OPINIÃO

O drama de Santa Maria por uma santa-mariense

27/01/2014 17:51 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Por volta das 9h da manhã de domingo, dia 27 de janeiro de 2013, uma das minhas melhores amigas me ligou. Atendi com minha típica voz de sono matinal, resmungando, mas estranhando o telefonema inesperado. A voz dela era calma, mas com um tom de preocupação ao fundo. "Gabi, antes que tu ligue a TV e fique chocada, quero te avisar que teve um incêndio na Kiss nesta madrugada e algumas pessoas morreram". "Quê? Como assim? Quantas pessoas morreram?". "Não se sabe, mas fica calma, não te desespera, tá?"

Na hora, decidi que não ia entrar em pânico e que não devia ser nada demais. Fiquei alguns minutos me convencendo disso. Até que abri meu Whatsapp e uma amiga que estava fotografando a boate naquela noite havia contado sobre o incêndio em um grupo. Eu tinha uma cobertura completa e em tempo real de fotos e vídeos sem precisar de apuração. Só que eu não conseguia acreditar que aquilo era verdade. Liguei a TV para não desligar até o fim do dia. Passei o domingo inteiro sentada no sofá, em frente à televisão, com o notebook no colo e o celular na mão, consumindo vorazmente informações sobre o incêndio... Cada vez mais chocada. A ficha demorou para cair, eu passei horas incrédula.

Amigos começaram a me ligar e mandar mensagens, pensando que eu pudesse estar em Santa Maria naquele final de semana. Quantos conhecidos pensaram automaticamente em mim quando viram a notícia eu não saberia dizer. Enquanto isso, outros comemoravam o pré-carnaval. A tragédia não lhes dizia respeito. Eu não conseguia acreditar naquilo, parecia que aquele universo paralelo de alegrias não me pertencia mais. Eu estava em estado de choque.

No dia seguinte, acordei às 7h e percebi que não era um pesadelo. Tomei café da manhã chorando e assim permaneci até chegar na redação em que trabalhava. Paralelamente, eu não me sentia no direito de sofrer em São Paulo enquanto minha timeline do Facebook era só luto de pessoas que estavam lá. Então eu fiz o que devia fazer: trabalhei.

Não costumo chorar em lugares públicos, mas naquela semana chorei todos os dias. Às vezes as lágrimas escorriam na frente do monitor, enquanto eu escrevia os perfis das vítimas e ouvia, através das várias TVs que me cercavam, falarem da "tragédia de Santa Maria".

Desde que me mudei para São Paulo, toda vez que eu me apresentava, ninguém sabia nada da minha cidade natal. "Perto do Uruguai, né?". "Não, fica no centro do estado". Eu ficava contente quando alguém conhecia Santa Maria. Era raro. De uma hora para outra, o Brasil inteiro só falava da minha cidade.

Ao ler os nomes das vítimas, meu coração apertava. Não os conhecia, mas os sobrenomes me eram familiares. Santa Maria teve um forte fluxo de imigração europeia. A maioria dos santa-marienses têm sobrenome italiano ou alemão. Muitos carregam sobrenome português, mesmo vindo de famílias germânicas ou italianas, como é o meu caso. Por isso, eu já tinha topado com a maioria daqueles sobrenomes em listas de chamada ao longo dos meus 21 anos morando lá.

Como disse uma amiga que teve de pisar em um corredor de hospital naquela madrugada, "era a gente ali, a pele pisoteada e chamuscada, a saia justa rasgada, o cabelo no rosto sem vida". Quantas vezes já saí com essa amiga na noite santa-mariense? Realmente, éramos nós. A mesma matéria-prima. Minha terra, minha gente massacrada naquele horror sem sentido que estampou capas de jornais e revistas no mundo todo.

Até hoje, sempre que conheço alguém em qualquer lugar que eu vá (falo sério porque fui questionada até por uma libanesa de férias em Barcelona), as perguntas ainda são as mesmas. "Aquela cidade da boate que pegou fogo? E você conhecia alguém? Já tinha ido àquela boate?".

Demorei um pouco para conseguir sair em boates e, quando saí, procurava saídas de incêndio. E isso não é nada. Tenho amigas que quase perderam parentes queridos, outras perderam amigos e uma quase perdeu a vida. Quem estava na cidade sofreu muito mais. Mas eu sofri também, e fui o elo de ligação de várias pessoas com a cidade. Longe da "terrinha", onde a maioria das pessoas ficaram minimamente tocadas, tive que ouvir piadas sobre como as boates são quentes em Santa Maria, sobre música gaúcha e coisas piores que não deveriam ser repetidas.

