OPINIÃO

Mulheres da Cracolândia - Cidadãs sem classe

"A sociedade quer o resultado deste projeto numa tabela. Não tem como. São pessoas. Cada um tem uma história."

06/06/2017 14:21 -03 | Atualizado 06/06/2017 14:21 -03

Há um ano estive na antiga Cracolândia, em São Paulo, com intuito de falar sobre o cotidiano das mulheres na região. Neste artigo, relato encontros com quatro mulheres e conto a força de suas histórias.

Não há dados oficiais sobre o tamanho da população feminina que vive pelas ruas da Cracolândia. O que sabemos é que elas estão ali e são negligenciadas pelo poder público. Assim como acontece no sistema penitenciário, as necessidades das mulheres em situação de rua não são lembradas durante a compra de produtos de higiene e limpeza seja pelo estado ou pelo município.

As histórias abaixo foram coletadas antes da operação policial do último 21 de maio, em que a Polícia Militar invadiu a Cracolândia sob o comando do governo e prefeitura de São Paulo.

Uma panela e cinco filhos

Conheci Ana Cristina Pereira deitada na calçada da rua Helvétia. Eu me sentei ao lado dela e comecei a puxar assunto. Na ocasião, ela cozinhava um frango numa grelha e dava um conselho para uma amiga que estava grávida de oito meses: "Você tem que comer. Não pode ficar assim não. Você tem um anjo dentro da sua barriga".

Papo vai, frango cozinhando e Ana e eu começamos a conversar sobre a vida. "Eu tenho 46 anos e sou uma ótima cozinheira. Tenho cinco filhos, acredita? Dois meninos que são gêmeos, de 23 anos, duas meninas, também gêmeas de 20 anos e uma caçula, de seis anos. Já sou até avó, tenho dois netos. Muitas saudades deles", conta.

Ana saiu de Santos, litoral paulista, para tentar a vida em São Paulo e conseguiu um emprego como copeira do ex-prefeito Fernando Haddad. Mas tentar a vida nem sempre é fácil. Depois de mudar de cidade, Ana teve dois derrames, perdeu os dentes e foi espancada algumas vezes pelo parceiro.

Ela me contou que havia parado de usar crack e, no momento, lutava por uma nova oportunidade de emprego. Sobre os filhos? Não tem coragem de ligar. Tinha vergonha. Não queria atrapalhar. Mas deixou uma mensagem para eu colocar no artigo, quem sabe um dia chegue até eles: "filhos, amo muito vocês. A mãe volta daqui a pouco".

Ana não foi encontrada após a ação do prefeito João Dória realizada no dia 21 de maio.

Divulgação/Olivia Tesser
Mãos de Ana cozinharam para os filhos e serviram ex-prefeito de São Paulo.

"Aqui todas as onças são livres"

Durante as minhas idas à rua Helvétia, acompanhando um projeto da Casa Rodante, conheci a assistente social Carmen Lopes, que trabalhava no Programa de Braços Abertos por meio de uma ONG. Ela é uma mulher de estatura baixa, loira, ex-empregada doméstica e vista como "mãe de todos" no fluxo (local onde ficavam concentrados os usuários de crack).

Durante nossas caminhadas só se ouvia o nome dela. "Dona Carmen, me arruma uma vaga no hotel? Dona Carmen, me arruma uma calça? Dona Carmen, me ajuda a tirar meus documentos? Dona Carmen, briguei com meu marido. Fala com ele?". Todas as perguntas são acompanhadas por um beijo, um abraço e muito carinho.

Na fala baixa e suave da assistente social, a bronca também rolava solta. "Ei, por que você não retornou o telefonema da sua mãe? Por que você não foi trabalhar ontem? Sua mãe veio aqui te ver como você pediu. Onde você estava? Por que você não está indo dormir no hotel? Que jeito é esse aí?". E a resposta padrão era "Dona Carmen, é que..." e aí cada um se explicava a seu modo.

Quando a questionei sobre a relação estabelecida entre ela e o usuário, a resposta foi simples: "aqui tem amor, carência, crack e criança. Isso é uma família feita com outros padrões. Todos têm direito a uma vida digna. Porém, pelas fotos dos jornais e filmagens, não dá para ver isso".

"Nunca tinha tido uma amiga"

Maria Laide dos Santos Bueno, 63 anos, esteticista, casada, mãe de dois filhos adotivos (Tiago, 33 anos, e Maria Paula, 3 anos), era responsável por um dos hotéis sociais cadastrados no programa de Braços Abertos. No dia 5 de março deste ano, o local pegou fogo. Na ocasião, os moradores perderam seus pertences e alguns foram encaminhados para o pronto-socorro com ferimentos. Até o momento, a causa do incidente é desconhecida.

O local hospedava 65 pessoas que se dividiam em 30 quartos mistos e 5 banheiros. Todos os dias, dona Laide, como era conhecida, servia café da manhã para os hóspedes e entrava nos quartos bem cedo para alertar que era hora de ir trabalhar. O local era cheio de quadros e muito bem cuidado. Todos entravam com muito respeito e educação. Moravam homens, mulheres, crianças e casais, muitos idosos.

