OPINIÃO

A Europa pobre, rica, gay e racista

08/02/2014 13:26 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Por puro acaso, escrevo este primeiro texto para o Brasil Post durante uma passagem pela Itália. Mais especificamente, pelo norte. Região de Piemonte, perto dos Alpes. Neva há cinco dias sem parar e fica difícil dizer se a apatia geral e o vazio das ruas em uma capital de província, como Vercelli, se dá por causa das condições meteorológicas ou pela duradoura crise econômica e demográfica italiana, que há anos condena as cidades médias e pequenas a se tornarem asilos para idosos. No fim da tarde, Vercelli enche novamente, quando os trens chegam à estação trazendo os jovens que passam o dia trabalhando em Milão e Turim. Ou procurando emprego -- nada menos do que 41% dos jovens italianos estão desempregados.

Mapa da Europa com autocomplete do Google

Na última segunda-feira (27), o jovem pesquisador da Universidade do Michigan Randy Olson criou e twittou o mapa que você vê acima. É a Europa rotulada com a palavra mais associada a cada país no recurso "autocompletar" da busca do Google. Em sua maior parte, as buscas associam as nações a adjetivos óbvios, como "pobre" (Portugal, Sérvia) ou "rico" (Inglaterra, Alemanha). Pois a Itália é o único país para o qual sobrou um (des)honroso "racista". A França levou um "gay" , mas até aí nenhuma novidade (não reparem, eu vivo na França e adoro fazer bullying com os locais...).

Mas o "racista" da Itália me intrigou e me intriga já há algum tempo pelo seguinte: poucas populações do Ocidente emigraram tanto nos últimos dois séculos como os italianos. Foram cerca de 24 milhões de "gringos" (é assim que chamamos os italianos lá no Rio Grande do Sul) que deixaram um país empobrecido para tentar a vida no Novo Mundo ao longo de 100 anos. Só para o Brasil, foram 1,5 milhão. Você que está lendo este texto é, possivelmente, resultado desse movimento migratório, já que nada menos do que 30 milhões de brasileiros descendem de italianos.

A Itália é racista? Talvez não mais do que outros países, mas seu povo é famoso por não se constranger em declarar o seu racismo -- ao contrário do que acontece na França ou em outros países da Europa ou mesmo no Brasil, onde os preconceitos são mais disfarçados. Uma baixaria ocorrida no Congresso esta semana ilustra bem esse hábito italiano de não medir palavras: em uma discussão, um deputado acusou as mulheres do partido adversário (PD) de se promoverem fazendo muito sexo oral -- claro que ele usou o termo vulgar para dizer isso. Apenas uma quarta-feira normal "alla Camera".

Por aqui, basta baixar um "aperol spritz" (belo drink) em uma mesa de bar para logo ouvir alguém -- principalmente os velhos -- descer a lenha em africanos, árabes, ciganos ou mesmo nos italianos do sul (por sua vez considerados uma mistura de negro, árabe e cigano, logo, uma espécie de suco concentrado de desprezo). Não é por acaso, portanto, que o maior foco de racismo na Itália seja a região norte -- aqui onde estou, sob neve, tédio e panissa (esta deliciosa receita típica local mistura, acredite se quiser, arroz e feijão!). O famoso partido de extrema-direita Lega Nord toma a frente na luta contra o sul e os imigrantes em geral -- em seus sonhos, os integrantes do Lega passeiam pela Padânia, o país imaginário que corresponde ao norte da Itália.

A ironia é que os milhões de italianos que deixaram o país a partir da metade do século 19 -- no que ficou conhecido como a "diáspora italiana" -- eram, em grande parte.... do norte. No Rio Grande do Sul, por exemplo, a imensa maioria dos imigrantes veio do Vêneto, região da super turística e próspera Veneza. Os milhares que deixaram o Vêneto através do porto de Genova (também no norte) foram embora justamente pela grande "porca miséria" em que estava virada a região naquele período. Ou seja, pura emigração econômica, exatamente a mesma "modalidade" praticada pelos africanos que chegam à Itália via barcos clandestinos no Mediterrâneo todos os dias -- ou das três ciganas que pararam na última meia hora para me pedir uma moeda na terrazza de um café na Piazza Cavour, enquanto escrevo. Emigrar atrás de melhores condições de vida, algo tão antigo quanto o homem.

A história dá voltas. Mas, em Padânia, a história da diáspora italiana -- em grande parte, a diáspora do Norte -- aparentemente é pouco contada nas escolas. É raro encontrar um italiano, seja jovem ou velho, que tenha ideia da dimensão desse processo ou que saiba da motivação econômica que houve por trás dele. Muito menos da quantidade de brasileiros que descendem de italianos. Impossível não imaginar uma postura diferente dos italianos do norte em relação ao tema imigração se essa história (a sua própria história!) fosse objeto de debate e pesquisa cotidianos.

2014 começou colocando a imigração na pauta da Europa mais do que nunca. Desde o último dia primeiro de janeiro, todos os búlgaros e romenos estão autorizados a viver e trabalhar legalmente na Europa ocidental -- milhares são esperados para aportar "de mala e cuia" na Inglaterra. Há gente apavorada -- sem razão -- e gente vendo nisso uma oportunidade. Mas isso é assunto para um próximo post.