OPINIÃO

O tweet de Richard Dawkins sobre o aborto já é uma realidade

25/08/2014 18:20 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:53 -02
Getty Images
ANTWERP, BELGIUM - APRIL 29: British author Richard Dawkins attends his Honourary Doctorate ceremony at the Antwerp University on April 29, 2009 in Antwerp, Belgium. (Photo by Mark Renders/Getty Images)

Causa espanto que a declaração de Richard Dawkins defendendo o aborto de bebês com síndrome de Down tenha impressionado tanta gente, na semana passada. Não porque a posição de Dawkins não seja discutível, mas porque essa já é uma ampla realidade na Europa há muitos anos.

Na França, cerca de 96% dos fetos identificados com potencial para ter a trissomia do cromossoma 21 (nome oficial desse distúrbio genético) são legalmente abortados. Essa taxa vem aumentando desde 1975, quando o aborto foi legalizado na França, mas deu o seu maior salto nos anos 90, com a modernização das técnicas de identificação.

Anualmente, o teste é proposto às 800.000 gestantes francesas. 85% delas aceitam fazer. Resultado: quase não nascem mais bebês com deficiência. Para ser mais preciso, nascem cerca de 500 por ano (dados da Haut Autorité de Santé, Comité Consultatif National d'Ethique e do Institut de Veille Sanitaire).

O Brasil há anos acompanha o trabalho que o ex-jogador Romário, hoje deputado, faz em torno da conscientização dos direitos dos portadores da síndrome de Down, como sua filha Ivy. No início deste ano, o falecido candidato à presidência Eduardo Campos comunicou que seu filho Miguel nasceu com Síndrome de Down. Ao que tudo indica, havia inclusive um pré-diagnóstico de que a criança portaria a síndrome. Quer dizer, é raro, no Brasil, não conhecermos alguém - que seja o parente de um parente de um amigo - que não tenha na família um indivíduo com a síndrome de Down. Faz quase parte do nosso cotidiano.

Na Europa, ao contrário, é raro ver pessoas com Down ou outras deficiências pelas ruas. A resposta pode estar nestas estatísticas de aborto, que impressionam, mas são pouco divulgadas - daí talvez a comoção desinformada ao redor das declarações de Dawkins. O primeiro teste pré-natal da trisomia 21 foi realizado em 1968.

A situação não muda muito em outros países da Europa em que, a exemplo da França, o aborto é legal. Cada vez mais evolui o que se convencionou chamar de ortogenia, a ação dirigida a evitar o nascimento de seres-humanos com deficiências. Existem centros de ortogenia legais na França desde os anos 60. Os críticos da ortogenia fazem questão de destacar a semelhança inclusive sonora com o termo eugenia, que nos remete facilmente à eugenia nazista, os esforços em busca de "purificar" e "melhorar" a raça empreendidos pelo Terceiro Reich. Como acontece com frequência na história, o sinal ideológico dessa matemática foi invertido: hoje a ortogenia é considerada uma aliada da causa militante abortista, bandeira da esquerda francesa.

"Por que ainda restam 4%?"

Em maio de 2009, pela ocasião de um reexame da lei de bioética, o Conselho de Estado Francês - um órgão que examina a constitucionalidade das leis - acabou indo nessa direção, ao afirmar que as estatísticas francesas revelam "uma prática individual de eliminação quase sistemática" de fetos com trissomia 21 e definiu que o eugenismo não é uma prática que pode ser levada a cabo unicamente pelo Estado, mas pode ser também "resultado coletivo de uma soma de decisões individuais convergentes e tomadas pelos pais".

Diante disso, o Congresso Nacional tentou aprovar uma lei que reforçasse as orientações e o acompanhamento psicológico das mães antes de tomar a decisão de abortar. O projeto foi barrado pelo Partido Socialista do presidente François Hollande e o debate em plenário foi coroado com uma pérola do deputado socialista Olivier Dussopt: "Quando eu escuto que 96% dos casos de trissomia 21 terminam em interrupção da gravidez, eu fico me perguntando porque ainda restam os 4%". Dawkins, pelo visto, tem seguidores a sua altura no quesito "sensibilidade com as palavras".

O intrincado debate ético sobre esta questão mostra como a oposição ao aborto pode transcender em muito meros dogmas religiosos - existem sim ateus que não estão convencidos da correção da prática do ponto de vista ético, embora seja mais conveniente para intelectuais como o Sr. Dawkins combater um inimigo religioso, "irracional".

Do ponto de vista filosófico, que uma sociedade decida banir de seu seio tudo o que esta sociedade considera fora dos padrões, é uma ideia discutível. Anne Evrard, presidente de uma associação que acompanha pais de deficientes em Lyon, faz perguntas que dão pano para manga: "Será que queremos realmente identificar 100% dos deficientes antes que nasçam? Queremos mais ou menos portadores do trissomia 21? Será que vivemos em uma sociedade que aceita a diferença?".

A questão que parece se impor é se os europeus - já naturalmente desacostumados a conviver com as diferenças - estão se tornando pessoas mais ou menos tolerantes em uma sociedade que caminha para o completo banimento deste tipo de diferença representada pelos portadores da síndrome de Down.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.


Para saber mais rápido ainda, clique aqui.

MAIS MUNDO NO BRASIL POST:

A vida das mulheres na Índia