OPINIÃO

Soropositivo em 'Malhação': Para nós que vivemos com HIV, não é tão simples assim

05/01/2016 15:41 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Divulgação/TV Globo

Algumas semanas após o meu diagnóstico de HIV eu fiz uma cirurgia. Na recuperação, quando a enfermeira tirou o soro do meu braço espirrou no lençol um pouco de sangue. Assustado, eu limpei com algodão e pedi ao meu pai que o jogasse no lixo.

O tempo parou por um instante.

Não sabíamos o que fazer. Meu pai foi até a lixeira e a trouxe pra mim. Pedi que todos saíssem do quarto. Chorei muito.

À época nenhum de nós entendia que aquele sangue, seco, no chumaço de algodão, para uma pele intacta, não significava risco algum. E meu pai fez o melhor que pôde para me deixar confortável, não demonstrou nojo, nem nada. Provavelmente teria feito o mesmo com alguém soronegativo. Mas o estigma, em poucas semanas de diagnóstico, já estava instalado.

Sangrei um pouco mais.

Por isso, apesar das notas de repúdio de ativistas e instituições eu entendo o medo do personagem Henrique (vivido por Thales Cavalcanti), em Malhação - Seu Lugar no Mundo. Eu realmente entendo que depois de um acidente bobo ele tenha se assustado tanto com o sangue que viu.

Porque era o sangue dele. Um sangue HIV positivo. Não era um sangue qualquer.

O sangue muitas vezes é tomado como fator de unidade entre os seres humanos - "branco ou negro, o sangue é sempre vermelho", lembro de dizerem quando eu estava no colégio.

Para nós que vivemos com HIV não é tão simples assim.

Por isso não lancei nenhuma nota de repúdio à novela ou à emissora. Não o fiz pelo Projeto Boa Sorte e nem o farei por aqui. Ao invés disso, dou o benefício da dúvida.

No teatro aprendemos a dizer sim e construir a partir do que nos foi proposto ao invés de dizer não e acabar com a cena toda. Digo sim à proposta que Malhação lançou: uma médica (incompetente) receitou PEP (profilaxia pós-exposição ao HIV) em uma situação inadequada. E assim, espero terminarem os 28 dias de tratamento da personagem Luciana torcendo forte para que essa médica se retrate (redimindo a própria produção da novela).

Até lá, preferimos apenas elucidar alguns pontos sobre HIV e PEP na trama que você pode conferir nesse vídeo:

Para quem não conhecia, a Profilaxia Pós-Exposição é um recurso para evitar a infecção pelo HIV caso haja exposição seja ela sexual, em acidente de trabalho ou por violência.

O tratamento dura 28 dias e é feito com antirretrovirais similares aos do tratamento de quem é HIV positivo, o que significa alguns efeitos colaterais desagradáveis.

Por ser um medicamento, não deve ser usado de forma leviana. Há situações certas para usar a PEP e, geralmente, quando a fonte da exposição é uma Pessoa Vivendo com HIV Indetectável (em tratamento por tempo o suficiente para ter uma quantidade ínfima de HIV no sangue) ela não é usada.

Algumas guinadas na trama já apontam uma abordagem bem positiva (desculpem o trocadilho) do tema, apesar do equívoco inicial. O Henrique foi aceito por seus amigos de banda que até beberam da garrafa d'água dele em um gesto para provar que estavam junto!

Para quem quiser assistir a novela pode acessar o site do GShow e ver tudo online. Dá até pra caçar só as cenas do Henrique e da Luciana, interpretada pela Marina Moschen ou do Henrique com a Camila (Manuela Llerena), seu par romântico, para acompanhar de perto o desenvolver da história.

LEIA MAIS:

- É preciso lutar diariamente contra a discriminação de pessoas vivendo com HIV

-Orgulho e Preconceito: O paradoxo da vida com HIV

VEJA MAIS SOBRE HIV NO HUFFPOST BRASIL:

HIV: Nudez contra o Preconceito

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: