OPINIÃO

O PSDB e a necessidade de se reinventar como partido

19/08/2015 13:57 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Senado Federal/Flickr
Plenário do Senado Federal durante sessão deliberativa ordinária. Em aparte, senador Aécio Neves (PSDB-MG). Foto: Waldemir Barreto/Agência Senado

Pela primeira vez, no último dia 16 de agosto, o senador e candidato derrotado nas últimas eleições presidenciais Aécio Neves esteve em um dos protestos críticos ao governo de Dilma Rousseff. Fez uma aparição de cerca de quarenta e cinco minutos no protesto de Belo Horizonte. Em São Paulo, José Serra esteve presente, afirmando que ali estava o "José", não o senador do PSDB. No primeiro caso, Aécio afirmou que "seu partido é o Brasil", enquanto falava de um carro de som do Movimento Brasil Livre. Em São Paulo, Serra, além de se distanciar de seu cargo, disse que era bonito ver um movimento "sem partidos", enquanto estava com o grupo do movimento Vem pra Rua. Ambos os casos estão relatados em uma matéria do Estadão. Se os motivos para ambos os políticos buscarem evitar um degaste partidário são compreensíveis, eles não podem embarcar na onda "antipartido" e, mais que isso, precisam definir os rumos do seu próprio partido, que necessita uma reinvenção.

Aécio Neves pode ter quaisquer perspectivas sobre um eventual impeachment, deve estar descontente com a situação, mas não pode esquecer-se de uma coisa: não foi apenas Dilma e o PT que venceram, foi seu partido que perdeu. A articulação política interna ao PSDB foi fraquíssima, não à toa algumas pesquisas apontavam que Marina Silva crescia mais do que Aécio após a morte de Eduardo Campos. Relembrando, quem seria o candidato presidencial do PSDB, José Serra, Aécio Neves ou Geraldo Alckmin? O nome de Aécio foi definido menos de um ano antes das eleições. Quando do anúncio da candidatura, foi feito sem uma chapa com vice-presidente. O escolhido foi Aloysio Nunes, senador do PSDB por São Paulo. Ou seja, um nome que não agregava outra demografia (uma mulher, por exemplo), outra região geográfica ou uma aliança partidária. Mais do mesmo em relação ao candidato.

Durante as eleições, sua campanha foi marcada pela falta de coordenação e de inovação, uma campanha quase indiferente, se mantendo no mero papel de oposição. Quando essa garantia numérica de ser a "única alternativa" se esvaziou, com a ascensão de Marina Silva, tiveram que correr atrás do tempo perdido. Os erros da campanha de Aécio foram brilhantemente analisados neste texto de Rafael Pinheiro Costa publicado no Xadrez Verbal. A derrota de Aécio foi um marco na História democrática brasileira, com um mesmo partido vencendo quatro eleições. O significado mais importante disso é demonstrar a constante e necessária construção do recente regime democrático brasileiro. E também deveria servir algumas lições para o PSDB. Que talvez ainda não tenham sido ouvidas. O primeiro é o discutido na introdução do texto: abraçar um discurso ríspido que rejeite os partidos enfraquece o próprio PSDB e descaracteriza seu próprio discurso político, uma coisa inócua e contraditória.

O próximo ponto é a falta de harmonia nos discursos atuais. José Serra sabe que não é mais presidenciável, assim como Aloysio Nunes, entretanto, ambos ainda são figuras muito influentes no partido e são do estado que mais fornece eleitores para o PSDB. Recentemente, tanto Serra quando Nunes falaram abertamente das possibilidades de um eventual impeachment de Dilma. Já Aécio e Alckmin são mais moderados no tema, pregando cautela. Muito provavelmente, pois um impeachment de Dilma, agora, colocaria Michel Temer na presidência, com dois políticos do PMDB no comando do Legislativo. A falta de harmonia dentro do partido não é novidade; Aécio não teria colaborado muito com a campanha de Serra em 2010, especialmente em Minas Gerais, para evitar que perdesse sua chance em 2014.

Fernando Henrique Cardoso, a figura que poderia harmonizar o partido, deu entrevista pedindo a renúncia de Dilma. Ou seja, nem pendeu para a ala de Serra, nem para as alas de Alckmin e de Aécio. Quem fala pelo partido, hoje? E o uso do plural mostra que a pergunta que antecedeu as eleições de 2014 permanece: quem seria o candidato tucano para uma eleição presidencial em 2018? Alckmin estaria de saída do governo paulista, sem possibilidade de reeleição, e ainda tem alguns anos de visibilidade na chefia do estado mais populoso e mais rico do Brasil. Aécio ainda teria quatro anos de seu mandato senatorial, com exposição na mídia pelo cargo e por se colocar como a principal alternativa ao PT no momento. Ambos igualados com uma derrota presidencial para cada. Cada um, para marcar seu território, adota um estilo diferente. Alckmin é cauteloso, elogia o "pensamento republicano" de Dilma e tenta se mostrar como um dialogador. Aécio busca ser o opositor, bradando de microfone em punho.

Essa definição, de uma candidatura de 2018, é mais importante para o PSDB do que para o PT. O partido atualmente no governo poderia colocar um político em evidência durante o mandato, pensando nas eleições, processo similar ao que aconteceu com Dilma no segundo mandato de Lula. Nesse cenário de crise, o PSDB deveria tomar uma posição coesa como oposição e crescer. Não é isso que está acontecendo. O partido que está em evidência é o PMDB. Ontem, a senadora Marta Suplicy anunciou sua filiação ao partido. O político visto como possível mediador, uma figura de diálogo, não é Alckmin, é Michel Temer, citado em comunicados da FIESP em páginas inteiras de grandes revistas. E a opção de confronto, de retórica pesada, não é Aécio Neves, esse papel têm sido o de Eduardo Cunha, líder da Câmara. Tal como nas eleições de 2014, o PSDB corre o risco de perder a posição de protagonismo na alternativa ao governo para um novo elemento. Urge a um dos principais partidos do Brasil se redefinir e ao seu papel na democracia e na política brasileira.

*Publicado originalmente no Xadrez Verbal

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