OPINIÃO

Quem vendeu a ideia de que ser mãe é escolher estar completa?

"O que não incomoda, porem, é você escolher não ter filhos e eu escolher tê-los e a gente apenas conviver com essas diferenças."

16/10/2017 08:50 -02
Images By Tang Ming Tung via Getty Images
Lembrando que tudo isso aí é construção cultural, mas quer ir mais longe?

Sentada num café numa região meio cosmopolita, meio cool, de Istambul, olhando ao meu redor e prestando bastante atenção, percebo que são poucas as mulheres jovens que não passam por mim com algum filho no colo.

No que parece um apego bem forte a tradições antigas, as turcas se casam "cedo" e ter filhos é mandatório, a ideia de escolha não é lá muito corriqueira por aqui. "Casar cedo", aqui, vem de uma perspectiva ocidental, que, hoje, encara uma pessoa na casa dos trinta como alguém jovem e nos limites socialmente aceitáveis do desprendimento de decisões mais perenes como casar-se ou ter filhos.

Dois dias atrás, li (mais) uma reportagem do jornal inglês The Guardian sobre maternidade e as escolhas da mulher contemporânea. Eu não quero "chover no molhado", mas acho que vale jogar algumas ideias aqui pra gente pensar junto, porque o tom da reportagem me incomodou e acho que incomodou muita gente.

Incomodou, porque, de novo, a reportagem precisa elencar as mil e uma vantagens de não se ter filhos, que vão desde a liberdade financeira ao desprendimento afetivo. O curioso é que raras vezes, alias, eu nunca vi um texto sobre o tema que falasse, por exemplo, no problema de superpopulação que esta levando a gente a beira de uma crise ambiental sem retorno. Mas, claro, ninguém vê problema ambiental quando sua casa não é invadida por aguas torrenciais, ou uma seca anormal, ou o cheiro forte do lixo acumulado e não tratado... É aquela velha historia, né: "só vou ter um filho, o planeta não vai nem sentir". E, por favor, se vier com aquele papo infantil de "eu tenho quantos filhos quiser porque posso bancar, o problema é quem não tem grana pra isso.", pare de ler este texto aqui. Obrigada.

Incomodou também porque a voz da autora é uma voz irritada, de quem esta de saco cheio, de quem esta cansada de se justificar, de quem precisa, de novo, mais uma vez, explicar pra uma sociedade chata e apegada a valores retrógados, que ter filhos é escolha e não lei. E incomodou mais ainda porque quem lê esse tipo de texto não lê querendo entender, lê querendo criticar, querendo rotular, e etc.

O que não incomoda, porem, é você escolher não ter filhos e eu escolher tê-los e a gente apenas conviver com essas diferenças. É você ter cuidado pra escutar quem não quer participar da cultura da maternidade e não julgar – sim, estamos falando da mãe, aquela que gera e aquela que adota, não tocamos no assunto paternidade. Ahh, não julgar... Chegamos no centro do problema. É difícil aceitar que quem não tem filhos também pode gostar de crianças, é mais difícil ainda não olhar com aqueles olhos cegos de quem ama condenar as escolhas alheias e diminuí-las, talvez por algum resquício de infelicidade, talvez por não ter tomado decisões de forma autentica? O problema se agrava quando essas falas que condenam viram coro e acabam perpetuando outros tipos de falas mais austeras, beirando a condenação, cedendo espaço para que gente de péssima índole se aproprie disso e transforme, por exemplo, em plataforma política.

Não é bacana ouvir "mas, porque? Se você não pode dá-se um jeito, mas você pode e não quer? Porque? Nossa!", é pesado, gente... Mas julgamento existe dos dois lados. Algumas das mulheres mais interessantes, cultas, divertidas e vividas que eu conheço não tem filhos e tem quem ainda as pergunte se elas se sentem incompletas. E também há algumas das mulheres mais interessantes, cultas, divertidas e vividas que conheço que escolheram a maternidade... Entendeu?

Uma coisa bastante complicada é essa tal ideia de "sentir-se completa". Porque a gente precisa engravidar e dar a luz pra se "completar"? Que ideia de completude é essa?Quem vendeu essa ideia e porque tanta, tanta gente comprou e continua comprando? Pensa nisso. Outra pergunta pra gente pensar: porque é super "natural" e inquestionável quando a gente diz que quer ter filhos e super "esquisito" ou "inaceitável" quando a gente diz que não quer tê-los? De onde vem a ideia de que maternidade é algo "natural"? E, por favor, não comece com as comparações entre a gente e os outros bichos que também habitam este planeta, com explicações mirabolantes de um pseudo-darwinismo aprendido no Google. A gente já esta bem crescido pra passar dessa fase e pensar nos problemas, de verdade.

Lembrando que tudo isso aí é construção cultural, mas quer ir mais longe? Bom, se ate alguns escritos sagrados ditam que as dores do parto são um tipo de castigo divino pelo pecado original, porque a gente insiste nessa penitência pregando uma ideia de maternidade que não é espontânea? Enquanto isso, adoção continua sendo um tabu...

E para aquele leitor que, outro dia, disse que meus textos são inconclusivos: deixo aqui mais uma in-conclusão pra você refletir. Não existe certo e errado, isso é lógico, mas existe o certo da escolha e o errado do julgar. E existe o lugar onde a gente se encaixa. Certo?

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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