OPINIÃO

Para estrangeiros, vexame é não protestar

15/05/2014 10:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:36 -02
Estadão Conteúdo

A menos de um mês para o início da Copa do Mundo, leio cada vez mais artigos publicados no Brasil condenando de antemão todo e qualquer protesto que possa surgir contra o evento antes e durante os "dias de festa". Parece haver uma espécie de rede de contenção preventiva partindo de todos os lados, dos veículos mais e menos conservadores, dos partidos e movimentos mais e menos conservadores (ainda que no Brasil este rótulo seja intrinsecamente disfuncional). Todos em um mesmo sentido: protestos durante a Copa fariam o país passar vergonha. Um vexame diante dos olhos internacionais.

Pois a impressão que se tem de fora do Brasil, ou pelo menos a partir da Europa, é que o vexame já foi feito há muito tempo, quando políticos propuseram sediar a Copa do Mundo -- uma peça de propaganda estatal que custaria mais do que qualquer um pudesse imaginar. A partir dos artigos e debates veiculados pela imprensa europeia, assim como nas conversas informais que tenho por aqui, o que se depreende é que, para uma parte do olhar estrangeiro, o maior vexame do brasileiro é o contrário: a passividade com que aceitou e está aceitando a realização da Copa do Mundo. Protestar, no dicionário de boa parte dos países da Europa, não é um palavrão. E, em alguns casos, como este da Copa do Mundo no Brasil, se torna uma obrigação.

É falsa a tese de que o povo deveria ter protestado "lá no início, agora não vale mais", exaustivamente repetida pela tal "rede de contenção de protestos". Não existe prazo de validade para se indignar. É até bastante compreensível que a maior parte da população brasileira não tenha se dado conta, lá em 2007, da barca furada em que estávamos entrando. Não se espera da população uma especialização em gestão e finanças para avaliar um negócio. Espera-se ter um governo decente que saiba fazer isso. E quando ele não faz, espera-se que haja uma imprensa e partidos de oposição para denunciá-lo. Foi uma omissão generalizada em meio ao mar ufanista do governo Lula.

A população demorou, mas começou a ligar os pontos dessa matemática que acabou fazendo a Copa do Mundo do Brasil custar o valor da Copa da Alemanha e da África do Sul somadas. Sim, trata-se de um escândalo de enormes proporções, que o Brasil parece estar sendo incapaz de enxergar de uma maneira mais nítida, mas que aqui entre os gringos claramente justifica que a população saia às ruas durante a Copa (aliás, alguns alemães mesmo já começaram a fazer isso por nós). A Copa do Brasil não só custará o valor das últimas duas somadas, como todo esse gasto foi feito às escuras. Em junho de 2011, o congresso determinou que a Lei de Licitações não valia para as obras da Copa. E não vai valer para as Olimpíadas. Ou seja, os mecanismos de controle que a lei permitia desapareceram e abriu-se a porteira. Nenhuma democracia séria poderia aceitar isso.

A reforma do Estádio Mané Garrincha custou cerca de R$ 1,5 bilhão, provavelmente a reforma mais cara da história, em um caso escandaloso de superfaturamento. A grana desaparecida deve chegar aos R$ 431 milhões, segundo o Tribunal de Contas de Brasília. A Fifa e o governo garantem que o retorno financeiro do evento vai cobrir todos os gastos. Não é exatamente o que se viu na Coreia e no Japão e mesmo na África do Sul. O real legado das Copas ainda é um grande debate, como mostra este artigo do Guardian. Ninguém está convencido.

Tente explicar para um gringo que em um país que vai gastar R$ 30 bilhões com uma Copa do Mundo, 50% das casas não têm esgoto , 90% das estradas não tem asfalto e o índice de assassinatos é o maior do mundo em números absolutos. E que o investimento do governo nestas três áreas básicas é baixo e, em alguns casos, como a segurança e saneamento, vem sendo reduzido.

Que os brasileiros não se preocupem: diante dos olhares do mundo, vexame é aceitarmos isso tudo sem protestar. A Copa pode nos redimir dessa vergonhosa passividade histórica. Que a polícia faça o seu papel de dar umas bordoadas em quem passar do limite. Mas um cartaz e um nariz de palhaço em frente a cada estádio e diante de cada câmera internacional não nos diminuirão em nada, pelo contrário.