OPINIÃO

Os especialistas de assunto nenhum

21/11/2014 09:55 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
Alija via Getty Images

Este foi um ano bem agitado para os brasileiros, no geral. As redes sociais nunca estiveram tão movimentadas. Antes fosse apenas pelos assuntos que extrapolaram mais que o normal o interesse público, como a Copa das Copas ou a Eleição das Eleições. Não. Tudo isso já passou e a euforia com as notícias mais variadas continua. Absolutamente tudo na internet virou motivo de repetição e, obviamente, de discussão, mesmo com o assunto mais trivial. Esse foi, definitivamente, um ano para tirarmos todas as dúvidas - se é que ainda tínhamos - sobre como a internet se apossou de vez da nossa realidade, conturbando profundamente nosso ciclo de amizades.

"Política, futebol e religião não se discute." Acredito que essa famosa frase já não existe mais. E, se existe, ela não se aplica às redes sociais.

Estas se tornaram um refúgio para os desesperados por atenção. A busca por ideologias se transforma, nesses novos tempos, em uma busca implacável por autoafirmação. O desespero por impor uma vida que você finge levar, para pessoas que você finge conhecer, com ideias que você quer que todos saibam. Nosso problema nessa era moderna é sermos intelectualmente sedentários.

Eu vivo em uma realidade onde todos sabem de tudo. Não há nada que meus colegas não saibam discutir ou argumentar. A não ser, é claro, que você vá muito longe no raciocínio ou, pior, decida contra-argumentá-los.

Mas, quem sou eu para reclamar disso? Confesso: não fui menos vil. Eu também fui contaminada pelo vírus da arrogância, onde, ouvindo uma besteira qualquer, de alguém que mal conheço, a última coisa que quis foi conversar, queria apenas destilar minha sabedoria de bar, hoje mais bem-vista que uma mera filosofia do mundo virtual.

Mas foi entrando nessa onda de debates que percebi: ninguém parece muito interessado em aprender. Todos querem apenas ensinar. Mas ensinar o quê?

E daí que fulano estudou anos para saber sobre um assunto específico, não é mesmo? Eu leio a tarde inteira notícias sobre tudo! Quem é que sabe mais?

Outro problema gravíssimo que percebi é que, hoje em dia, mudar de opinião é algo quase proibido.

Vejo gente confundindo ser cabeça-dura com ser intelectualmente bem resolvido. De acordo com os novos inteligentes, mudar de opinião significaria mudar sua ideologia. Uma ideologia que você criou em poucos dias, sem anos de estudo afundo, sem tese, sem profundo julgamento.

Claramente o debate é essencial para o crescimento humano e perder esse hábito seria um desaforo à nossa evolução. Porém, não deveria ser preciso perder-se tanto em amizades para ganharmos em conhecimento.

Presencio uma geração que se perdeu com tanta informação. Hoje, a quantidade de informação é que nos confunde. Engano de quem pensou que seria limitando a informação que se prejudicaria o conhecimento. O que é real? O que não é? O que devemos estudar mais a fundo? O que devemos deixar pra lá? Militar tudo? Ou ter um foco?

Ainda não consegui entender como, com tanta inovação e praticidade ao nosso dispor, com apenas um clique, decidimos gastar nosso tempo e criatividade com atitudes que, no fim das contas, apenas tornam a tecnologia nossa inimiga.

A internet se tornou um ambiente inóspito e quase insuportável, mas a era digital impregna nosso dia-a-dia de maneira que não há outra solução, senão nos rendermos a ela. Não conseguimos simplesmente nos desligar do Facebook, precisamos reclamar do Facebook no próprio Facebook. Só o que nos resta é nos reeducarmos a esse novo modelo de debates, a esse novo modelo de convívio social, sem abandonarmos, é claro, o modelo antigo: uma mesa, algumas cadeiras, bons amigos e ideias genuínas.

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