Durante a nossa conversa, quem passava por ali era dona Otília, uma senhora de 66 anos que viveu em situação de rua durante 43, teve seis maridos agressivos e apenas um filho. Otília afirmou que foi difícil se acostumar a dormir em um quarto depois de tantos anos nas ruas. "Eu via bicho. Me batia uma solidão muito grande. Me sentia mal e eu ia dormir na rua. Lá só é ruim quando tá frio. Na rua, você conversa, tem muita gente, muitas histórias e você não se sente sozinho. Sempre tem alguém com você", relata.

Porém, a amizade entre dona Otilía e dona Laide mudou a opinião da senhora de olhos firmes e rosto marcado. "Eu fiquei amiga da dona Laide. Ela é minha melhor amiga. Nunca tinha tido uma amiga. Hoje eu tenho. Agora toda noite ao invés de sair para ficar na rua, eu fico aqui conversando com ela", conta dona Otília.

Emocionada, Laide responde: "a sociedade quer o resultado deste projeto numa tabela. Não tem como. São pessoas. Cada um tem uma história. Ninguém perde hábitos e vícios da rua do dia para a noite. Existe um processo que precisa ser acompanhado, e não criticado".

D. Otília não foi encontrada após a ação do prefeito João Dória no dia 21 de maio.

"Nunca pedi arrego"

"Ei, você que é a jornalista que está falando com as mulheres aqui?", me pergunta uma senhora. "Sim, sou", respondo bem baixinho, com receio de ser reconhecida no meio do fluxo e ter minha coleta de depoimentos suspensa.

"Eu gosto muito de ler. Para me virar nessa profissão adquiri muita cultura. Falo quatro línguas: inglês, espanhol, francês e italiano. Já passei cinco vezes no vestibular. Uma das vezes consegui cursar três anos de contabilidade, porém depois tive que deixar o curso. A responsabilidade da rua falou mais alto", explica minha nova amiga Anne, uma mulher magra, negra e que tem por volta de 50 anos.

Na ocasião, ela estava vendendo drogas para um gringo e com alguns livros ao lado de dentro da barraca que servia de casa e "lojinha". Durante nossa conversa, ela citou Nietzsche, Dostoiévski, Simone de Beauvoir e Carlos Drummond de Andrade entre seus autores prediletos.

Anne é carioca e, durante mais de duas décadas, integrou o Primeiro Comando da Capital (PCC), facção criminosa que controla parte dos presídios de São Paulo. Conversamos sobre a vida das mulheres no tráfico. Ela falava devagar e com um português impecável.

"Não é fácil ganhar o respeito. Durante mais de 20 anos dentro do sistema, eu fui parar na cadeia ao menos 19 vezes. Nunca pedi arrego e nunca deixei de sustentar os meus seis filhos. Eu fazia dinheiro dentro e fora da cadeia. Tenho quatro meninas e dois meninos e nunca ganhei pensão dos pais de nenhum deles", explica.

Anne não tem digitais e, por isso, nunca ficou tanto tempo na cadeia. "Minhas identidades foram todas falsas.Eu queimei as duas mãos, esperei formar bolhas e estourei e, desta forma, perdi as digitais", conta.

A última prisão, no entanto, foi diferente. Quando chegou na cadeia, ela estava grávida e teve que passar a identidade correta para que a filha pudesse ser criada por alguém próximo a ela. Ficou sete anos presa.

Quando saiu da prisão, Anne não queria mais voltar para o tráfico e foi direto ao Poupatempo de São Paulo (programa que disponibiliza diversos serviços à população). Imaginou que, com sua bagagem, teria a oportunidade de ter um emprego formal. Porém, a realidade foi outra. "Não me ofereceram nem emprego de faxineira. Saí de lá arrasada, sem emprego e sem ter onde morar", conta.

Atualmente ela "se vira" dentro do tráfico, porém não como antes. Tornou-se vítima do próprio negócio e passou a ser usuária de crack, motivo pelo qual foi destituída do PCC - devido à dependência química, não poderia ter as mesmas responsabilidades que tinha anteriormente.

Durante as minhas "andanças" também acompanhei a Anne ajudando algumas mães a encontrarem seus filhos na Cracolândia. "Tem muita mãe que vem aqui procurar filhos, sabe. Eu fico com dó. Eu vou lá e trago a pessoa mesmo que seja pelos cabelos. Nenhuma mãe comigo aqui entra no fluxo. Isso não é jeito de alguém ver um filho", relata.

Motivo? "Ah, isso é um jeito de devolver o que eu já fiz muita família passar com o meu trabalho né. Quem sabe Deus me dá um desconto quando eu chegar lá em cima", explica com um sorriso aberto.

Anne tinha sonhos: voltar a ver os filhos, ter uma cama para dormir, um trabalho e comprar roupas novas. Ela estava na fila de espera para ser atendida pelo Programa de Braços Abertos, porém o programa acabou antes que sua senha fosse chamada.

Anne não foi encontrada após a ação do prefeito João Dória no dia 21 de maio.

Saiba mais sobre as Mulheres da Cracolândia

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