OPINIÃO

Medicina da Gratidão

Bons hospitais, médicos e tecnologia biomédica são necessários, mas um acalento também é fundamental.

14/07/2017 12:59 -03 | Atualizado 14/07/2017 13:58 -03

Nas últimas 24 horas, passei por dois sofrimentos importantes. O primeiro, de ordem emocional, aconteceu às 2h30 da manhã e me levou a uma crise de choro. Ela durou duas horas e rendeu seis páginas de desabafo que ainda não estou preparado para compartilhar. Sobre esse, pude contar com o amparo da minha irmã e de duas amigas muito queridas em plena madrugada.

Acordei (atrasado, agitado e com sono) e fui correndo cuidar de uma ferida mais evidente, mas igualmente difícil de identificar. E, até o momento, tratar.

Quem acompanha meu canal viu o vídeo em que eu falo sobre uma lesão no lábio inferior que se recusa a sarar, apesar de já estar aqui há seis semanas. Já havíamos descartado sífilis, herpes e cogitamos ser apenas uma infecção. Quando gravei o vídeo, estava começando um tratamento com antibiótico que reduziu muito a lesão e desinchou os linfonodos do meu pescoço, que estavam para explodir.

Parecia que tudo ia ficar bem, mas a lesão se reduziu só até um ponto. A partir de então, começou uma fase crescente, cujo diagnóstico se esquivava de todos que consultei (e foram muitos).

Especificamente hoje, saí de casa cedo para buscar o resultado de uma biópsia. Só retornei para casa no final do dia com o seguinte saldo: quatro consultas presenciais com médicos em consultórios, duas consultas virtuais com médicos de confiança, um patologista em contato com os médicos que me atendiam, uma consulta informal nos corredores do hospital com uma médica com quem cruzei por acaso.

Dois pais preocupados (e muito carinhosos) ao WhatsApp, sete amigos preocupados (e muito carinhosos) ao WhatsApp, duas consultas com enfermeiras, uma coleta de sangue, duas injeções, um Gabriel com pavor de agulhas, três atendimentos com recepcionistas, uma retirada de medicamentos com o farmacêutico e um flerte na sala de espera. E, ao chegar em casa, os dois amigos que moram comigo tiraram boa parte de sua noite para que eu me sentisse melhor. Tudo isso num dia só!

Tudo isso para não chegar, ao final das contas, a uma conclusão definitiva sobre o que é que me acomete. Faço questão de ressaltar todo esse envolvimento (só de profissionais da saúde, foram mais de dez envolvidos) para chegar a um ponto em que gostaria de ser bem incisivo: acolhimento importa sim!

Ainda que "ativistas de verdade" critiquem o meu trabalho com foco no acolhimento e no carinho, sigo com a certeza de que amor, carinho e um atendimento acolhedor fazem toda a diferença.

Do ponto de vista imediatista, meu dia foi um fracasso. Ninguém chegou a uma conclusão definitiva sobre o que está acontecendo comigo. Muitos expressaram palpites e deduções e traçamos uma estratégia de enfrentamento baseada em todo o histórico que tive com essa lesão. Mas enquanto resolução, ainda estamos tateando no escuro.

E tá tudo bem!

No meio de todos esses procedimentos assustadores da nossa medicina ocidental (violenta pra caramba, convenhamos), eu pude contar com profissionais atenciosos que se mostraram preocupados comigo e isso fez toda a diferença.

Ainda não sabemos o que é, mas vamos descobrir e vai ficar tudo bem.

É claro que podemos discutir esse acolhimento e até que ponto ele será suficiente para suprir as ausências de um sistema de saúde trágico (tanto o público quanto o privado) com foco na doença e na medicamentalização.

Podemos sim. Mas somos muitos, justamente para tocar várias conversas ao mesmo tempo. Infelizmente, a saúde brasileira não sofre de apenas um o problema, tampouco é simples o desafio no enfrentamento da epidemia de HIV/aids.

Precisamos ser muitos e precisamos ser múltiplos. Precisamos nos unir na diversidade e nos apoiar.

E, além de todos os dedos que apontamos para fazer denúncias, precisamos também reconhecer os avanços e alívios que encontramos no dia a dia dessa luta.

Hoje é um desses dias em que agradeço. Agradeço pelas equipes da Clinícia Odontológica da USP, especialmente da Estomatologia. Agradeço pela equipe incrível do CRT-Santa Cruz. Agradeço ao meu infectologista Rico Vasconcellos, minha prima-dentista Renata Estrela, à família sempre perto e aos amigos que não se afastam nas doenças e nos sofrimentos.

Isso faz toda a diferença e é por isso que eu escolhi lutar. Que relatos como o desse meu dia possam ser cada vez mais frequentes e, claro, enxutos.

Precisamos de tecnologia (tanto biomédica, quanto de serviço) e precisamos também daquele acalento que, na doença, parece que vai fugir de nós.

Hoje ele não fugiu.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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