OPINIÃO

As 'Suffragettes' de verdade ainda estão por aqui

27/10/2015 11:59 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Kheel Center, Cornell University/Flickr
Title: Women surrounded by posters in English and Yiddish supporting Franklin D. Roosevelt, Herbert H. Lehman, and the American Labor Party teach other women how to vote, 1935 Date: 1935 Estimated Photographer: Unknown Photo ID: 5780PB18F6L Collection: International Ladies Garment Workers Union Photographs (1885-1985) Repository: The Kheel Center for Labor-Management Documentation and Archives in the ILR School at Cornell University is the Catherwood Library unit that collects, preserves, and makes accessible special collections documenting the history of the workplace and labor relations. www.ilr.cornell.edu/library/kheel Notes: No additional information available. Copyright: The copyright status of this image is unknown. It may also be subject to third party rights of privacy or publicity. Images are being made available for purposes of private study, scholarship, and research. The Kheel Center would like to learn more about this image and hear from any copyright owners who are not properly identified so that we may make the necessary corrections. Tags: Kheel Center for Labor-Management Documentation and Archives,Cornell University Library,Political Action, Voting, Women, Jewish Americans, Placards

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No começo deste mês, aconteceu a première do tão esperado Suffragette, filme sobre o movimento das mulheres no final do século XIX e início do século XX na Inglaterra (e também nos Estados Unidos) que lutavam por direitos, especialmente pelo direito ao voto, que implica(va) na tomada de voz política com obvias implicações em outras esferas sociais.

O filme, dirigido por Sarah Gavron e escrito por Abi Morgan, traz um elenco de peso para representar figuras históricas como Edith Ellyn, representada por Helena Bonham-Carter, e Emmeline Pankhurst que aparece (em poucas cenas) na figura de Meryl Streep.

Construído por uma equipe quase que exclusivamente feminina, o filme discute e nos (re)apresenta a historia do movimento sufragista, que não se deu como algo conciso e local, mas como uma série de protestos, greves e movimentações sociais (panfletagem camuflada e explícita, etc.) reivindicando direito de voto as mulheres. Curiosamente, para o melhor, acredito, o tapete vermelho em Leicester Square (Londres) foi tomado por um grupo de ativistas do grupo Sisters Uncut que foram, em bom vernáculo, 'jogar na mesa' um problema seríssimo e pouco debatido no momento por aqui: os cortes (melhor dizendo, rombos orçamentais) nos departamentos que prestam serviços as mulheres - tais quais auxilio moradia, benefícios e especialmente auxilio legal - o maior impacto dos cortes recai sobre as áreas que combatem a violência domestica.

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Alguns cartazes estampavam, entre outras coisas, 'Dead women can't vote' ['Mulheres mortas não podem votar'] uma referência clara ao filme e ao grande impacto que os cortes terão sobre a vida das mulheres. E isso é apenas um dos reflexos desse período de austeridade. As atrizes se colocaram à favor da manifestação no momento, em especial, Bonham-Carter, que disse ter ficado contente com a reação, "uma mostra clara de que as suffragettes ainda estão por aqui e a prova de que o filme veio com força para deixar uma mensagem".

Mas qual mensagem?

Sem ter visto o filme talvez não seja exagero dizer que as coisas mudaram, mas como realçou Meryl Streep na coletiva de imprensa, estamos avançando de baixo pra cima. "Mas lá em cima, nos cargos decisivos e de grande repercussão política e "ideológica", ainda somos a esmagadora minoria".

Meryl continuou afirmando que "enquanto estivermos num contexto em que se, num conselho, 20 pessoas sentadas numa mesa não olharem ao redor e estranharem o fato de apenas 5 delas serem mulheres, ainda teremos muito, muito que caminhar".

Carey Mulligan, uma das protagonistas, aproveitou para enfatizar o quanto a indústria minimiza, de forma torpe, o sexismo que a ronda, já que ainda são raras as mulheres atrás das câmeras ou em papeis que não sejam caricatos ou estereotipados.

Tanto Gavron, quanto Morgan e Mulligan, todas britânicas, se disseram chocadas ao perceberem que tudo que já haviam lido sobre o movimento sufragista havia sido num parágrafo, no estilo nota de rodapé, dos livros de historia. Para o filme, a equipe contou com uma enorme lista de colaboradores acadêmicos que ajudaram a tirar da sombra a historia das mulheres envolvidas no movimento e do movimento em si.

Essa realidade infelizmente revela o quanto nosso sistema educacional, como um todo, ainda insiste em contar os fatos históricos sob uma perspectiva obtusa e uníssona, que se recusa a incorporar os outros sujeitos tão ou mais fundamentais pra construção de tantas narrativas. O mesmo vale pra outras esferas, não só pra mulheres!

Claro, obvio, evidente que ainda temos muito, muito que caminhar. Mas nunca, jamais podemos esquecer que esse caminho que traçamos ou queremos traçar nada mais é que continuar o que tantas e tantas figuras começaram a delinear lá, lá atrás. Eu sempre serei entusiasta da arte que nos faz lembrar, que nos faz refrescar a memória, especialmente a coletiva, que tem um prazo de validade estupidamente curto.

*O filme estreou no dia 23 de outubro de 2015 nos Estados Unidos e ainda não tem data certa para estrear no Brasil.

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