OPINIÃO

As mulheres e o meio ambiente

28/09/2014 13:43 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:56 -02
divulgação

Nesta semana especial, em que tivemos a histórica Marcha pelo Clima e líderes mundiais se reuniram para discutir questões climáticas na Cúpula do Clima em Nova York, quero compartilhar a experiência que vivi no Quênia. Eu acredito que compartilhar conhecimento e experiências fortalece a todos!

Para podermos ajudar o mundo a ser um lugar melhor, temos de conhecer o que está acontecendo em diferentes partes do globo. Quando rompemos nossas bolhas e saímos delas, podemos ver como é importante para as pessoas na linha de frente estarem no centro da busca e implementação de soluções.

Eu, por exemplo, fui para o Quênia. Aprendi muito sobre os problemas ambientais e energéticos, e também como as mulheres são incríveis quando trabalham juntas. Vi pessoalmente como os problemas climáticos afetam a vida e a subsistência das mulheres e meninas. Com frequência as mulheres sofrem danos ambientais, mas têm pouca condição de influir para que as coisas sejam feitas de maneira diferente. Ao mesmo tempo, as mulheres enfrentam o grosso das dificuldades cotidianas.

Vocês sabem qual é o impacto que um simples fogão a lenha pode ter na vida de uma mulher? As pessoas os utilizam porque não têm fontes modernas de eletricidade. Os fogões produzem muita fumaça tóxica, que prejudica o meio ambiente e a saúde humana. Um número maior pessoas morre por causa dessa fumaça do que de malária -- globalmente, cerca de 4,3 milhões por ano. Isso é horrível! Na área rural do Quênia, porém, as pessoas não têm alternativas -- somente 4% têm acesso a eletricidade.

Conseguir lenha suficiente para os fogões também é um peso enorme para as mulheres, que passam muitas horas coletando e carregando madeira. Eu quis ver isso pessoalmente, e fui colher lenha com mulheres de uma aldeia perto da cidade de Kisumu.

Pelo menos duas vezes por semana elas coletam lenha, saindo de madrugada e voltando para casa ao anoitecer. Como muitas árvores próximas já foram cortadas, elas têm de caminhar por muitas horas.

No dia em que as acompanhei, caminhamos mais de 8 quilômetros, o que, segundo elas, é uma jornada curta. O calor era intenso, e tínhamos de carregar ferramentas pesadas. As mulheres me disseram que estavam preocupadas porque grande parte da floresta estava sendo cortada. Elas se perguntavam se conseguiriam lenha no futuro. Quando chegamos a um lugar bom para cortar madeira, era cheio de espinhos que furavam nossos dedos. Cada mulher cortou cerca de 40 quilos -- o suficiente para encher duas malas grandes. Elas os carregaram de volta nas cabeças. Eu experimentei carregar apenas um quinto de sua carga normal.

Isso me fez ver como a energia moderna é vital para a vida das pessoas. É inaceitável que no século 21 ainda haja pessoas sem acesso a energia, saneamento e água. Essas mulheres de Kisumu são fortes e trabalham duro para cuidar de suas famílias e alimentá-las, mas elas precisam de novos tipos de combustível.

Felizmente, cada vez mais mulheres do Quênia e de outros países estão envolvidas na solução desse problema, como fogões de cozimento lento feitos de barro e chaminés que reduzem a poluição nas casas em até 70%. Esses fogões usam 50% menos madeira -- uma grande vantagem para as pessoas e para o meio ambiente.

As mulheres precisam ser escutadas. Suas vozes e suas ideias podem contribuir enormemente para encontrarmos soluções climáticas que funcionem local e culturalmente. Uma de minhas pessoas favoritas em minha viagem ao Quênia foi Naomi, uma líder comunitária. Ela desenvolveu um fogão sem fogo, que ajuda a manter a comida quente durante oito horas depois de cozida, de modo que o fogo pode ser apagado para conservar madeira e reduzir a fumaça nas casas.

Apesar de enfrentar muitos desafios, Naomi mantém uma visão positiva e revigorante da vida. Ela compartilhou comigo a grande alegria que tem ao fazer os outros rirem! Vi como ela é apreciada e respeitada pelas outras mulheres da aldeia. Há muitas mulheres como ela ao redor do mundo: inteligentes, fortes e positivas. Todos nos beneficiamos quando elas compartilham sua energia e suas ideias, sem sofrer as restrições da desigualdade de gêneros. Nosso meio ambiente comum é um interesse grande demais para que qualquer pessoa deixe de participar de seu cuidado.

Acredito que todos devemos ter um sonho, não importa quais sejam nossas circunstâncias. As mulheres que conheci no Quênia me lembraram de como é importante nunca desistir. Elas me mostraram que dar poder às mulheres significa dar poder à humanidade. Devemos sempre acreditar em nós mesmos e em nosso poder de fazer diferença.

Agradecimentos especiais à Unep e à Practical Action, que nos propiciaram essa experiência. Este artigo é uma versão editada do que foi escrito originalmente e publicado na campanha Women Beijing+20 da ONU.

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