OPINIÃO

O exílio invisível das crianças

30/03/2014 06:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:16 -02

"Golpe" é uma das palavras mais antigas da minha vida. Nunca tive que perguntar o seu significado; eu já sabia. A palavra sempre entra nas discussões políticas que se estendem noite adentro lá em casa. Muitas vezes, eu adormeço embalada pelo ritmo de palavras como trotskismo, luta-de-classes, resistência... São palavras íntimas, ainda que não entenda seu significado. Mas "golpe", por ter afetado nossa vida de uma forma drástica e definitiva, eu já sabia o que queria dizer (ou achava que sabia). Muitas vezes, ela vem acompanhada da palavra "cair". O golpe faz as pessoas caírem: "Fulano caiu" - Por causa do golpe. E muito cedo entendo que "cair", da forma como é utilizado lá em casa, é muito mais grave do que os tombos que eu levo enquanto aprendo a andar de bicicleta sem rodinhas. Naqueles tempos, muitos amigos dos meus pais caíram. E eu sei que, às vezes, quem cai não volta nunca mais. Em 1971, meu pai também caiu. Por sorte é solto dias depois, e seguimos todos para o Chile.

criancas

Argentina, Janeiro 1974. - Filhos de exilados brasileiros. Esquerda: Carlos A. Carvalho (Carlinhos). No centro, eu.

Falar das crianças que acompanharam os pais que lutaram contra a ditadura para fora do Brasil é falar de um exílio invisível, sobre o qual ainda foram colocadas poucas imagens ou palavras.

Eu saí do Brasil com 5 anos e voltei aos 14. Durante esses nove anos, moramos em cinco países, com algumas idas e vindas entre eles. Foram oito mudanças de um país para outro e 15 casas diferentes. Casa é outra palavra que não quer dizer apenas o que parece. Pode ser um "aparelho" clandestino, uma embaixada, um quarto de estudante num campus universitário. Muitas vezes, nossa casa tem várias funções: moradia, mas também gráfica clandestina, depósito de armas e - sempre - local para as reuniões. Reunião é uma palavra da qual eu nunca gostei, são chatas e intermináveis. A sala fica cheia de gente e fumaça. Nós, as crianças, não devemos fazer barulho. Eles, os adultos, também não. Mas sempre esqueciam disto, e, no calor da discussão, levantam a voz.

Em 1972, um ano antes do golpe de Pinochet, fomos para Buenos Aires, onde meus pais fazem um estágio armado, junto ao ERP (Ejército Revolucionário del Pueblo, braço armado do PRT). Eles se preparam para voltar ao Chile e resistir ao golpe militar, que naquele momento já era esperado. São nove meses num conjugado escuro, dividido em dois cômodos por uma estante de livros. Eu não vou à escola. Somos clandestinos, uma palavra que eu acho bonita, romântica. Com poucas opções, meu irmão e eu brincamos "de reunião". Cada um com seu caderninho e um monte de palavras que mal sabemos pronunciar.

No inicio de 1973, voltamos para o Chile. Eu me lembro da minha alegria, porque a essa altura o Chile tinha se tornado o meu país de referência. Para mim, o exílio sempre foi vivido em relação ao último país onde os laços se criaram, ou seja, o país do qual "fugíamos". O Brasil não era a única referência. Acho que essa é uma das diferenças entre a experiência do exílio das crianças e a dos adultos. Para os pais, o país que se deixou será sempre o Brasil, os outros são passagens.

Do Chile, tenho muitas lembranças boas. Eu estudo numa escola pública perto de casa, onde aprendo a ler. Tenho minha primeira grande amiga, a Silvia. Como sempre, nossa casa vive cheia de militantes; mas isso faz parte, é normal. Durante um tempo, o Paulo e a Cristina moram conosco. Eles tem um bebê, o Caetano, que já nasceu no Chile. Uma vez, acordo no meio da noite e surpreendo minha mãe e a Cristina preparando cestinhas com ovos de Páscoa. Lembro até hoje da alegria e expectativa que aquela cena provocou em mim. No Chile, nossa vida é parecida com a de outras crianças, ainda que com um passaporte falso na gaveta.

O golpe de Pinochet é de uma truculência inesperada e a resistência armada que se imaginava não acontece. Nossa casa - que também é aparelho e comitê central do partido (POC - Partido Operário Comunista) - é invadida pelos militares. Eles prendem um militante que também mora conosco, o Nelson de Souza Kohl. Muito tempo depois, tivemos a confirmação de que Nelson foi assassinado no Estádio Nacional.

Nós nos refugiamos na Embaixada da Argentina em Santiago. A experiência na Embaixada, dentro da sucessão de países pelos quais passei, é um capitulo à parte. São três meses numa casa imensa, que parece um palácio, com um jardim incrível. Na verdade, com 700 pessoas dividindo esse espaço, nem parece tão grande. A comida é contada e de vez em quando alguns ânimos se exaltam... Mas quando eu penso na minha infância, apesar dos tiros, do risco, do medo, apesar de termos deixado a casa com todas as nossas coisas para trás, e entre essas coisas uma pasta de desenhos que era minha maior preciosidade naquela época, apesar disso tudo, lembro da Embaixada da Argentina como um dos momentos mais alegres da minha vida. Acho que isso se explica pela convivência intensa com crianças de toda América Latina, que estão ali como eu, esperando, num lugar que não é um país e que é provisório para todos. Eu acho que essa alegria tem a ver com se sentir fazer parte de um mesmo grupo. E eu poucas vezes tive essa sensação como naquele palácio. Ali, conheci o Carlinhos, meu primeiro "namorado". Juntos, fundamos o CAE - Comitê Anti-Equatoriano - único partido no qual militei em toda minha vida. Organizamos uma histórica passeata de crianças pelo jardim, em protesto contra a atitude de uma gigantesca família equatoriana que sistematicamente furava a fila na hora do almoço. Eu tinha 8 anos.

