OPINIÃO

Carta de Chicó a seu mestre, Ariano Suassuna

26/07/2014 09:13 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:22 -02
Reprodução

Meu véi, meu véi arretado, daqui de cima da terra, sete palmos acima da terra que um dia há de me comer, que um dia há de comer todos nós, que, gulosa, já está te comendo, te digo, de modo irreparável... vosmecê foi simbora cedo para alguns, pode ser que até pra muitos, cedo para essa gente que chorou por esse Brasil gigante de Deus, cedo até pra presidenta da nação que despencou lá da capital pra te dar um adeus. Mas, pensano bem, para o desenrolar da vida até que vosmecê foi na hora certinha, certinha, certinha. Na hora certinha, ora, vejo agora no relógio da vida e da morte que tu, cabra danado, não deveria ter ido nem antes nem depois nem em qualquer outra hora, afinal, não há hora pra morrer, não há tempo certo pra encontrar a Caetana ou que nome o povo costume dar aí para a caveira com foice, por mais que os cabras, tanto faz se sertanejos se nordestinos se capiaus se estrangeiros se gente da cidade grande se gente que corre o tempo todo do trabalho pra casa da casa pro trabalho do trabalho pra casa da casa pro trabalho sem nem tempo de dar um beijo na mulher uma passadinha na casa das amante uns tapas na pantera, digam que há mora pra morrer. Não, não há.

E morreno agora, seu Suassuna, seu Ariano, vosmecê escapa de um monte de coisas que anda estragano esse mundo criado por Deus e protegido por Nossa Senhora, Maria e José, meu Jesus Cristim. É, vosmecê se livrou da presidenta te chamar nas redes sociais por Suaçana, suçuarana ou teria sido outra cobra? Se livrou, também, seu Ariano, de ver mais gente lá do outro lado do mundo jogar umas bombas e matar mais gente do outro lado do mundo, mas que é vizinha, quase de casa, dessa gente do outro lado do mundo que teima em tirar gente desse mundo e mandar pro além-mundo. E, pior, seu Ariano, é que quem mata os vizinhos é justamente quem teve os parente do passado mortos de maneira igualmente covarde. Só porque se achavam melhor e mais bonitos e mais fortes e mais inteligentes do que essa gente que hoje mata pensano a mesmíssima coisa. Uma solução final que teima em lembrar outra solução final. Povo sem memória, hein, seu Ariano. Ou seria Suassuna? Ou Suaçana? E não tô mentino, viu, isso é coisa de João Grilo, que vive metido em confusões, mesmo que nessa ou nessas não tenha o dedinho dele.

Ah, deixe-me continuar essa levada louca, afinal louco é mesmo esse mundo em que esses pássaro de ferro teimam em cair matano gente e mais gente lá na África, na Europa, na Ásia, tanta gente que até imagino que vosmecê tá pegando fila aí, pra entrar no reino dos céus. Opa, vem cá, seu Ariano, rola mesmo aí fila pra entrar no reino dos céus? Se rolar, tem como furar a fila? É que quero ver Nossa Sinhora primeiro, né, e beijar a mão dela, ô, bicha bunita. Se rolar, deve tá cheio de brasileiro, povo que adora uma fila, né? Tanto pra pegar água no caminhão-pipa na secura que a gente vive no interior desse nosso Nordeste quanto pra pegar o dinheirim desses projetos da dona que errou seu nome, mas que descambou da capital pra dar um abraço final no seu caixão. E quanto pra entrar no reino dos céus. E se rola fila aí no céu a coisa tá braba também pra outros cabra, né, recém-chegados, como o João Ubaldo e o Rubem Alves? Seu Rubem não conheci bem, só soube que era um homi inteligente que só ele, um, como se diz, filósofo, ou alguma coisa parecida, mas sei que João Ubaldo deve estar todo tranquilão, tomando sua bebidinha. Opa, tem bebida aí em cima? Se não tiver, vixe, seu Ariano, o seu Ubaldo deve tá com um humor daqueles, maldizendo o povo brasileiro, ahahah. Desculpe, seu Ariano, sei bem que essa piadinha foi infame, mas infame mesmo são as coisas que o senhor deixou de viver aqui embaixo, nesse inferno.

Olha só, nem sei se vosmecê estava em condição de saber, mas enquanto vosmecê agonizava e deixava de torcer pro seu Sport querido, o Dunga voltou pra seleção brasileira de futebol. Não, não é o anão dos contos de fadas, mas é mais zangado que um deles, Virgem Maria. E não, não é pra jogar bola, mas é pra não deixar nossos craques jogarem. Se bem que um time nosso que leva de 7 não pode ser chamado de time de craques, né, seu Ariano. E ainda mais de um time estrangeiro, sei bem que o sinhô não tinha simpatia por essas coisas de fora. E, por isso, tenho até uma leve desconfiançazinha, uma leve desconfiançazinha que corre o risco de vosmecê ter piorado, e muintcho, ao saber dessa história do Dunga. Mas isso não é o pior, cridite ni mim. O pior é a gente ler nos jornais e no computador as notícias do mundo. Não, não sou muito de ler, mas sou bom do ouvido, como vosmecê, que me criou, sabe muito bem. E aí, nessa toada, eu escuto que o primo do goleiro Bruno, aquele que era um craque do time de maior torcida do mundo, rubro-negro como o Sport, conta que a moça da qual ele é acusado de mandar matar, partir em pedaços e dar pros cachorro, foi enterrada inteira. Inteirinha, seu Ariano, inteirinha, credita? Virgem Maria, nossa senhora, Jesus Maria José, que história macabra, seu Ariano, certeza que nem o senhor, com toda a sua imaginação, criador de gente como eu, do burrinho João Grilo e de tantos outros, pensaria que o ser humano, que num tem nada de humano, seria capaz de uma malvadeza dessas. E tem mais. Muintcho mais.

E tejuro, juradinho, por todos os santos dos quais o senhor é devoto, que dessa vez, inventei nada, não. Desculpe se atrapalho seu caminhar aí na fila pra entrar no reino dos céus, logo o senhor que queria nascer mil vezes de tanto amar a vida, mas é que as coisas desse mundão tão de matar, seu Ariano. Ou seria de morrer? Num sei, só sei que foi assim.

Acompanhe mais artigos do Brasil Post na nossa página no Facebook.


Para ver as atualizações mais rápido ainda, clique aqui.


MAIS SUASSUNA NO BRASIL POST:

Vida e obra de Ariano Suassuna