OPINIÃO

O machismo acabou com a minha vida sexual

Repulsa ao feminino, subjugação e até homofobia perpassam relações homoafetivas.

14/08/2017 22:22 -03 | Atualizado 14/08/2017 22:22 -03
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Ainda colocamos no rol do feminino os homens que têm como preferência a prática do sexo anal receptivo. Os que chamamos de passivos - ou, com ar zombeteiro, de passivas.

O rapaz estava de quatro na minha cama. Eu segurei firme na cintura dele e o penetrei. Ele fez uma cara de dor e com o braço tentou me empurrar. Instintivamente torci o braço dele e com a outra mão puxei seu cabelo. Ao pé de sua orelha perguntei "por que tá fugindo? Não era isso que você queria?".

Brochei.

Ou talvez nem tenha brochado. Talvez ainda tivesse uma ereção, quero dizer. Mas foi-se embora a vontade que eu tinha de transar com ele.

Ou não.

Para ser mais exato, foi embora a vontade que eu tinha de subjugar aquele homem gay passivo - de dominar aquele elemento feminino.

Ops! Esqueci de avisar: isto não é um conto erótico.

Sem dizer nada, eu me afastei. Pedi desculpas, perguntei se ele estava bem e ficamos trocando carinho e conversando até ele dormir e eu poder sorrateiramente pegar meu computador e escrever sobre ele aos sons de seus roncos.

A verdade é que o feminismo acabou com a minha vida sexual. Aliás... Olha aí esse instinto de macho novamente.

Corrijo-me: o machismo acabou com a minha vida sexual. O feminismo, na verdade, é o que poderia trazê-la de volta.

Talvez não seja tão óbvio assim para todos os homens gays. E, provavelmente, isso é parte da raiz do problema. Mas, frequentemente, ainda colocamos no rol do feminino os homens que têm como preferência a prática do sexo anal receptivo. Os que chamamos de passivos - ou, com ar zombeteiro, de passivas.

E como bons homens que somos (e fazemos questão de ser esses homens ainda que sejamos gays, fazemos questão de não sermos "menos homens"), temos repulsa ao que é feminino enquanto identidade. E relegamos a essas peças-chave da maioria das relações homoafetivas o caráter de objetos.

Objetificação. O processo através do qual retiramos de um indivíduo tudo que lhe é humano. E que notável (e bem relatado no vídeo abaixo) é que tentemos fazer isso justamente através da masculinização. Porque já é um consenso bem formado que tudo que é feminino é menos que o masculino, é menos humano, é complemento.

Puta. Putinha. Passiva. Vadia. Afeminada.

Por que o feminino ainda nos cria repulsa se, enquanto homens gays, ainda somos femininos demais para a sociedade? Independentemente de quão másculos tentemos ser na nossa expressão corporal, roupas, modo de falar, hobbies e profissões. Um rapaz já se apresentou para mim como "cabelereiro, mas não sou afeminado" - isso aconteceu de verdade!

Sempre seremos menos. Sempre seremos femininos. Mesmo que tentem nos enganar que não.

"Pode ser gay, desde que não dê pinta" é a maior mentira que a sociedade conta aos gays do século 21. E caímos nela, dia após dia, em pleno 2017. E cedemos à heteronormatização em nossos relacionamentos.

Se queremos ser ativos, o fazemos a partir do mantra "discreto, no sigilo e fora do meio". Rejeitamos os afeminados, queremos a masculinidade para ter o prazer de retirá-la do nosso parceiro através do sexo.

Ou então, se mesmo na cama queremos um homem másculo, fazemos isso acontecer a partir da violência. Lembram-se dos neonazistas gays que diziam que sexo entre homens tinha de ser sadomasoquista?

Agora, se sentimos mais prazer enquanto passivos, tadinhos de nós, temos de aturar cada macho escroto e ter muito peito pra dizer "não" - porque vamos ser forçados sim. Eu já fui jantar com um cara na casa dele e, de repente ele estava tirando a minha roupa, à força, enquanto a comida esfriava na cozinha. Tive de sentar com perninha de índio pra que ele parasse. E acho que até hoje ele não entendeu que o meu "não" era uma recusa e não um joguinho.

E nós que somos versáteis, vemos os dois lados. E se percebemos essa violência toda entranhada nas nossas relações, nos vemos, de repente, com a libido nas catacumbas da experiência humana. Trancada lá no fundo com várias outras bárbaries que ainda falhamos em combater.

Inclusive, há uma corrente forte de grandes homens gays que acredita que a versatilidade não existe. Isso porque se você não for 100% homem (ou 100% ativo), você é, automaticamente, não-homem, é feminino, é objeto. Vê como esse tema se recorre?

E parece que é preciso atingir a nossa virilidade (através do sexo, do nosso prazer) para percebermos a ironia: aceitamos (e queremos) que o homem desenvolva um papel feminino (quando nesse relacionamento), mas ainda somos muito "homens de verdade" na hora de torcer o nariz para uma mulher em posição de chefia.

Megera, vagabunda, mulher-macho!

(E, de repente, ser homem é ruim agora? Eu juro que não consigo acompanhar esse nosso machismo...)

Nenhum problema com a heterossexualidade - fique claro! O problema é a nossa visão de que heterossexualidade inclui violência, inclui a dominação do feminino por parte do masculino. É dessa heterossexualidade, dessa heteronormatização e desse machismo que precisamos nos livrar. De resto, tô nem aí se tá rolando homem com mulher, ou mulher com mulher, o que for.

Eu só queria mesmo entender: por que levar tanta violência para a cama? Por que tentar afirmar a nossa masculinidade através do que há de pior no senso comum?

E como não percebemos que para afirmar essas masculinidade (brutal), o feminino é peça fundamental? Procuramos primeiro a vítima e, só então, consumada a violência, nos tornamos agressores.

E cadê a vergonha na cara para encontrar outro jeito de nos sentirmos confortáveis e seguros com a nossa masculinidade? E com o que há de feminino em nós também?

E quando apreciaremos tudo que há de feminino e masculino em cada um independentemente de ser homem ou mulher, cis ou transgênero, hétero, gay ou bissexual, e quaisquer outras variedades?

Quando vamos entender o masculino e o feminino como opostos não-excludentes? (Um parêntese para fazer referência a Santaella, que foi quem eu primeiro vi usar esse termo) E quando vamos valorizar isso?

E entre esses questionamentos todos, eu brochei.

Ou talvez nem tenha brochado. Talvez eu ainda tivesse uma ereção, eu quis dizer. Porque é difícil demais admitir que meu falo possa falhar assim em pleno ato. Mas foi-se embora a vontade que eu tinha de transar.

Esse artigo não traz solução porque eu não tenho solução para trazer. Posso apenas afirmar: o machismo acabou com minha vida sexual. E é responsabilidade minha combater isso!

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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