OPINIÃO

O governo Temer é provisório, mas o estrago é permanente

07/06/2016 19:01 BRT | Atualizado 07/06/2016 19:01 BRT
EVARISTO SA via Getty Images
Brazilian acting President Michel Temer gestures as he delivers a speech during the inauguration ceremony of the new Minister of Transparency, Torquato Jardim, at Planalto Palace in Brasilia, on June 2, 2016. Brazil's interim government on Monday suffered its second crisis in a week when the Minister of Transparency Fabiano Silvera resigned after he criticised the investigation of corruption in state oil company Petrobras. Temer has picked a market-friendly economic team and vowed to make extensive reforms, but already has lost two of his new ministers to a massive corruption scandal centered on state oil company Petrobras. / AFP / EVARISTO SA (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

Em menos de um mês, o governo interino de Michel Temer assiste a possibilidade de ter um ex-ministro preso. Sim. Preso.

P-R-E-S-O.

Nunca antes na história desse País vivemos situação semelhante.

Mas que de alguma forma, segue um roteiro que muitos já sabiam como seria antes mesmo de começar - e me incluo nesses muitos.

Imaginem um governo que não foi eleito.

O Presidente da República, citado diversas vezes em delações premiadas em uma das operações mais polêmicas da atualidade - a Lava Jato.

Ao seu redor, deputados federais e senadores envolvidos diretamente no escândalo, inclusive dois nomes importantes do seu próprio partido - Renan Calheiros, presidente do Senado, e Eduardo Cunha, responsável pelo impeachment da presidente afastada Dilma Rousseff, e ex-presidente da Câmara dos Deputados.

Sem carisma. Sem nenhum plano político. Aprovação praticamente nula e inexistente por parte da população e dos trabalhadores.

E tudo isso resultado de um processo ilegítimo e questionado ao redor do mundo, que foi o afastamento de Dilma.

É claro que esse seria o resultado. É claro que os organizadores das passeatas "contra a corrupção" acabariam sumindo posteriormente, agora que seus padrinhos políticos estão ocupando ministérios e secretarias em Brasília, enquanto se preparam para as eleições municipais deste ano, onde devem lançar candidatos e se tornar "mais um deles".

Eu não gosto de questionar a inteligência do povo brasileiro.

Até porque acredito que a grande maioria não concordou com tudo isso que aconteceu na política nos últimos meses. Ok: 1 milhão na Avenida Paulista. Tudo bem. As Jornadas de Junho conseguiram colocar tanta gente quanto, e nem por isso fizemos a reforma política, ou nem por isso destinamos 10% do PIB para a Educação, ou até mesmo a passagem de ônibus e do metrô se manteve abaixo do que o esperado.

Ou seja: é hora de acordar essa inteligência da sociedade em geral. Não se trata de um processo político que nasceu das ruas - e sim dos bastidores, em salas fechadas com ar condicionado e políticos sentados ao lado de lobistas, em uma orgia de conspirações para mais uma vez ferrar com o brasileiro.

O pedido de prisão feito pelo Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, contra três nomes importantes do partido de Michel Temer é um alerta.

Um verdadeiro tapa na cara do brasileiro, dizendo: "Ei, tá vendo só? Eles foram presos tentando retardar a operação Lava Jato que você tanto defende. E sabe quem eles colocaram na presidência pra fazer isso? Um cara que não foi eleito presidente, e sim vice".

O ódio descontrolado contra o Partido dos Trabalhadores não pode colocar em risco a nossa democracia - e principalmente a nossa sensatez.

O governo Temer pode ser provisório, mas o estrago que nasceu com o impeachment e continua durante a gestão interina em Brasília é permanente.

E somos todos responsáveis por isso.

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