OPINIÃO

Um problema chamado 'estilo de vida saudável'

Precisamos refletir sobre a nossa alimentação focada em frango e batata doce e em ingredientes por seu valor nutricional e não pelo prazer degustativo.

02/05/2017 12:50 -03 | Atualizado 02/05/2017 15:03 -03
Reprodução/Instagram
Articulista reflete sobre estilo de vida "saudável" que ressalta padrão físico em detrimento de prazer.

Qualquer pessoa no Brasil que possua alguma mídia social com certeza já esbarrou na hashtag #estilodevidasaudavel. Ela normalmente acompanha posts sobre dietas mirabolantes, pratos com salada e frango grelhado, selfies de academia ou de tênis de corrida; enfim, usem a imaginação.

Não consigo localizar historicamente quando esse fenômeno explodiu, mas ele sempre existiu, só que em contextos específicos. Disso a gente sabe, mas talvez desde que a hashtag tem tomado conta do Instagram, ajudando a popularizar figuras "fitness" de todos os tipos, a coisa perdeu o controle. Recentemente Rita Lobo se tornou o centro de uma "polêmica" quando se colocou publicamente contra atitudes obsessivas com relação ao que comemos, chamando atenção para a "medicalização" dos alimentos.

Não vou focar nela em si, ou em outras figuras públicas que de alguma forma se alimentam do #estilodevidasaudavel para manter uma carreira... (Boa metáfora!) Vou focar no fenômeno e no que ele tem feito e ainda pode fazer com a gente se as coisas não começarem a mudar.

Pro bem ou pro mal, a obsessão com o estilo de vida saudável -- leia-se com a manutenção do corpo dentro de um dado padrão físico -- tem mudado nossa relação com a alimentação e, por conta de figuras públicas e do poder do marketing e das mídias sociais, essa obsessão entrou no nosso cotidiano sutilmente e, se não nos cuidarmos, acabamos rodeados por esses discursos.

Vamos lá; não estou criticando quem pratica esportes ou qualquer tipo de exercício físico ou que se alimenta de forma "cautelosa" e etc. Muito menos estou aqui num pedestal de julgamento... Este texto é pra pensar, pra gente pensar junto e, talvez, começarmos a procurar um ponto de equilíbrio.

Como alguém que superou distúrbios alimentares durante a adolescência e ainda convive com resquícios do que viveu, eu acredito que essa obsessão nem sempre pesa pro lado bom do "saudável". Isso pode acontecer com todo mundo quando o tal estilo de vida aponta pra um único padrão específico de comportamento, de alimentação, de beleza etc.

Não acho que apostar numa alimentação extrema vá ter consequências boas pra ninguém, tanto o extremo do saudável quanto o extremo do "não-saudável". Não se trata de entupirmos nossas artérias com manteiga industrializada, injetarmos lactose nas veias, comermos pão e farinha branca ate explodirmos. Mas também não se trata de vivermos de frango grelhado e batata doce em todas as refeições ou, como a própria Rita Lobo colocou, comermos canela apenas pelo seu valor "termogênico" e não pelo prazer degustativo que essa especiaria tão valiosa pode nos dar.

Eu moro fora do Brasil há mais de cinco anos e no último ano tive a oportunidade de percorrer cerca de 15 países e posso dizer, sem a menor dúvida, que estamos vivendo uma complicada patologia alimentar. Ano passado fui a uma nutricionista no Brasil e ela me colocou a tal dieta restritiva que incluía muita batata doce e frango grelhado e que me proibia de comer frutas de todos os tipos. Frutas!! Eu nunca comi nada em excesso, mas excluir frutas do cardápio foi, pra mim, a gota d'água.

Eu fiz treino funcional quando passei férias e Natal com minha família ano passado, meu treinador é uma pessoa excepcional e não trabalha nessa linha dos extremos. Ele escuta, tem equilíbrio e mostra que o importante é encontrar um lugar que seja confortável pra você, que faça que o passar dos anos não tenha peso no seu corpo de forma negativa. Mas, mesmo assim, eu sofri muito durante as últimas semanas do treino, antes de ir embora.

Tirar medidas não é agradável, ter metas matemáticas não é agradável e, no final das contas, eu, que sempre fiz pilates porque foi onde encontrei prazer, aprendi mais do que nunca que minha praia não é a esteira, não é o frango com batata doce, não é o bolo sem farinha/glúten/leite/açúcar, mas é a yoga, que eu faço em casa todos os dias religiosamente sozinha... É não me forçar a olhar no espelho todos os dias pensando em medidas que ainda não foram atingidas. É comer uma fatia de bolo de fubá quando der vontade e nela passar manteiga Maringá quando der vontade.

A gente sabe, e existem milhares de profissionais excelentes que podem nos dar o devido suporte, que cada um tem seu limite. Que é muito difícil resistir à tentação de se autossabotar por ver que as roupas que você gosta e os padrões que são vendidos pra gente são feitos pra mulheres que não possuem seio algum, por exemplo, que a comida que, vez em quando, nos dá prazer tem um pouco de açúcar e até farinha, que às vezes batata frita é divina e, principalmente, que saber não é o mesmo que sentir.

A gente precisa parar. A gente precisa refletir. A gente precisa dar um tempo pra nós mesmos. A gente precisa se alimentar menos do feed do Instagram e mais do nosso próprio espelho. Eu reforço: não estou aqui pra criticar quem o faz consciente e feliz e que se conhece bem o suficiente pra se blindar e apenas se divertir com esses feeds "fits". Tampouco estou aqui pra ouvir aquele argumento infeliz do "não gosta, não segue". Não se trata disso e, se de tudo que falei essa foi sua conclusão, sugiro olhar ao redor e refletir um pouquinho mais.

Eu me coloco aqui em dúvida sobre aonde vamos se seguirmos assim. Me coloco no lugar de milhares de pessoas, em especial mulheres – por que o peso das medidas exatas cai com muito mais violência sobre a gente – que vivem na expectativa de que esse murmurinho "dietético" não vai continuar invadindo nossas conversas e nossa vida social de forma sorrateira. E me coloco na esperança de que, em algum momento, numa ruptura talvez difícil de lidar, a gente volte a pensar em comida de forma natural, equilibrada e, mais que tudo, prazerosa.

*Este artigo é de autoria de articulistas ou colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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