Eu andava pela rua e parecia flutuar no nada. Eu estava aqui, na cidade que escolhi para viver, mas minha cabeça estava em Santa Maria. Na rua, ninguém sabia da minha trajetória, nem que eu estava com o rosto ensopado de lágrimas porque a minha cidade estava chorando. Nunca me senti tão sozinha e tão suspensa no tempo e no espaço. Meus amigos de Santa Maria viviam o drama do incêndio na pele, eu sofria à distância, então eles não me entendiam muito bem e não era uma prioridade entender, é claro. Meus amigos de São Paulo me estenderam a mão, mas era impossível para eles entenderem a dimensão daquilo para mim. E eu mesma não sabia compreender.

Voltei para lá duas vezes depois do incêndio. Na primeira, em agosto de 2013, a cidade ainda estava em luto, havia uma guardinha em frente à boate que cuidava o movimento de curiosos. Fiquei uma hora lá, lendo cartas e chorando enquanto turistas tiravam selfies na frente do que virou uma espécie de "monumento". Na última, em dezembro, a cidade parecia ter recuperado o ritmo, havia carros com convite a festas universitárias pintadas no vidro com tinta guache, havia movimento na noite e as pessoas não falavam muito no assunto. Mas a cidade perdeu a referência de vida noturna que ostentou por tantos anos.

Santa Maria é muito conhecida no estado por suas festas. Muita gente de cidades menores sonhava em morar em Santa Maria, uma cidade amigável, com baixo custo de vida, movimentada, alegre e cheia de vida por causa dos universitários.

Anualmente, somente a Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) recebe quase 5.000 "bixos", os calouros universitários. Isso sem contar as faculdades privadas. Dos 260.000 habitantes, 30.000 são estudantes. Todo final de ano, milhares de jovens aguardam seus nomes no "listão" de aprovados.É tradição as famílias pendurarem faixas personalizadas na janela ou sacada da casa com o nome do filho aprovado e o curso. Entrar na universidade e participar de tudo que ela proporciona é uma honra para as famílias e um ritual almejado pelos jovens. Geralmente depois do primeiro ou segundo ano da faculdade, começa o planejamento da festa de formatura, que envolve gastos para as famílias se orgulharem e pendurarem fotos do filho de beca no corredor da sala. Por isso, os cursos fazem festas universitárias em boates para pagar as festas de formatura. Toda sexta-feira e em muitos sábados, o calçadão de Santa Maria é inundado por jovens tentando vender convites de última hora. Eu passei por todos esses rituais, inclusive vendi ingressos para festas na Kiss. Foi exatamente assim a festa "Agromerados", que acabou com a vida de 242 jovens e deixou feridas graves em tantos outros.

Eu nunca fui muito ligada a tradições gaúchas, mas sair do Rio Grande do Sul me deixou saudosista e há quem diga que sou bairrista -- o que nego. Mas o incêndio na Kiss despertou um bairrismo da cidade, não somente em mim, como em vários outros santa-marienses ou pessoas que já moraram lá. "Sou de Santa Maria, sim, e o drama da Kiss é meu, exijo respeito". Por esse e outros motivos que o drama de Santa Maria é muito meu. Como jornalista, cobri algumas tragédias, já fiquei muito tocada com mortes na Síria, o terremoto no Haiti, o tsunami no Japão ou a violação sistemática de direitos humanos na República Democrática do Congo. Só que continuava a uma distância segura que me impedia de sofrer junto e me permitia falar sobre com certo conforto. O incêndio na Kiss me deu uma rasteira, eu não consegui racionalizar ou articular o drama e vai ser, para sempre, uma ferida em mim. Porém uma ferida que me fez ver tragédias com um enquadramento mais sensível. Não só tragédias, como indivíduos. Depois do incêndio em Santa Maria, a dor do outro me atinge muito mais. Empatia. Eu me esforço para ser gentil, ainda que não consiga muitas vezes e falhe tanto quanto qualquer outro ser humano. É que eu lembro como a falta de tato de muitos em relação a Santa Maria me machucou profundamente e tento não reproduzir essa insensibilidade. Passado um ano, queria que as pessoas se tornassem um pouco mais humanas também.