Meses depois, na Bélgica, reencontramos meu pai, que tinha saído do Chile por outra embaixada. É um período curto, de seis meses, mas muito difícil. Outra língua, outra cultura, o frio e também a frieza. Se, na Embaixada, eu tinha essa sensação boa de ser uma entre tantas outras crianças com uma história parecida, em Bruxelas e depois na França eu me sinto de novo sozinha, com uma experiência que não cabe, que não é possível compartilhar. Essa sensação me acompanhou a vida toda e principalmente na volta ao Brasil, depois da anistia.

Em maio de 1974, chegamos em Paris. Nos primeiros tempos, eu sinto muita saudade do Chile, saudade que, por uma questão de idade, eu nunca senti do Brasil.

A França é o lugar onde ficamos mais tempo e onde, aos poucos, crio raízes. E acho que uma das primeiras formas foi aprender rapidamente a língua. Me torno a pior aluna de matemática e a primeira da classe em francês. Dominar o idioma, falar sem sotaque, torna a adaptação mais branda. Mas é também uma forma de borrar vestígios do passado.

E fica clara uma das diferenças importantes entre pais e filhos nesse processo. Os filhos podem se fundir, fazer parte, esquecerem ou até não terem consciência do que os levou a morar em outro país. A própria noção de "outro país" é diferente (até porque muitos filhos nasceram durante o exílio, fora do Brasil). Já os pais têm uma consciência aguda e permanente do que os levou a deixar o Brasil. E para todos, ou pelo menos para a maioria, voltar um dia ao país de origem é parte integrante da vivência no exilio ("tem uma ditadura, quando acabar, a gente volta").

Depois de seis anos morando na França, em 1979, com a anistia, meus pais decidem voltar, de um dia para o outro. Aos 14 anos, pouco antes da volta ao Brasil, dou uma entrevista para o jornalista Roberto d'Ávila, que está em Paris fazendo uma série de reportagens sobre a volta dos exilados para o programa "Abertura", da extinta TV TUPI. Em determinado momento da entrevista, ele me pergunta se eu quero voltar para o Brasil. Eu digo que não e completo: "O Brasil, eu não conheço". A volta ao Brasil dos pais é mais um exílio para os filhos. A dor do exilio, para mim, é a dor do retorno. E se mistura à ela a revolta - pois acontece numa idade em que já existe a consciência de que, dessa vez, se trata de uma escolha. Golpes de estado nos obrigam a fugir. É questão de vida ou morte. Eu tinha experimentado isso duas vezes, sabia do que se tratava. Mas a volta ao Brasil era uma opção dos pais, não uma contingência. Pelo menos era o que eu pensava.

Acho que posso afirmar sem medo que a volta ao Brasil é um dos momentos mais complicados para os filhos dessa geração. A maioria dos relatos que recolhi são parecidos com o meu. Neles, fica clara a complexidade que é se adaptar num país que não se conhece e que te dizem que é o teu. Na escola, uma escola particular, progressista, para onde vou quando chego me perguntavam sistematicamente se meu pai é diplomata (as vezes chegam ao cúmulo de me perguntar se ele é militar!).

Se o exílio das crianças já era invisível, a volta delas ao Brasil é muito mais. Depois da embaixada da Argentina, o Carlinhos (Carlos Alberto Carvalho) viveu a maior parte do exílio com a mãe e o irmão Ernesto, em Portugal. Numa troca de e-mails, ele me escreveu recentemente:

"Voltei em abril de 1978, um ano antes da anistia. Eu tinha 14 anos e foi como voltar ao inferno. Somente três meses depois de nós, minha mãe obteve autorização do governo brasileiro para poder voltar, de modo que eu me via sozinho novamente com meu irmão, na casa da avó Maria, agora ainda mais cheia de tias e primos que vinham nos ver com a curiosidade de quem observava espécimes raras recém chegadas do estrangeiro.

Tivesse voltado um ano depois, teria sido recebido com festa no aeroporto, igual a tantos anistiados que voltaram ao país a partir de 1979. Ao contrário do desembarque festivo que veria na TV, a cena no afastado aeroporto do interior paulista, era composta por parentes e advogados aflitos, jornalistas curiosos e agentes federais desconfiados."

Eu respondi: "Um ano depois, quando eu voltei, Carlinhos, tinha festa no aeroporto. Ainda atrás do vidro do desembarque, eu percebia a euforia lá fora: amigos, familiares, faixas, batucadas, jornalistas... A emoção dos adultos era a do reencontro, a minha era a da perda de tudo que tinha deixado em Paris - amigos, amores, projetos e a língua. Talvez, sentimento que eles, nossos pais, tivessem experimentado uma década atrás. Essa festa definitivamente não era a minha, não era a nossa. Mas a diferença entre o pranto de emoção dos adultos e o da minha tristeza era invisível."

Texto escrito a partir de palestra ministrada na Biblioteca Nacional, no seminário "Encontros com o Exílio", dia 05.12.2013.

Veja o trailer do filme "Diário de uma busca"