiddo, Bill quer vê-la novamente para uma última conversa, um último olhar, uma última DR, e, claro, para apresentar mãe e filha.

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Nomeando a criança do casal de BB (possível junção dos nomes Beatrix e Bill), Tarantino mostra que o até-então-carrasco Bill é um pai atencioso e bondoso, e aqui nasce o terceiro grande amor do filme: pai e filha. Entretanto, ele é um espancador de mulher e tem um fim trágico nas mãos da Noiva. Antes de morrer, há um diálogo lindo e cruel entre o casal, como são todos os diálogos entre casais antes de um término. A morte de Bill é apenas uma metáfora para um término. Não tento aqui humanizar a figura do vilão, que movido apenas por ciúme espanca, humilha e tenta matar sua ex. Tarantino lhe concede um final justo (já que morre) e digno (já que era um grande lutador e foi assassinado por uma técnica milenar criada por uma lenda).

Mais uma vez o diretor usa o recurso das metáforas para contar uma história de luta e superação. Se não fossem o Kung fu, as espadas samurai e o sangue, Kill Bill seria um filme sobre uma mulher espancada que luta pela guarda da filha após quatro anos em coma - e isso não desmereceria a película.

Tão cruel quanto uma espadada no pescoço é um término, uma traição e, porque não, uma maternidade. Metaforicamente ou não, todos esses acontecimentos deixam um grande rastro de sangue e amor. E alguns doem mais que um golpe de espada.

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