OPINIÃO

O que acontece quando mulheres assumem a linha de frente na Guerra

13/12/2016 12:38 -02 | Atualizado 13/12/2016 12:38 -02

Há poucas semanas, a BBC 3, canal britânico famoso pelos documentários e pela abertura investigativa pra temas bastante variados, lançou seu mais novo documentário, o Stacey on the Frontline: Girls, Guns and ISIS ("Stacey na linha de frente: Garotas, Armas e o Estado Islâmico"), protagonizado pela também britânica Stacey Dooley.

O filme, de pouco mais de 40 minutos, documenta a rotina e o treino das mulheres Yazidi que lutam contra o Estado Islâmico, na região norte do Iraque. Parte do exército Peshmerga, de etnia curda, as mulheres são, na maioria, meninas entre 17 e 23 anos sobreviventes às invasões que o grupo extremista que incursou na região nos últimos dois anos. Os treinos acontecem em dois locais diferentes, um distante e o outro a poucos quilômetros da linha de frente e Stacey acompanhou as combatentes em diferentes etapas, ate a chegada na linha de frente, onde a luta acontece em tempo real.

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Stacey, uma britânica classe media da região de Sutton, nos arredores de Londres, se tornou famosa pelos trabalhos ditos de "alto risco", se colocando literalmente na linha de frente de vários contextos complicados: no combate às rotas de tráfico de drogas na Europa, Ásia e América Latina, na investigação dos femicídios em massa em Honduras (pouco tempo depois do assassinato da recém votada Miss Honduras), no combate ao tráfico sexual no Sudeste da Ásia, acompanhou as lutas de minorias LGBT e de trabalhadoras sexuais na Turquia e no Brasil, enfim... Stacey tem como marca registrada os depoimentos emocionados e um discurso de choque e incredulidade diante das situações que frequenta. Sem muito receio, a jornalista costuma rebater falas e se posicionar claramente em discussões acaloradas em frente às câmeras.

O que surpreende nesse novo documentário, é ver a jornalista colocada diante de uma situação de risco real, no fronte, onde a imprevisibilidade é a única lei. Pra muitos, seus posicionamentos são típicos de uma classe media britânica que tenta encaixar as distorções do que pensa ser a "realidade" no seu contexto de privilégios culturais e ate mesmo sociais. Mas dessa vez Stacey se despiu de alguns vícios antigos e conseguiu trazer pra gente, telespectador, um pouco da realidade visceral que as mulheres no fronte de batalha vivenciam.

Historias compartilhadas pelas meninas e suas comandantes se centram em depoimentos de (incontáveis) estupros, raptos e assassinatos de uma brutalidade que é difícil processar cognitivamente. Ha momentos em que algumas meninas se afastam por não conseguirem ouvir ou relembrar historias que estão sendo contadas por outras colegas em frente às câmeras. O documentário resgata um pouco da historia de algumas meninas, do passado que, embora não muito distante, parece pertencer a outra vida, com fotos, vídeos e lembranças de uma vida que não existe mais. Quando perguntada se sorriria ou seria feliz novamente, uma das combatentes, de 17 anos, afirma de imediato "não". Quebrando um padrão tosco que a mídia em geral costuma enfatizar ao retratar essas mulheres, que são os "cuidados com a aparência física" e a vida dita "feminina" dessas mulheres, o documentário extrapola esse filtro vazio e superficial e vai muito além.

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A força dessa "milícia feminina" reside não só na superação de traumas e no desejo de uma vingança étnica que, de uma forma cruel, as mantém de pé, mas também numa das muitas crenças esdrúxulas do grupo extremista: a de que, uma vez mortos pelas mãos de uma mulher, os soldados do Estado Islâmico não conseguirão ascender ao "paraíso". Assim, quando se preparam para ir à linha de frente, as combatentes se vestem da melhor forma sob seus uniformes, coletes e armas. Sua presença como mulheres por si só constitui uma grande ameaça aos entorpecidos extremistas, mas, acima de tudo, ao partirem pra batalha elas incorporam de forma literal tudo que o Estado Islâmico teme e, por consequência, tenta tirar das mulheres que eles transformam em escudo humano, escravas sexuais, vítimas de torturas inimagináveis.

A gente vive no cotidiano algumas pequenas amostras do que o medo do outro, do desconhecido pode fazer: ações conservadoras, sexismo, racismo, xenofobia, homofobia, são muitas as patologias sociais em que o medo se transfigura. Mas a historia dessas meninas, os depoimentos, o cuidado atrás do fuzil, a sede de retomar o que é delas, o que são elas, é como uma terapia de choque, um soco no estômago; é uma janela pro que de pior a realidade do medo pode fazer com a gente. Mas mesmo nesse lugar de sombra e terror, os sorrisos, a união em comunidade e a força conseguem fazer com que elas sigam em frente, num dia após o outro.

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