OPINIÃO

Fazer jogos para vocês será um privilégio

11/08/2015 14:07 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

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Se você presta atenção suficientemente na área de desenvolvimento de jogos, já deve ter lido, visto ou ouvido falar que trabalhar com games no Brasil é promissor, mas no fundo é impossível sem esforços laboriosos, e que aquelas matérias otimistas porém genéricas dos meios de comunicação populares não são muito transparentes nos seus números e suas edições.

Mesmo com recursos que facilitam desde a simples existência de uma empresa, até a fase de desenvolvimento e divulgação de um produto, ainda vemos mais startups nascendo (e morrendo) do que vagas abertas, posturas trabalhistas bastante díspares entre elas, ou até mesmo grades curriculares voláteis e prematuras em cursos de graduação.

Não são problemas exclusivos do nosso país, e mesmo que falando deles, não posso ir muito além da constatação ou propor alguma solução concreta, já que depende de uma infinidade de outros fatores além do nosso alcance, como por exemplo o amadurecimento do mercado e suporte do governo. O que eu posso fazer é explicar o que raios tudo isso tem a ver com o que eu tenho abordado ultimamente: representatividade.

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O crítico de mídias de entretenimento, em específico quadrinhos e videogames, Tauriq Moosa, escreveu o artigo Colorblind: On The Witcher 3, Rust, and gaming's race problem ("Daltônico: sobre o problema de raça em The Witcher 3, Rust e videogames"), no qual articula sobre representatividade nos games, falando sobre a total ausência de personagens com outros tons de pele que não sejam branco em The Witcher 3, e como a possibilidade de jogar permanentemente no papel de um negro ou pardo por aleatoriedade em Rust despertou a raiva de muitos jogadores de cor branca -- quando o inverso acontece praticamente sempre com pouco estardalhaço e muita complacência.

O texto gerou bastante diálogo, mesmo que por grande parte desnecessariamente acalorado, alcançando muitos desenvolvedores. Um deles, com muito suporte, questionou:

É meu dever como homem branco produzir jogos não sobre a minha cultura, mas sobre a sua? [Tauriq é pardo e sul-africano] Por que você mesmo não os faz?

  1. Não, mas é bom.
  2. Porque desenvolver jogos, além de trabalho duro, requer privilégio.

Sendo desenvolvedor ou não, costumamos pensar que o ponto de partida é buscar recursos de aprendizado, ferramentas, facilitadores (alguém que te ensine direta ou indiretamente) e praticar muito... Quando na verdade isso tudo já é o meio do caminho, como também o provável limite máximo de alguns.

Logo de cara, se a curiosidade de aprender de uma criança não é livre -- se o interesse por consertar coisas for subordinadamente trocado por pentear bonecas, ou o gosto pela arte for intimidada pela incerteza de sucesso -- muitas portas lá na frente já se trancam sem saber que elas um dia poderiam se abrir.

Depois, para se especializar, é preciso frequentar um curso particular ou muito caro, ou acessível porém cheio de armadilhas burocráticas, ou passar no vestibular de um dos raríssimos cursos públicos -- que muitas vezes requer o também privilégio de fazer "cursinho", ou ter o ambiente e os materiais corretos de estudo. Fora esperar que qualquer um desses lugares tenha um corpo docente preparado para o mercado.

Ainda que seja possível estudar por conta própria, na era da eclosão das engines gratuitas, ainda é imprescindível possuir um computador potente, conexão com a internet, aparelhos de teste (kits de desenvolvimento como consoles ou smartphones) etc, todos bem longe de serem de graça. Mesmo a aquisição suada de um videogame não necessariamente reflete a manutenção de uma carreira como esta.

E nem mesmo munido desses recursos inibiria o maior empecilho de todos os estudantes e trabalhadores, especialmente os mais dedicados: tempo. Arrumar-se de manhã, viagem de ida, horário de almoço, imprevistos, viagem de volta, trânsito, problemas pessoais, tarefas da casa e dormir. Nem a maior força de vontade do planeta vai fazer seus dias terem serem mais longos.

O que parece normal para uns, na verdade é uma grande amálgama de privilégios invisíveis a eles mesmos.

Apesar de aproximadamente a metade da nossa população ser negra, a distribuição de riqueza é desesperadamente desproporcional, num país onde a etnia de torcedores num jogo do Brasileirão é visivelmente bem distribuída, mas nos jogos da seleção na Copa de 2014, onde cada entrada era comprada apenas via internet e custava os olhos da cara, quase só se via brancos. Também não é de se esperar que haja muitas mulheres no ramo num país onde até pouco tempo as meninas eram reprimidas, e até hoje questionadas por mostrar interesse em ciências exatas ou tecnologia. E o que dizer sobre aqueles que não são heterossexuais cisgêneros, que mal conseguem sequer o devido respeito da nossa atual sociedade?

Quantos alunos ou professores negros frequentam seu curso? Quatro de quarenta? Quantas mulheres fazem parte da sua equipe? Três de quinze? Pouco, ainda muito pouco.

Mesmo não pertencendo a nenhum desses grupos, se com o mesmo suor você deve tomar a decisão irreversível de ou conseguir um emprego desagradável porém estável, ou trabalhar com games sem grandes perspectivas de sucesso a longo prazo, é de se esperar que a segunda opção seja completamente rejeitada, talvez para sempre.

Então, não, não é seu dever fazer jogos sobre pessoas diferentes de você, mas para evitar que corramos o risco de segregar ainda mais nossa indústria e estagnar nossa cultura, e enquanto questões externas maiores não forem melhoradas para trazer perfis oprimidos para o lado de cá do desenvolvimento, devemos o quanto e quando pudermos fazer nossa parte pelos que não podem, gerando mais interesse por meio da representatividade, substituindo achismos por reais perspectivas na fase de produção.

Ora, pois quem presta atenção suficientemente na área de desenvolvimento de jogos, já deve ter lido, visto ou ouvido falar que muitos trabalham com isso porque algum jogo criou um momento memorável, e que isso inspirou a seguir carreira e gerar a mesma sensação nos outros. Que faça jogos para todos os outros, então.

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