OPINIÃO

Menos texto, mais imagem? O desabafo de uma escritora.

28/01/2017 16:44 -02 | Atualizado 31/01/2017 18:21 -02
mdurinik via Getty Images
pencil on the paper, close up shot

Um dos motivos pelos quais eu tenho grande carinho pela minha contribuição para o blog do Huffington Post Brasil (já há mais de dois anos) está no fato de que minhas frases continuam sempre sendo minhas. Os editores, claro, fazem seu trabalho (muito bem) e aparam algumas arestas dentro da proposta de conteúdo do jornal e do blog, mas no mais minha voz continua sendo sempre minha.

Recentemente eu passei pela complicada e desagradável experiência de escrever para um canal nacional e ver meu trabalho ser picotado ao ponto de eu quase não me reconhecer mais. "Nossa, que reclamação de iniciante! Isso faz parte do trabalho do escritor freelancer", vocês podem dizer, e muita gente com décadas de experiência já me disse. Mas eu gostaria de usar a experiência pra jogar pra vocês, e pra mim, um pouco do que anda acontecendo com nossos canais de comunicação impressos, nossas publicações nacionais, nosso medo "midiático" de encarar o público.

Eu sou daqueles que gostam de um bom papel. Eu aprecio o texto impresso e aprecio o trabalho do editor e de todo mundo que quebra a cabeça pra colocar o conteúdo de forma a fazer sentido e nos dar prazer na hora de ler e folhear. Eu cheiro livros e compro revistas (ainda...). Como qualquer escritora, eu me realizo quando meus textos ganham vida por ai, seja na internet, seja no papel impresso. Mas como alguém que mora fora do Brasil ha muitos anos, não pude deixar de ver que nosso mercado editorial - das coisas impressas e virtuais - está morrendo. Não se trata de colocar a falência da revista impressa como consequência da revolução da internet, não! O Huffington Post e vários outros veículos estão aí pra mostrar que dá pra gente se alimentar dos dois.

O que eu percebo - e tanta gente muito mais qualificada que eu também percebe - é um preguiça mental, uma espécie de medo de encarar o texto bem escrito, de encarar a opinião bem fundada em troca de materiais rasos, de uma enxurrada de imagens, de tentativas sensacionalistas (sem humor!) de pregar os olhos do publico que já nem sabemos mais se podemos chamar de "leitor". O problema não está tanto na mudança de um texto que transforma a opinião do seu autor de positivo pra negativo (coisa grave), mas sobretudo nessa massificação do editorial, na pobreza de pensamento e na criatividade nula pra expressar e deixar o outro expressar uma experiência, um fato, uma visão de mundo.

Muitas revistas nacionais, especialmente as do nicho feminino, estão cada vez mais difíceis de se consumir. E eu acho que a palavra consumo encaixa direitinho nisso aqui: não consumimos mais ideias, arte, fotografia (de verdade) ou palavras. O que compramos, sem pestanejar, são imagens calculadas de editoriais superficiais que apenas nos ensinam que "necessitamos consumir" isso e aquilo, são palavras fracas e meio soltas, dissonantes, de quem escreve sem paixão, só pra preencher pauta, são reviews de livros escritos sem muito vestígio da leitura dos mesmos, são tags de preços sem muito contexto e sem nenhuma graça. As imagens estão repetitivas, os formatos também...

Eu não estou aqui pra "reclamar" de editoriais ou publicidade e etc., ao contrario, eu entendo como são fundamentais pra alimentar o trabalho que gera a publicação. O que me custa muito aceitar é a fraqueza dos textos em si, das ideias foscas, da dificuldade em dar voz pra quem tem vontade genuína de brincar com as palavras e que não consegue se ver num mundo cultural onde não exista mais a palavra impressa e as cores magicas de um editorial bem feito. Eu tenho profunda admiração por inúmeros profissionais e tenho amigos escritores que me relatam situações difíceis, mas que tentam, com força, mostrar pra várias publicações que você não precisa deixar o texto raso pra que ele tenha vasão, ao contrario, quanto maior o valor dado ao leitor, maior a sua fome de leitura e, por consequência, de consumo.

O consumo não precisa ser mal escrito, mal editado, feito às pressas, e muito menos mal pago. Ele pode ganhar mais e mais força com um texto entregue, de gente que tem fome de beleza e criatividade, que gosta de mexer com a língua (e que sabe fazê-lo bem) e que também aprecia boas imagens e uma leitura mais leve. Leveza não é o mesmo que superficialidade. Leveza é sentir prazer no que se lê, é consumir com desejo, sem vergonha e sem culpa.

Portanto, o que eu desejo a todos nós, que escrevemos e que lemos, que amamos o papel escrito e colorido, a notícia bem fundada e a experiência bem contada, é um 2017 com menos textos preguiçosos e mais vontade de fazer melhor. Eu gosto do trabalho pesado, do texto a ser lapidado e da conversa com o editor de conteúdo e espero que este ano nos dê mais oportunidades de sermos mais verdadeiros e menos "copia e cola" nos muitos editoriais que estão por vir.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representam as ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte dos blogueiros, entre em contato por meio de editor@brasilpost.com.br.

LEIA MAIS:

- Sobre Chimamanda Ngozi, feminismo e maquiagem

- De burkini ou topless as mulheres não são livres

Também no HuffPost Brasil:

Os 10 exércitos mais poderosos do mundo

ETC: