OPINIÃO

O feminismo sob os holofotes, mais uma vez

O que se discute numa roda de leitura feminista está a quilômetros de distância da realidade de quem sofre discriminação.

05/03/2017 06:23 BRT | Atualizado 06/03/2017 22:52 BRT
Akintunde Akinleye / Reuters
Colunista concorda com vários argumentos do ícone feminista Chimamanda Ngozi Adichie.

Ano passado eu fui entrevistada por uma TV local no Brasil e fui questionada, por conta do meu trabalho acadêmico com gênero e a crítica feminista, o que mudou depois que o feminismo "ganhou os holofotes", literalmente, com vozes como a da Emma Watson advogando pela causa e desfrutando de um papel porta-voz dentro da ONU Mulheres. Minha resposta: "não muito, mas bastante."

Confusa, eu sei. O que quis dizer foi que em termos de ações práticas e cotidianas e no desenvolvimento de políticas igualitárias, há muito a ser feito, e esse "muito" ainda reside nas mãos de uma minoria. Mas o debate se democratizou e ganhou outras caras, e hoje a gente pode ouvir sobre feminismo numa conversa de bar, na sala de aula do colégio, na clínica de estética da minha prima ou na última edição da revista de moda.

Mas vamos com calma e vamos recorrer a quem tem sido porta-voz, de fato, do tema: Chimamanda Adichie. A escritora nigeriana, que acaba de lançar Dear Ijeawele, or a Feminist Manifesto in Fifteen Suggestions (numa tradução livre "Querida Ijeawele, ou Um Manifesto Feminista em Quinze Sugestões"), em recente entrevista ao inglês The Guardian revelou algumas das complicações daquele desfile da Dior ano passado, dirigido por Maria Grazia Chiuri, que estampou camisetas com o dizer "Deveríamos todos ser feministas", frase cunhada por Adichie na sua famosa fala no TED transformada em manifesto.

Camisetas estas que têm sido protagonistas em especial no feed do Instagram de blogueiras e ativistas de plantão. Lembrando que nem todos conseguem ter acesso à peça por conta do seu valor comercial.

Stephen Voss

Adichie, que advoga em favor da quebra de estereótipos que questionam a seriedade de mulheres (especialmente intelectuais e ativistas) que também se interessam por moda e maquiagem, por exemplo (tema que discuti nesse post aqui) diz que o feminismo não tem nada de "hot" ("Sorry, feminism is not that hot"), termo que muitas envolvidas com o tema utilizam pra depreciar o trabalho da escritora por conta de suas ações no segmento da moda e da beleza.

Questionada constantemente sobre o uso do seu trabalho pela marca Dior como ferramenta de marketing que apenas deprecia as causas defendidas pelo movimento, Adichie afirma que se ela não usasse a palavra feminismo venderia muito mais livros do que vende hoje.

Estamos convivendo com uma polêmica bastante difícil de diluir no modo como o feminismo tem ganhado os holofotes nos últimos anos. Concordo com Adichie em vários termos; o primeiro deles de que deveríamos estar celebrando o fato de o movimento feminista ter ganhado mais e mais espaço fora dos pequenos círculos acadêmicos.

Sim, talvez não exista apelo maior em uma causa do que vê-la colocada em pauta de forma tão explícita! Muitas dessas discussões teóricas sobre o feminismo parecem ter um certo tipo de "condescendência", afirma Adichie, no modo como as coisas são pensadas.

A escritora diz, por exemplo, que quem muito discute e teoriza (bem coisa de acadêmico) sobre a pobreza, deveria, em algum momento, conviver com quem vive nessas circunstâncias todos os dias, e eu acrescento: quem muito debate sobre feminismo, compartilha frases de Gloria Steinem a JudithButler e bell hooks nos seus feeds nas redes sociais, deveria desligar as telas por algum tempo e experienciar, de fato, como funcionam as políticas de gênero na prática, seja como e onde for.

Foi o que fiz (ou tentei fazer) em Londres trabalhando para uma instituição dando suporte institucional e emocional a mulheres e meninas vitimas de violência domestica e sexual. O mesmo aconteceu nesses meus curtos dois meses no Cazaquistão, cujo tópico não vou entrar em detalhes aqui.

Claro que a gente não precisa atravessar meio mundo ou se embrenhar em causas só pra dizer "eu vi e fiz e posso falar sobre"; ao contrário, não se trata de provar algo para os outros, mas de provar/experimentar algo pra si mesma.

Se o trabalho em instituições específicas não cabe no que a gente quer ou na nossa agenda, existem muitas outras formas de se colocar em prática e experienciar realidades que muitas vezes não fazem parte da nossa.

Quando você faz a transição da teoria pra prática, e quando você acompanha o debate, há um pouquinho mais de tempo (eu ainda me sinto iniciante e não me sinto confortável em me atribuir o adjetivo "feminista" por achar que ainda tenho muito a aprender), não dá pra não sentir alguma inquietação nesse quesito.

