OPINIÃO

6 obviedades que você precisa saber sobre o papel da imprensa

18/03/2016 17:14 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Ian McKinnell via Getty Images
Hand Mikes

Diante desse monte de informacões desencontradas desde quando o juiz Sergio Moro divulgou escutas telefônicas envolvendo o ex-presidente Lula, a gente fica perdido no meio disso tudo.

É justo procurarmos os culpados, mas sempre corremos o risco de responsabilizar erroneamente quem não tem relação com determinados deveres. E isso todo mundo faz, tanto a imprensa (que deveria estar mais atenta a suas responsabilidades), quanto as pessoas comuns em suas redes sociais.

Por conta de vários filtros editoriais, cada veículo seleciona a melhor forma de informar seu público. Desse jeito, as notícias passam por vários vieses que os leitores/espectadores podem ou não concordar.

Por isso, nesse caso em específico, é importante ouvir na íntegra os áudios divulgados e tirar a conclusão que quiser para, depois, procurar o veículo de preferência, o colunista preferido, e formar a opinião da forma mais completa. Isso pode ser feito nesse link, com todos os áudios dos envolvidos.

Tentei elencar alguns pensamentos sobre críticas à imprensa que andei lendo no Facebook. Todas são válidas, justas e importantes. Mas muitas delas partem de pressupostos tão ultrapassados que precisam ser desconstruídos.

1. Falar de mídia tendenciosa é um clichê tão raso quanto a própria mídia criticada. Tudo isso estourou ontem muito em cima da hora do Jornal Nacional, por exemplo. Não estou defendendo os caras, faltou competência e preparo. Na edição posterior à divulgação dos áudios, eles não conseguiram organizar as informações de um modo inteligível e o jornal foi uma bagunça, quem estava entendendo pouco terminou a transmissão mais perdido ainda. Não conseguiram editar a notícia - e "editar" aqui é no sentido de organizar visualmente para mostrar a informação no formato da TV. Tiveram que ler trechos transcritos, com entonação teatral de voz e falas terríveis como "E o presidente falou um palavrão que eu não preciso repetir aqui".

2. A Record não foi tão prudente quanto a Globo e acabou divulgando, durante transmissão do Jornal da Record, o número dos telefones de Dilma e Lula em rede nacional. Jornalisticamente, uma irresponsabilidade sem tamanho que acredito ser fruto da correria de dar a notícia. Deslize grave, mas não significa que um canal seja melhor, mais ou menos isento que o outro.

*Felizmente, a Record mudou a arte da reportagem antes de publicá-la no site do jornal.

3. As empresas de comunicação são guiadas, sim, por interesses comerciais de seus donos. Além disso, existe a questão do tempo de TV e contratos comerciais - Globo, Record, SBT deveriam, mas infelizmente não podem estender seus telejornais por causa dos anunciantes das novelas, do futebol, por exemplo. Dessa forma eles precisam, sim, editar as notícias - "editar" aqui no sentido de selecionar as partes mais relevantes, guiadas pelos interesses editoriais de cada empresa.

4. Nessas horas não tem outra opção: ouçam rádio! Qualquer rádio jornalística. A linguagem nesse caso permite divulgação de trechos dos áudios que as TVs não vão mostrar, além de cobertura praticamente ininterrupta com pouco comprometimento com anunciantes - que, para mim, nem deveria existir. Se uma notícia vier na hora do intervalo comercial, paciência para a publicidade. O locutor dará prioridade para a informação - coisa mais complicada de acontecer no formato da TV não pelo "mau-caratismo" das emissoras, mas por limitações e vícios da plataforma.

5. Procurem e assistam "O Mercado de Notícias". Um documentário fantástico feito pelo cineasta Jorge Furtado que conta com diversas entrevistas de profissionais sobre a questão do jornalismo político.

6. A imprensa está no papel dela em divulgar as escutas telefônicas e seus desdobramentos, mas não tem mérito nenhum. Teria se o vazamento fosse fruto de uma investigação pesada por parte de algum veículo. Mas os áudios foram presente do Moro, que também é guiado pelos interesses dele. Infelizmente, nesse caso, interesses bem menos claros que os da própria imprensa.

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