OPINIÃO

O dia em que Johnny Marr tocou (em) Interlagos

23/04/2014 18:02 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:24 -02
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LATE NIGHT WITH JIMMY FALLON -- Episode 930 -- Pictured: Musical guest Johnny Marr performs on Friday, November 15, 2013 -- (Photo by: Lloyd Bishop/NBC/NBCU Photo Bank via Getty Images)

Johnny Marr sempre foi um artista do inesperado. Nos Smiths, banda que ele e Morrissey criaram em Manchester em 1982, preferia as bordas dos holofotes e os óculos escuros enquanto construía suas sinuosas melodias. E mesmo depois do fim do quarteto, em 1987, quando o então garoto de 24 anos resolveu sair andando sozinho, pareceu nunca querer estar no olho do furacão. Tanto que só lançou seu primeiro disco solo, "The Messenger", em 2013.

O homem que subiu a um dos palcos montados pelo Lollapalooza em 6 de abril, em Interlagos, porém, passara a ser o centro das atenções naquele momento do festival. Eram duas e meia da tarde de um domingo, como o próprio Marr disse, "realmente quente". Mas a impressão era de que ninguém se lembrava muito disso.

Àquela hora, nem passava pela minha cabeça, por exemplo, que por pouco ele não tinha cancelado sua turnê pela América do Sul devido à fratura que sofreu na mão direita, em março. Só conseguia pensar que o guitarrista de uma das minhas bandas favoritas estava entre nós. Sim, o cara que compôs "Still Ill", "Hand in Glove", "Well I Wonder" e "Half a Person" fazia um show bem ali pertinho.

Confesso que a ficha demorou a cair. Era isso mesmo? A bela "New Town Velocity" e a rápida "Generate! Generate!", da safra século 21 de Marr, dirimiram as dúvidas. E até a poeira delas se foi quando ele dedicou uma música aos velhos e aos novos amigos. Começava "Bigmouth Strikes Again".

Permitam-me aqui uma digressão. Na verdade, tudo isso havia começado dez anos antes, em 2004, na discoteca do Centro Cultural São Paulo, na Vergueiro. Numa bela tarde, após as aulas na faculdade, resolvi rumar para lá e ouvir "Hatful of Hollow", uma coleção de singles, lados B e registros ao vivo dos Smiths. Com 22 anos, apaixonado (mesmo que platonicamente) por uma garota linda, mas que não queria nada comigo, e me sentindo sempre deslocado na vida, notei uma estranha e curiosa conexão com aquelas músicas. Se, por um lado, à época pouco entendia o que Morrissey cantava, por outro, tais melodias e harmonias pareciam-me mensagens diretas.

Pra começar, a vida não era uma linha reta. Havia muitas curvas nela e estávamos sempre prosseguindo. Ora de maneira leve, ora pesada. Só que até nos momentos tristes, pode surgir um sorriso, uma luz repentina na próxima esquina. Ou o mais sublime e doce acontecimento. Era isso que saía dos fones. Era algo assim que o baixo, a bateria e a guitarra, incansavelmente dedilhada, despejavam em minha mente.

Então, enquanto o domingo avançava no autódromo, Johnny Marr viria ao microfone dizer que tinha uma surpresa para nós. Como se não bastasse sua própria apresentação, ele chamou ao palco um velho amigo que estava nos bastidores. Ao entrar em cena, o baixista Andy Rourke tornou o show inacreditável de vez. Metade dos Smiths estava em Interlagos, aproveitando o reencontro para tocar "How Soon is Now?".

Não sou um dos favoráveis à volta da banda, mas o resultado foi emocionante. Rourke continua estático diante da audiência (além disso, ele saiu sem falar uma palavra à galera) e Marr interpretou a música com sua elegância habitual. Cantando uma faixa lançada em 1984, ele juntava passado, presente e futuro, dentro de poucos minutos. Sim, também havia adolescentes na plateia.

É nesses momentos em que você vê como são as coisas. Minha mãe vive dizendo que há um tempo certo pra tudo. Nada mais sábio. No ano passado, comprei ingresso para o show que Morrissey faria em São Paulo, mas o evento nunca aconteceu. Por motivos de saúde, ele nem veio à cidade. Já em 2012, ocorreu o inverso: apesar de o cantor ter se apresentado aqui, não consegui as entradas para vê-lo.

Foi apenas neste mês de abril que ouvi, pela primeira vez ao vivo, "There is a Light that Never Goes Out". Aos primeiros acordes, já dava para sentir a comoção. A voz de Marr não estava mais sozinha e se juntava a um coro que crescia em meio às curvas de Interlagos. Ao ponto de ele deixar de cantar para ouvir a onda que vinha do público. E depois retomá-la a partir dos versos que repetem o título da canção, na parte final. Vivi ali algo para guardar na memória.

O clássico dos Smiths não era inesperado no set list de Johnny Marr naquela tarde. Contudo, sua apresentação cheia daqueles momentos emocionantes, que parecem surgir do nada, foi digna da grandeza da música.

PS: Apenas ouça os Smiths tocando, em uma passagem de som para um show na Escócia em outubro de 1985. Nada do que escrevi aqui daria conta de explicar isso.