Não dá pra fecharmos os olhos pra iniciativa privada e pessoal de quem abraça causas por estratégia de marketing: blogueiras e diversas marcas em diferentes áreas têm sido vorazes em abraçar diversas causas pra se manter relevante dentro do seu próprio campo de atuação.

Do feminismo ao consumo consciente (sustentabilidade), o politicamente engajado está em voga, não dá pra negar. O risco imposto por esse tipo de iniciativa é um esvaziamento do significado e da própria história dessas causas, transformando a difícil e lenta conquista de um público e de um apoio mais amplo num mero instrumento de venda e no alvo de piadas ainda mais estigmatizantes.

Como alguém que ainda frequenta certos círculos acadêmicos fechados, que há pouco tempo, cinco anos ou mais, ainda enfrentava nariz torcido de colegas acadêmicos (de todos os tipos) quando colocava o gênero como categoria de análise e que há pouco ouviu de uma amiga: "você foi tão esperta, começou a trabalhar com essas coisas [feminismo e etc.] há mais tempo e agora pode usar isso pra ganhar dinheiro", eu ainda espero a segunda parte acontecer e o nariz torcido parar de se contorcer.

Mas o maior impacto que eu senti foi ver que aquilo que se discute no conforto de um bar "onde nossas amigas se juntam pra nossa roda de leitura feminista" está milhares de quilômetros de distância da realidade de quem sofre discriminação de forma agressiva, verbal e cotidiana.

Pode ate soar ingênuo e óbvio, e eu concordo com Adichie, em algum momento de nossas vidas todas nós vamos sofrer algum tipo de investida, mas colocar o que se discute numa roda de leitura em prática pode ser quase impossível.

Adichie reforça que participar do desfile da Dior e deixar que Chiuri utilizasse sua frase na passarela não foi um ato de marketing como muitos acusaram. Seja no contexto em que estivermos, em algum momento sofreremos as consequências de vivermos sob políticas excludentes e agressivas, seja com relação a gênero, raça ou a questões ambientais.

Basta lembrarmos, por exemplo, que Chiuri é a primeira designer mulher a ocupar tal cargo na casa francesa em mais de 60 anos! Claro que os problemas que ela enfrentou não são os mesmo de Adichie, ou de uma mulher latina num país europeu, ou, enfim, sejamos criativos aqui. Mas a empatia e a solidariedade não deveriam ser discriminadas quando aquilo pelo qual lutamos é tão urgente e vital pra TODOS.

Talvez a roda de leitura feminista fosse mais eficaz se quando saíssemos dela pensássemos duas, três, dez vezes antes de usarmos estereótipos de gênero pra tentar agredir alguém; talvez a roda de leitura funcionasse melhor se a gente aprendesse a identificar um relacionamento abusivo logo nos estágios iniciais; se a gente não aderisse a padrões vazios como "eu não posso usar essa roupa porque sou baixa e tenho seios", ou se a gente perguntasse pra nossa colega consultora de moda o porquê de ela insistir em falar pra suas clientes que elas deveriam seguir esse e aquele padrão porque isso faz delas mais altas, menos redondas, etc.* Entendem?

E se quando nossos parceiros procurassem outras mulheres nós os questionássemos antes de acusarmos umas as outras? E se quando fôssemos abordadas por alguém que está em um relacionamento nos o confrontássemos se aquela "indiscrição" era algo compartilhado pelos dois parceiros ou se isso causaria sofrimento a uma terceira pessoa?**

Claro que tais exemplos são até um pouco superficiais se levarmos em conta a seriedade e a gravidade dos problemas que precisam ser direcionados, especialmente com relação a mulheres negras, ao que Adichie diz se sentir dividida pelo polêmico tópico do feminismo interseccional. Mas também precisamos admitir nosso lugar de privilégio, se nele estivermos, e não abusarmos da empatia a ponto de descaracterizá-la, o que nos levaria de volta ao tema da autopromoção.

Sim, o caminho é longo e as leituras ainda são muitas. Mas, acima de tudo, o que precisamos sempre é de uma pausa pra nos avaliarmos, nos questionarmos e olharmos ao nosso redor. E, mais do que isso, alguma consciência crítica pra que nossos feeds e nossa vontade fazer mudança não se transformem num antídoto contra uma causa que ainda sofre tanta resistência: resistência política, física e emocional.

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*Algumas desculpas que devo pedir: desculpem o exemplo da roda de leitura, mas foi algo que observei recentemente e que me deu calafrios por ver que as ideias simplesmente não circulavam e funcionavam mais como momentos para fotos no Instagram. Desculpem também as consultoras de moda, mas eu observei isso no trabalho de uma pessoa e também me causa algum desconforto.

**Meus questionamentos se baseiam em experiências pessoais, por isso optei por não incluir toda a variedade de discursos de gênero que cabem aí.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.

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