OPINIÃO

Pagar contas

11/04/2016 16:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Jessica Peterson via Getty Images
Studio portrait of woman standing under chalk cloud

Outro dia, num dos eventos da campanha presidencial da Hillary Clinton, o entrevistador perguntou a Bill (Clinton) o que ele diria a si mesmo aos vinte anos de idade, se pudesse se dar algum conselho. Confissão despudorada: fiquei emocionada. Entre algumas coisas, ele disse que a nossa geração, que está entre seus vinte e trinta anos hoje, é uma das primeiras que conhecemos na historia (ocidental, etc., etc.) que pode levantar de manha e escolher o que quer fazer. Escolher.

Veja, a ideia de escolha que ele colocou é bastante contextual: classe media, estadunidense, nascido num período histórico e econômico X e Y. Mas ela também se encaixa em vários outros contextos, como o meu e, talvez, o seu. Eu sempre tive uma vida estruturada, se não por mim mesma, pelas "circunstancias" que levaram uma coisa a outra. Não foi nada estritamente planejado, mas teve muita disciplina.

Mas, e agora, recém doutora por uma universidade (top dez no mundo, fato), venho visitar a família e resolver pendências burocráticas, mas acabei esbarrando em pendências mais complicadas que visitar cartórios. O que fazer agora? As tais pendências, no final das contas, não são só profissionais, são existenciais. Pff, chatice, texto autoajuda? Não, talvez um texto me-ajuda. O texto ajuda, muito, demais; ele fala e cala o que, muitas vezes, a gente não consegue ver.

Normalmente eu escrevo sobre feminismos e coisas plásticas nesse espaço, mas esse texto aqui inclui isso e muito mais, não porque sou mulher e, portanto, incluo aqui algum discurso feminista, mas porque feminismo é lugar de teoria e prática, como todo e qualquer discurso. Então o dilema que se coloca é: as escolhas feitas, agora, tem que funcionar na prática. E por prática quero dizer "tem que pagar as contas", em bom português. As contas que já venho pagando, não com emprego fixo, mas com bolsas de pesquisa.

Nessas horas tudo parece problema e tudo parece solução. Soluções das mais bizarras - procurar outras nacionalidades, vender cremes, jogar o diploma e a carreira pro alto, etc. Às vezes aparece alguém, e esse alguém parece querer te jogar uma corda pra te puxar de onde você está. E se eu quiser segurar a corda e ir? Será que tem volta? Mas pra onde voltar se você já não pertence a nenhuma lugar, se ficou esparramada em dois continentes estranhos um ao outro? E se, depois de quase dez anos de vida programada, disciplinada, organizada, eu quiser ficar (alguns meses?) des-programada, desorganizada (metaforicamente) e sem disciplina, pelo menos sem essa disciplina tão acadêmica? E se eu for "criativa demais" pros moldes dessa carreira que só faz cercear o que eu penso-sou? Uma carreira de competição vazia, de pessoas minúsculas com egos monumentais, de gente apegada às corrupções institucionais... Mas é preciso pagar contas.

Talvez por isso(s) o discurso do Bill tenha sido tão forte. Porque eu faço parte dessa geração a quem se prometeu um infinito de escolhas, mas que não foi preparada pra isso. Um infinito é assustador, mais ainda é perceber que, nesse contexto, discurso nem sempre é prática, porque nos dar o direito de escolha não implica necessariamente em nos proporcionar os meios para seguir tal escolha. Eu vejo um sistema cultural, econômico, politico, etc, blablabla, entrando em completo e irreversível descompasso consigo mesmo.

E isso nos deixa, muitos de nós, encontrando nesse alguém a salvação de uma certa paralisia vivencial temporária, mas então eu pergunto: não pagar contas significa não viver? E como exatamente a gente se conforma - de "entrar nos conformes" - desse contexto em que dinheiro atrai dinheiro e tudo vira commodity no Instagram?

Olha, talvez, seilá, valha a pena se apegar a quem nos entende e passar, então, alguns meses em Montenegro*.

*Montenegro? Por que é "barato", bonito e cheio de história pra (gente) contar. Não, eu não sou rica e não posso embarcar amanha pra Montenegro. Mas o lugar da escolha (ainda) é livre, certo?

LEIA MAIS:

- As 'Suffragettes' de verdade ainda estão por aqui

- FIFA 16 terá mulheres em campo pela primeira vez

Também no HuffPost Brasil:

5 maneiras de cultivar a felicidade