OPINIÃO

Por que defender cegamente um político não parece ser a coisa certa

16/06/2016 19:02 BRT | Atualizado 16/06/2016 19:02 BRT
Bloomberg via Getty Images
Fernando Haddad, mayor of Sao Paulo, speaks during an interview at City Hall in Sao Paulo, Brazil, on Thursday, July 10, 2014. Haddad hopes the World Cup helped transform his citys image among the 500,000 tourists who visited during the event, saying Most of those who came in for the first time will come back. Photographer: Paulo Fridman/Bloomberg via Getty Images

Não se pode esperar muita coisa de quem prometeu urbanizar a Favela do Moinho e não cumpriu sua palavra até hoje, 4 anos depois. Criticar o prefeito Fernando Haddad (PT) por sua política higienista contra o povo de rua é uma obrigação, tão importante quanto denunciar a política conservadora do governador Geraldo Alckmin (PSDB). Defender cegamente um político no Brasil é uma cilada.

Conversava com um colega pelo Facebook sobre a questão dos moradores de rua, que nos últimos dias tiveram pelo menos 7 mortos por conta do frio em São Paulo.

"É realmente lamentável", me disse.

"Mas criticar o Haddad em ano eleitoral é dar voz para a direita", completou.

Não. Criticar a postura de Fernando Haddad contra a população em condição de rua é uma verdadeira obrigação. Se a direita se aproveita disso para contar vantagem, seja através dos meios de comunicação ou de discursos políticos, isso é culpa justamente do próprio prefeito, que permitiu a ação truculenta de guardas municipais contra moradores de rua, retirando cobertores dessa população fragilizada e marginalizada em pleno começo de inverno.

Chega a ser inaceitável tal postura por parte de algumas pessoas que acabam defendendo individuos políticos cegamente. Como se aquela personalidade representasse algo maior do que a ideia em que acredita. Como se Fernando Haddad na prefeitura de São Paulo fosse mais importante do que aquilo em que acreditamos.

Não é. Nunca foi.

Não é de hoje que Haddad assume tal postura higienista e autoritária. É bom lembrar de três pontos críticos em sua gestão até o momento.

O primeiro é na Favela do Moinho, que se torna cada vez mais "insustentável" na ideia de cidade que o prefeito petista tem para São Paulo: limpa, elitista e segregadora.

Sua promessa de campanha para a comunidade que vive na última favela aberta do Centro da cidade foi a urbanização da região, com serviços básicos como esgoto, saneamento básico, entre outros. Seu prazo para cumprir tal promessa era até o segundo semestre do ano passado. Hoje, faltando poucos meses para as eleições municipais, o prefeito Haddad ainda não cumpriu sua promessa.

Os moradores não se calaram.

Por meses se manifestaram contra o prefeito. Levaram cartazes para a prefeitura, exigiram reuniões com Haddad e sua equipe. Foram ignorados.

O mesmo se repete em relação aos moradores das malocas de Alcântara e Cimento. Em uma ação coordenada pela Guarda Civil Metropolitana (a GCM), moradores sofreram agressões nos meses de agosto e setembro do ano passado. São pessoas que vivem em habitações construídas com materiais improvisados, como sobras de madeira, papelão e lona. Vivem geralmente de baixo de algum viaduto ou ponte. E mesmo assim são vítimas da prática higienista da prefeitura de São Paulo.

O povo das malocas resistiu. Com o apoio do Coletivo Autônomo dos Trabalhadores Sociais (Catso) e da Pastoral Povo de Rua, eles ocuparam a Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social. Conseguiram uma reunião com o secretário de Direitos Humanos, Eduardo Suplicy.

Não deu certo. A prefeitura não quis abrir mão do seu plano: não promover habitação digna para aquela população, mas sim oferecer a chamada "bolsa aluguel", além de oferecer "tendas". Já os moradores, argumentam que as medidas da prefeitura visam apenas em afastar os moradores das malocas do Centro.


E agora, com mais uma medida que parece ter como objetivo afastar o povo marginalizado do Centro -- o que seria uma prática higienista de fato -- , a prefeitura permite que a Guarda Municipal Metropolitana retire dos moradores de rua os cobertores doados pela população, em pleno começo de inverno paulistano -- um dos mais frios das últimas décadas.

Até o momento, foram cerca de 7 os moradores de rua que faleceram por conta do frio na cidade.

Haddad consegue ir além da sua prática, defendendo o indefensável: "Qual é a orientação? Não deixar favelizar praças públicas", disse o prefeito. Além disso, a prefeitura disse que não é permitido "a privatização do espaço público".

O mesmo prefeito que defendeu em determinado momento a privatização da Previdência Municipal, hoje considera um cobertor uma atitude que pode ser considerada como "privatização" do espaço no qual o morador de rua se encontra.

É higienista. Segregador.

Dizer que essa questão vai "muito além de um cobertor no inverno paulistano", tentando justificar ou diminuir o papel do prefeito petista nessa absurda ação vai além de se calar -- é defender cegamente aquilo que não representa nossas ideias, e sim uma personalidade, um individuo político.

Para Haddad, deixo a letra de Criolo, na música 'Tô Pra Vê':

"Sem moral na quebrada, sua carapuça caiu. Ai, coisa feia... É óleo de peroba nessa cara de madeira".

*Texto publicado inicialmente em Democratize

ATUALIZAÇÃO:

Sob pressão devido ao tratamento dado a moradores de rua na atual onda de frio em São Paulo, o prefeito Fernando Haddad (PT) decidiu mudar a política de assistência e anunciou ações emergenciais. Além disso, na noite da última quinta-feira (16), pediu desculpas por ter usado o termo "refavelização" ao falar do que precisava ser feito com a população de rua.

As informações são do jornal Folha de S. Paulo.

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