OPINIÃO

Selfies: a idealização da imagem ao invés da experiência

28/01/2014 17:31 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

A fotografia inspira o desejo de viagem há mais de um século. Uma foto de uma paisagem idílica, de um pôr do sol extraordinário, de pessoas portando trajes exóticos ou comidas desconhecidas porém apetitosas sempre despertaram o sonho dessas experiências. Queremos estar na paisagem, ver o pôr do sol, conhecer aquelas pessoas e provar aquelas comidas.

E, com a evolução da câmera no telefone móvel, o que era antes reservado para fotógrafos tornou-se acessível a todos com um celular, enquanto filtros do Instagram nos dão a ilusão de que somos todos gênios da arte de captar imagens.

Eis que surgiu a controversa palavra do ano de 2013: "selfie", e a arte de fotografar lugares maravilhosos deu lugar a fotos nossas nestes tais lugares. Não é mais suficiente captarmos e compartilharmos cada momento -- agora precisamos mostrar que estávamos naquele momento (e ainda fazendo biquinho ou de 'look do dia').

Não é por pouco -- há poucos anos, todos ganhamos a responsabilidade de cuidar de uma segunda reputação nossa perante a sociedade, investigada por futuros prospects amorosos e até departamentos de RH de empresas: nossa reputação virtual.

Muitos já criticaram o conceito do "selfie" por ser nada mais do que uma mera hipsterização do auto retrato e simbolizar o narcisismo absurdo nos "jovens" de hoje. Até mesmo o presidente Obama foi criticado por tirar um "selfie" no funeral do Mandela, e o Telegraph declarou que "o problema é que agora todas as fotos se parecem."

Mas a obsessão por caras, bocas e "looks do dia" gera um problema à parte: nossa abstração de onde estamos e a idealização de imagens ao invés das experiências que estas representam.

Existe uma preocupação em mostrar que estamos vivendo momentos maravilhosos. É o extremo da expressão americana "pictures or it didn't happen", que sugere que, se algo não está documentado em fotos, não aconteceu. Ironicamente, a necessidade de pausar momentos e modelar para fotos é o que nos inibe de viver os momentos dos quais tanto nos gabamos.

"O selfie nos acostuma a colocar nossas vidas em 'pausa' para documentá-las", diz Sherry Turkle, professora da MIT, num artigo recente escrito para o New York Times.

Quando vemos uma foto de uma linda paisagem ou de um pôr-do-sol marcante, não almejamos mais estar naquele ambiente mas imaginamos as fotos que tiraremos, de nós mesmos, naquele lugar. Pensamos nos potenciais Likes gerados, nos comentários sobre como estamos bonitos, e salivamos ao pensar que talvez aquele momento será digno de uma foto de perfil.

Não importa mais se a imagem foi tirada por nós mesmos ou por uma vítima que encurralamos. O efeito é o mesmo: a experiência se torna um mero acessório enquanto a nossa imagem e a representação da experiência tomam o centro do palco.

Clicamos, posamos, e os pensamentos que aquele momento nos proporciona não passa de "qual hashtag vou usar?"

A potencial satisfação da memória daquele momento e a foto "top" colecionada nos faz colocar o futuro e o passado no pedestal, enquanto o presente toma um tom de sépia em frente dos nossos olhos.

Isto tudo me lembra um episódio da sombria série de TV Inglesa "Black Mirror", em que o personagem principal passa seus dias pedalando para alimentar a imagem e as experiências de seu avatar virtual.

Não estou dizendo que algumas fotos de viagem não têm o potencial de nos trazer felicidade bem depois do momento vivido, e que devem fazer parte das férias. Mas ao invés de nos preocuparmos tanto com os looks do dia, não seria melhor aproveitarmos para "dar um look" no dia?