OPINIÃO

A cura não é a solução para o HIV

Começo assim já com o pé na porta, porque estou cansado de ver manchetes escandalosas sobre a cura do HIV estar tão próxima assim.

01/12/2017 12:21 -02 | Atualizado 01/12/2017 12:47 -02
Jim Young / Reuters
"Do estágio onde estão essas pesquisas até encontrarem um mecanismo para curar o HIV, levará ainda alguns bons anos."

Começo assim já com o pé na porta, porque estou cansado de ver manchetes escandalosas sobre a cura do HIV estar tão próxima assim.

Não que não esteja, se você considerar a história da humanidade, é claro, ou até mesmo se considerar os quase 40 anos de epidemia de Aids. Mas também não é algo que vai acontecer amanhã, nas próximas semanas, ou nos próximos dois, três anos.

Pesquisas científicas levam tempo. E por mais que seja incrível eliminar o HIV do corpo de animais ou em laboratório, as pessoas que se beneficiariam dessa cura não são animais, não são células soltas em uma placa de vidro no miscroscópio. Do estágio onde estão essas pesquisas até encontrarem um mecanismo para curar o HIV, levará ainda alguns bons anos.

Se não vencermos o preconceito, se não vencermos os impedimentos de acesso à saúde, se não vencermos a desinformação...

E veja que usei a expressão "mecanismo para curar o HIV" porque descobrir a ciência por trás da eliminação do HIV está muito longe de entender a matemática para produzir isso em larga escala e vencer barreiras sociais para promover a distribuição dele para centenas de milhares de pessoas que vivem com HIV (mais de 800 mil só no Brasil).

Isso sem falar nas possibilidades de capitalizar em cima disso. Esse sensacionalismo em cima de possíveis sucessos científicos agrega cada vez mais valor ao preço de algo que não tem nada no mundo que pague, que é direito e não mercadoria: a saúde.

A cura não é a solução.

Ela é uma peça que falta em um quebra cabeça que tem muitas outras peças faltando.

Se não vencermos o preconceito, se não vencermos os impedimentos de acesso à saúde, se não vencermos a desinformação, a censura e as barreiras à educação; não venceremos o HIV, o estigma que a Aids deixou, nem a epidemia que abalou o globo.

Se o HIV foi esse terremoto, a cura só o fará cessar, mas não vai reconstruir as estruturas frágeis de uma sociedade cheia de preconceitos e desigualdades. É preciso desenhar uma nova arquitetura, uma nova tentativa de resistir aos tremores que a vida, naturalmente, traz dia após dia.

Eliminar esses preconceitos pode facilitar o acesso à saúde e pode sim mudar o mundo - não só para quem vive com HIV.

Passado o HIV, a população negra e periférica ainda terá acesso reduzido à saúde, mulheres ainda sofrerão violência obstétrica, gays ainda serão vistos como promíscuos e as lésbicas como pessoas que não fazem sexo, os bissexuais continuarão como se não existindo e travestis e transexuais seguirão vítimas de mortes crueis por todo o brasil. Os jovens continuarão sendo taxados de irresponsáveis e nunca vão ter o apoio necessário da geração anterior para propor mudanças e transformarem (para melhor) a forma como nos organizamos em sociedade.

Curar o HIV não mudará nada disso.

Mas mudar tudo isso pode acabar com o estigma da Aids, pode promover diagnósticos precoces e garantir tratamento eficaz para todos que vivem com o vírus. Eliminar esses preconceitos pode facilitar o acesso à saúde e pode sim mudar o mundo - não só para quem vive com HIV.

Da esquina onde o HIV se encontra, entre o sexo e a morte, tantas questões importantes para a nossa sociedade podem ser discutidas. E devem.

Não me entendam mal, no entanto. Eu quero sim a cura do HIV e vou ficar muito feliz quando isso acontecer. Mas eu sei que curar o HIV não significa garantir saúde, assim como viver com esse vírus não significa viver doente.

Eu não quero a cura do HIV, apenas.

Eu quero saúde.

Plena.

ETC:Vozes