OPINIÃO

Perplexidade, paradoxo e palpite

13/04/2015 12:30 -03 | Atualizado 30/01/2017 18:07 -02
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Brazilian President Dilma Rousseff (L) and former President Luiz Inacio Lula da Silva (R), attend the opening ceremony of the 14th National Meeting of the Workers Party (PT) in Sao Paulo, Brazil on May 2, 2014. AFP PHOTO / NELSON ALMEIDA (Photo credit should read NELSON ALMEIDA/AFP/Getty Images)

Existem no cenário politico do Brasil de hoje apenas duas certezas: uma, meramente fática, determinada no calendário: estão marcadas eleições presidenciais para outubro de 2018. A outra a percepção, compartilhada por uma rara unanimidade de brasileiros, de que há tensão no ar e que o País vive algo que cabe no conceito de crise.

Essas certezas são, porém, uma ilha, em um mar de perplexidade e dúvida. Alguma coisa, é certo, vai acontecer entre março de 2015 e outubro de 2018. Que exatamente acontecerá, ninguém sabe. Como já disse algum comentarista, quem disser que sabe, está mentindo. O leque de possibilidades é enorme: em um extremo, há quem ache, e até deseje, que a alegada crise será brasileiramente empurrada com a barriga e que nada de diferente ou inusitado sucederá; no extremo oposto, manifestos na Internet e faixas nas ruas, propugnam uma imediata intervenção militar. Como todos os extremos, tanto o golpe militar como seu oposto, o nada e pizza, tendem a ser improváveis. Mas não podem ser afastados como de todo impossíveis.

No meio termo, um leque enorme de possibilidades. Existe quem defenda o impeachment e quem recomende a renúncia de Dilma; do outro lado, radicais afirmam que está deflagrada uma verdadeira luta de classes e bradam por uma guinada violenta à esquerda. Chega-se até a cogitar, como hipótese plausível, de uma guerra civil ou um movimento sério de secessão.

De certo, apenas, a perplexidade e a inquietação.

No centro do cenário, um paradoxo político óbvio. Dilma Rousseff elegeu-se por uma pequena maioria. Sua margem de vantagem sobre o candidato da oposição, foi menor da que obteve na primeira eleição que, por sua vez, foi menor que na reeleição de Lula, que foi menor que na primeira eleição do líder petista. Não será errado dizer que quase metade dos brasileiros votou contra Dilma. Por sua vez, a maioria dos integrantes da metade que a reelegeu naturalmente referendou seu discurso. Dilma repetia sempre que eleger seu opositor significava apoiar medidas restritivas que afetariam negativamente os proclamados ganhos sociais, conquistados nos doze anos de governo petista.

Esse eleitorado certamente se decepcionou quando, ainda antes de tomar posse do seu segundo mandato, Dilma nomeou um Ministro da Fazenda, cujo discurso é substancialmente semelhante, quase idêntico, ao do economista que o outro anunciara que nomearia para o cargo. Não, há realmente, como negar que a presidente mostrou que pretendia adotar uma a política econômica pregada por seu opositor como uma afirmação dos erros cometidos por ela.

Com isso, aqueles que já eram contra Dilma continuaram na oposição; e os que eram a favor do governo passaram ser contra a algo que o governo sustenta ser essencial. Logo em seguida, veio a derrota do executivo na eleição para a presidência da Cãmara dos Deputados. Dilma tentou ampliar sua base parlamentar distribuindo cargos do primeiro escalão a um leque variado de pequenos partidos. Sinalizou ao PMDB uma posição menos relevante, na política de troca de cargos por apoio. E, de repente, viu o maior partido da chamada base aliada, senão passar para a oposição, mostrar claramente que não seria uma dócil agremiação que permitiria à presidente aprovar no Congresso qualquer proposta que fizesse.

Talvez sem saber exatamente que fazer Dilma, isolada, passou algum tempo em silêncio, como se esperasse a maré baixar.

A maré, entretanto, só fez subir. A cada dia, um novo fato se revelava na Operação Lava-Jato, mostrando, de forma incontestável, ter havido graves atos de corrupção na Petrobras, durante os governos do PT, e tornando crível a afirmação de que essa corrupção não resultava de ações isoladas de indivíduos, mas representava um esquema institucionalizado, organizado para sustentar um projeto de poder.

Premida pelas circunstâncias, a presidente foi procurar o apoio de seu conselheiro e mentor, responsável direto por sua candidatura, dono do carisma pessoal que a ela faltava. Encontraram-se Lula e Dilma em particular. Só eles mesmos sabem exatamente o que conversaram. Mas vazou para a imprensa que a conversa não teria sido totalmente amigável e que haveria divergências entre as opiniões dos dois líderes sobre a postura mais conveniente que o partido a que ambos pertencem devia adotar.

Sejam ou não verdadeiros esses vazamentos, o fato é que, pronunciamentos públicos de Dilma e de Lula parecem seguir linhas opostas. A atual presidente repete um discurso politicamente inatacável, embora não exatamente verdadeiro, talvez até insincero: a culpa das dificuldades econômicas atuais é da crise internacional e da escassez de chuvas, o governo não apoia nem se beneficia ou beneficiou da corrupção da Petrobras, que, ao contrário, vem apurando com rigor e quer ver punida. Já o ex-presidente, sem o fazer de forma inteiramente aberta, lembra às vezes o presidente da Venezuela, insinuando que a culpa das atuais dificuldades é das elites de direita e aproximando-se de ameaçar os supostos vilões golpistas com uma reação violenta de um exército paramilitar.

Tudo que foi dito até aqui são meros registros de fatos observados. É óbvio também que o futuros vai depender de como vierem a se desenvolver os processos políticos, econômicos e jurídicos atualmente em curso e de como serão respondidas algumas indagações em aberto: Dilma conseguirá aprovar no Congresso os ajustes sugeridos por Joaquim Levy, a inflação vai continuar subir, o desemprego a aumentar? Que outras revelações virão à tona nas investigações em curso sobre corrupção?

Ninguém sabe a resposta a essas perguntas. Opiniões e previsões racionais são impossíveis. Restam os palpites. E aqui vai um, tão válido quanto qualquer outro.

Está em curso não apenas um jogo, mas um torneio de diferentes e complexas partidas de xadrez.

Nesse torneio, um jogador se destaca especialmente, por sua conhecida habilidade, pelo modo arguto com que já se mostrou capaz de mexer as diversas peças sobre o tabuleiro. Pressinto que o ex-presidente Lula, cujo apetite pelo poder nunca se preocupou em ocultar, vislumbre no momento atual, como já vislumbrou em outros momentos, uma oportunidade a aproveitar. Há, para isso, um caminho simples: a impopularidade de Dilma cresce a cada dia, os sinais de recuperação da economia, se vierem, não virão a curto prazo, a tendência é que surjam, na Operação Lava-Jato, novas e rumorosas delações premiadas.

Com essas circunstâncias não será difícil a Lula propor a sua acuada companheira uma solução conciliatória: ela e Michel Temer renunciam, convoca-se uma nova eleição, que, com seu inegável carisma e seus argutos marqueteiros, Lula ainda poderá vencer.

É, repito, apenas um palpite. Quem viver, verá

O Brasil, nesse momento, parece entrar em um túnel, sem saber quão longo é e o que haverá do outro lado.

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