OPINIÃO

A histórica reabertura do Cine Belas Artes

19/07/2014 20:58 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
Guilherme Athaide

Ainda faltava mais de uma hora para que as portas do cinema se reabrissem pela primeira vez depois de mais de três anos. A fila começava na porta principal, na Consolação dobrava a esquina, que mais tarde seria classificada pelo prefeito Haddad como, "senão a mais importante, a segunda mais famosa da cidade", invadia a Paulista e quase dobrava a outra esquina com a Haddock Lobo - esta um pouco menos famosa.

Tanta gente assim se encontrou para celebrar a reabertura do Cine Belas Artes, agora rebatizado de Caixa Belas Artes, famoso point cultural de São Paulo e "patrimônio afetivo da cidade", segundo Andre Sturm, diretor do estabelecimento e principal responsável pela sequência de atividades que em 2011 foram encerradas pela especulação imobiliária, como bem lembrou a matéria de Rodolfo Viana. Muito antes dele demonstrar tensão na cerimônia de abertura do cinema, Dona Marisa Nogueira, de 62 anos, já estava no local com seus próprios motivos de ansiedade.

Ela era a primeira da fila dos idosos e não deixava de lembrar da época em que a Avenida Consolação era "uma rua sem tanto movimento de carro e com muita importância cultural". Nostalgia à parte, Marisa estava aliviada em poder voltar a frequentar o local. "Não é a mesma coisa ir em shopping. Esse tempo sem o Belas Artes foi uma tristeza", relembrou. Se os cinemas de shopping foram opções de alguns, a facilidade em encontrar na internet os clássicos do cinema foi a saída de outros. "Hoje você encontra praticamente tudo para baixar. Mas ir ao cinema ainda é uma experiência coletiva, é um estado de catarse", explicou o advogado Jacson Andrade, de 25 anos.

No último dia de atividades do cinema em março de 2011 as pessoas na fila da bilheteria estavam com ar de cortejo fúnebre. Hoje, o clima da tarde era festivo, sobretudo quando a banda Mustache e os Apaches iniciou o show programado, por volta das 15h30. Meia hora depois, a banda precisou parar de tocar, os organizadores chamaram atenção para a fachada principal do cinema. A entrada foi reaberta e só então o público pôde matar a saudade do interior do cinema. Pouca coisa mudou no visual, a bilheteria ainda é ao lado esquerdo de quem entra, com lâmpadas formando uma espécie de sol no centro do salão, o café está no fundo e a lojinha, com camisetas e DVDs, continua lá no topo da escada. Rever o hall principal restaurado e, de uma certa maneira, intacto, não deixou de ser uma cena impactante.

Do lado de dentro da grande porta, atrás de uma fita azul, se encontravam autoridades municipais, representantes de movimentos civis, o prefeito da cidade e André Sturm, o diretor do cinema. Visivelmente tenso e ansioso enquanto ouvia os demais discursos, Sturm entregou a carteirinha número zero a Haddad - "meu mais novo querido amigo", como frisou - e passou a palavra ao prefeito. Ele comentou que a reabertura do Belas Artes foi "uma vitória extra-partidária onde quem ganha é a cultura e a cidade", aproveitando para responder aos gritos de "fora Dilma!". O público apoiou com aplausos.

A primeira sessão teve início às 17h, com presença de políticos, atores e cineastas convidados. Porém foi uma sessão aberta ao público, já que a intenção dos organizadores era entregar o cinema às pessoas que tanto o frequentaram e sentiram sua falta. E lá estava Marisa Nogueira, a primeira da fila do início da reportagem. A desorganização tinha sido tão desgastante na fila que ela quase estava infeliz com a sessão, mas logo relaxou nas novas poltronas vermelhas das salas. Algumas fileiras a separavam da atriz e jornalista Marília Gabriela que, mesmo sem estar na fila, havia sido a primeira a entrar na Sala 4 Aleijadinho. Nela foi exibido "Aos ventos que virão", filme de Hermano Penna que foi escolhido para a reestreia do Belas Artes. "Minha história com São Paulo está totalmente ligada a esse cinema. Esses quase quatro anos sem o Belas Artes foram tristes, mas estou aqui de volta", comentou Marília Gabriela.

Do lado de fora das sala, Sturm atendeu cada um da imprensa e, embora aliviado, ainda dizia estar ansioso. "Nos discursos eu tava tentando me controlar para não chorar. Agora ainda estou bem tenso", riu Sturm. "O Belas Artes sempre foi uma coisa muito especial pra mim, eu era muito ligado pessoalmente ao cinema. Não era um negócio pra mim, claro que tem que pagar as contas, mas mais do que tudo era... era um filho pra mim". Há pouco mais de de três, anos, naquele 17 de março, quando o cinema fechou as portas, Sturm também estava abatido, porém declarou um esperançoso e profético "essas últimas exibições não são uma despedida. São um até a próxima sessão". Como num roteiro dos mais hollywoodianos, Sturm não errou e garantiu a sequência do Belas Artes.

Reabertura do Belas Artes: filmes em cartaz