OPINIÃO

Há poucas certezas sobre o que acontece na vizinha Venezuela

26/02/2014 13:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

A crise na Venezuela está cada vez mais complexa. Enquanto o número de mortes aumenta - o atual saldo é de 14 mortos - aumenta também a polarização e a troca de acusações, inclusive a respeito da cobertura da imprensa.

Na semana passada, o programa Entre Aspas da Globonews fez um debate sobre a Venezuela com dois professores de relações internacionais com visões diferentes a respeito do tema. Um deles, Igor Fuser, defendeu a democracia venezuelana, enquanto o outro, José Augusto Guilhon Albuquerque, afirmou que democracia não é apenas Constituição - sublinhando que o ex-presidente venezuelano Hugo Chávez a transformou diversas vezes - mas também o tratamento dado à oposição. No final do programa, a impressão foi a de que venceu o argumento contra o governo de Nicolás Maduro, mas também chamou a atenção a frase de Fuser: "nunca vi uma notícia positiva sobre a Venezuela na mídia brasileira".

Os dois lados têm argumentos válidos. A Venezuela chama mais atenção, por exemplo, por ser o terceiro país do mundo com a maior taxa de criminalidade e menos por ter erradicado o analfabetismo. Diga-se de passagem que o Brasil amarga a oitava posição entre os países com maior número de adultos analfabetos. Por aqui, é mais fácil achar notícias sobre as manifestações da oposição na Venezuela do que as chavistas.

A impressão generalizada é a de que a Venezuela é um país dividido entre opositores e chavistas, tanto pelas notícias quanto pelas redes sociais. No Twitter, há um embate entre os dois lados, que provocam uns aos outros com as hashtags #TROPA (governista) versus #ResistenciaVzla (opositor).

A galeria abaixo como os venezuelanos estão incluindo em seu Instagram sua visão política - sempre sob o filtro da polarização.

O Instagram dos venezuelanos antes e depois dos protestos

Só que se o destaque à oposição acontece na "imprensa tradicional", o exagero também acontece do outro lado. Na semana passada, a revista Fórum publicou uma tradução de um texto da Global Research sobre a encenação de protestos na Venezuela, dizendo que a "imprensa-empresa" manipulava a cobertura do assunto usando fotos de outros países para "mostrar" a repressão chavista contra os manifestantes. A matéria teve 29.000 compartilhamentos, mas os "veículos" citados foram "Ya Tuitea Cuba", "Dollar Today" e usuários do Twitter. O único "grande veículo" que publicou uma foto errada foi a produtora da sucursal mexicana da CNN, Krupskaia Alís, que também esclareceu o erro na sua conta pessoal do Twitter.

Um tweet reclamando que a imprensa brasileira não estava noticiando os horrores da Venezuela motivou a criação do tumblr Acorda Venezuela. "Estima-se que 12 milhões de pessoas já morreram na Primavera Venezuelana. As imagens não mentem", é a descrição irônica do tumblr. O deboche da histeria a respeito da cobertura da imprensa mostra como as redes sociais também forçam a barra.

O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, que não é nenhum Chávez em termos de carisma e adoração popular, diz que os protestos fazem parte de uma tentativa, apoiada pelos Estados Unidos, de golpe de estado. Leopoldo López, um dos principais líderes da oposição, convocou uma série de protestos e pediu a renúncia de Maduro, que nem completou um ano como presidente eleito. Henrique Capriles, outro líder de oposição que concorreu a presidência em 2013, distanciou-se de López e disse em entrevista ao G1 que a saída de Maduro não resolveria os problemas da Venezuela.

Resumindo, o único fato seguro para se endossar sobre a Venezuela é que há interpretações forçadas de ambos os lados. Sim, o clássico "só sei que nada sei". O que se sabe mesmo sobre a Venezuela é que o país está passando por um momento de desestabilização com uma série de protestos de grande magnitude cobrando uma série de mudanças - desde segurança social até a derrubada do governo, passando, inclusive, pelo pedido do fim dos protestos.

Nota do editor

O assessor de direitos humanos da Anistia Internacional, Mauricio Santoro, tenta explicar como a Venezuela chegou à polarização (e ao caos) de hoje neste texto abaixo:

- Depois de Chávez, o dilúvio?

Lucas Pretti