OPINIÃO

Sem a participação dos grupos 'anticorrupção', cai o político mais corrupto de Brasília

07/07/2016 16:07 -03 | Atualizado 07/07/2016 16:07 -03
EVARISTO SA via Getty Images
Brazilian suspended president of the Lower House Eduardo Cunha speaks with the press at the Congress after resigning to the Lower House Presidency in Brasilia on July 7, 2016. Cunha, the Brazilian politician who spearheaded the drive to impeach suspended president Dilma Rousseff, resigned from his post as congressional speaker as a corruption probe closed in on him. / AFP / EVARISTO SA (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

No futuro, os livros de História dirão: o político mais corrupto que surgiu na política brasileira no século XXI renunciou ao seu cargo na presidência da Câmara dos Deputados. E qual a participação dos auto-declarados "grupos anticorrupção" nisso? Nenhuma.

Nadinha. Não moveram uma palha sequer.

Deve ser por isso que os gringos ficam loucos quando ficam sabendo sobre o cenário político no Brasil.

Tente explicar isso: a presidente afastada Dilma Rousseff, após várias manifestações de movimentos "indignados com a corrupção", sofre impeachment. E como isso aconteceu? Com o apoio do deputado federal Eduardo Cunha (PMDB), que tornou isso possível. Justamente o político mais corrupto da história recente do nosso País.

A política brasileira não é fácil, não é para iniciantes. Mas não é preciso ir muito longe para entender o fenômeno da corrupção no Brasil.

Aqui, enquanto a corrupção de alguns é aceitável, a corrupção de outros é motivo de escândalo e indignação. Afinal, tudo bem termos o Eduardo Cunha como presidente da Câmara dos Deputados, uma pessoa investigada por ter recebido R$5 milhões em propina, além de lavagem de dinheiro utilizando contas bancárias na Suíça, sem mencionar a denúncia sobre seu envolvimento em desvios nas obras do Porto Maravilha no Rio de Janeiro. Isso porque nem citei o caso envolvendo o fundo de pensão dos funcionários da CEDAE, ou o próprio Panama Papers, e ainda por cima o recebimento de propina no Fundo de Investimento do FGTS.

UFA!

Tudo começa a fazer sentido quando você pesquisa sobre qual partido político pertence o Eduardo Cunha: o PMDB.

Mesmo partido do presidente interino Michel Temer, que após o impeachment de Dilma Rousseff, consegue colocar em prática medidas políticas que são favoráveis aos seus aliados - empresários, multinacionais, bancos, agronegócio, além da camada mais conservadora da sociedade brasileira, composta por fanáticos de extrema-direita e evangélicos radicais homofóbicos.

E, não por acaso, estamos falando do mesmo partido no qual o fundador do Movimento Brasil Livre (MBL), Rubinho Nunes, se filiou para ser candidato à prefeitura do município de Vinhedo, localizada no interior de São Paulo. Para quem não sabe, o MBL é um dos principais grupos que organizaram manifestações contra Dilma Rousseff, do Partido dos Trabalhadores.

Estamos falando do mesmo MBL que hoje defende com unhas e dentes o presidente interino Michel Temer, chegando a organizar uma manifestação em defesa de seu governo, convocada para o dia 31 de julho em todo o País.

A partir disso, você começa a entender porque esse grupo de pessoas não se importou em tirar selfies e fotos do lado de Eduardo Cunha, o político mais corrupto da atualidade.

E também porque eles não se importaram em tentar tirar esse cara da Câmara dos Deputados.

Quando você junta todos esses fatos, você começa a entender como funciona o jogo político no Brasil. Algo que definitivamente não é para amadores.

E quem derrubou Eduardo Cunha, então?

Além da parcela da população brasileira que realmente fica indignada com a corrupção em Brasília, podemos afirmar que a arrogância do deputado fez o trabalho quase que inteiramente sozinha. Uma pessoa que se achava intocável, digna dos aplausos de uma multidão surda e muda.

Mas como diria o técnico de futebol Muricy Ramalho: "A bola pune". Não só a bola, mas a política também. A política pune. Um dia você é o acusador, sentado em seu trono de ferro, e outro dia é você que sofre a guilhotina, sozinho, chorando lágrimas de crocodilo.

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