OPINIÃO

Dado Dolabella e o filho de uma noitada

Fruto de sexo casual ou amor profundo, filho é filho.

21/08/2017 12:24 -03 | Atualizado 23/08/2017 20:39 -03
Sergio Moraes / Reuters
Dado Dolabella não é um cara do bem só por ter assumido seu filho 'de uma noitada'.

Dado Dolabella foi preso, nesta semana, por ter ficado sem pagar pensão alimentícia para um dos filhos. Eu nem sabia que o ator tinha filhos, não acompanho a vida dele e não conheço o caso. Portanto, não posso dizer se concordo ou não com a prisão ainda que, genericamente, ache justo que deixar de pagar pensão de filho dê cadeia.

Mas, o que me chamou a atenção na matéria do Catraca Livre foi outra coisa. No afã de defender o filho, a também atriz Pepita Rodrigues teria dito o seguinte: "essa foi uma criança que ele teve depois de uma noitada, e que assumiu, porque é do bem". Foram essas aspas que me fizeram mudar o tema da coluna desta semana. Porque há coisas sobre as quais a gente precisa falar.

Se foi sexo casual para ele, deve ter sido para ela também. E isso não define a importância da pessoa que geraram. Eu não sei se o rapaz é do bem ou do mal, mas o fato é que assumir um filho não é algo que tenha a ver com bondade. Não é mais opcional.

Se mulheres já dependeram da condescendência alheia para conseguir os nomes dos pais em certidões de nascimentos, os testes de DNA chegaram pra botar tudo em pratos limpos. Se o homem não faz o obrigatório (que é diferente de fazer "o bem"), há alternativa. Há a lei. Há a ciência. E não há mais como fugir à responsabilidade.

É claro que, infelizmente, existem mulheres que jamais terão acesso ao teste. Tem gente no mundo sem acesso a comida, imagine a testes de DNA. Só que, mesmo nos rincões mais distantes deste país, já é possível acessar a lei.

No tempo em que fui secretária de desenvolvimento social de Muritiba, cidade no Recôncavo da Bahia, participei da organização de um mutirão em que inúmeras mães puderam provar quem eram os pais dos seus filhos. De graça. Depois disso, foi só chamar cada um à responsabilidade que lhe cabe. Imagine quem mora no Rio de Janeiro. Imagine quem tem alguma grana. Bondade? Faz-me rir.

Em nenhum momento, durante o mutirão, o Ministério Público perguntou, a qualquer mulher ou homem, em que condições a criança em questão foi gerada. Fruto de sexo casual ou amor profundo, filho é filho. A barriga cresce, a criança nasce, pai e mãe assumem. A natureza não quer saber se o rapaz ejaculou depois de uma noitada ou de uma noite de sono. À justiça, não importa se o filho foi feito em pé num banheiro público ou na noite de núpcias no Copacabana Palace. Entendem? Apenas não importa.

Há mulheres que engravidam propositalmente, sem considerar o desejo do futuro pai? Claro que há. Há homens que sabotam métodos anticoncepcionais e engravidam mulheres sem que elas queiram? Também. Há gente escrota de todos os gêneros, sinto informar. No entanto, tem um negócio no Direito de Família que me parece uma das coisas mais certas que o ser humano já pensou: o Princípio do Melhor Interesse da Criança.

Traduzido aqui, por uma não especialista como eu, esse princípio quer dizer o seguinte: o bem estar do menor é prioridade absoluta. Junte isso ao Estatuto da Criança e do Adolescente e veja se cabe a discussão sobre a qualidade do sexo ou nível de envolvimento do casal que gerou uma pessoa.

Questionar o direito de uma criança por essa via é ranço do tempo em que homem que era homem saía fazendo muito filho por aí, engravidando esposas e amantes. A depender de quem fosse a barriga, a cria valia mais ou menos. Os homens maus apenas abandonavam. Os homens "do bem" apadrinhavam os próprios filhos, davam certo suporte aos que seriam, para sempre, cidadãos de segunda classe. Porque, como sabemos, bastardos não tinham direito a herança nem podiam chamar seus pais de "pai".

Só que o mundo mudou e nem sempre para pior. Não existe mais "filho ilegítimo" e, finalmente, homens estão entendendo que não dá pra sair de boinha de todas as situações. Para mulheres, nunca deu. Os abortos, os filhos sem pai, as histórias de abandono, historicamente, ficaram com a gente.

Antes tarde do que nunca, homens estão entendendo que dizer "foi ela que quis" não os isenta da responsabilidade. Sexo seguro, casual ou não, é responsabilidade de todos. Gravidez, desejada ou não, é de ambos. A criança que nasce não é só de um. Nem para o bem nem para o mal. E eu adoro que mais e mais homens passem a pensar sobre isso. Mesmo que seja por medo. Mesmo que seja por força da lei. Ou pela força de mulheres dispostas a fazê-la se cumprir. É a vida. Administrem, porque agora é assim.

*Publicado originalmente no site do jornal Correio

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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